sábado, 18 de maio de 2013

Meu filho Emanuel. Sei que você ainda não lê o suficiente para entender esse texto. E ainda assim, não sei se entenderia a dimensão a que ele se propõe. Hoje, 18 de maio, mas há 6 anos, você apareceu neste mundo para fazer de minha existência algo com mais sentido. Ao lado de sua irmã, Iasmyne, tornou-se a maior razão de viver de teu pai. Teu sorriso, jeito cativante (e até danadinho – ou será por isso mesmo?), tua alegria de criança feliz e esperta, tudo isso faz de meu amanhecer um motivo de querer ir todos os dias te ver. Não é possível, é pena. Mas saiba que todas as manhãs, mesmo de longe, teu pai te pede e dá o beijo de sempre. Aquele beijinho molhado de quem tem sede de traquinar, pular, correr e, às vezes, exagerar na dose. Você é maravilhosamente engraçado, até quando fica emburrado. E se leva uma dura do “amigãozão” aqui (como você maliciosamente chama o “papai-elefante”), percebe-se um choro de quem quer muito a vida e seus momentos. Não chore, filho. Deixe isso para o pápi quando este, sofrendo, diz que “hoje não dá pro meu papaizinho ir lá em casa”. Mas quando vem...  ah!! É computador, Slash, rock’n’roll... E antes de ir embora aquele olhar curioso, procurando o próximo troféu para levar consigo, qualquer treco velho do papai vira brinquedo... vitrola, radinho de pilha, disco de vinil... E o pai aqui, sem nenhum remorso, te entrega todo o passado dele, pra que você brinque o presente e lembre de mim com alegria no futuro...

Feliz aniversário, Manu. Te amo.

domingo, 12 de maio de 2013

PARA AS MÃES




Perguntem a um humano qual mulher lhe deu os carinhos mais verdadeiros e inesquecíveis: será a mãe.

Perguntem a um humano que cheiro lhe marca as narinas e a lembrança: será o do colo da mãe e o da colônia passada com esmero para as orações dominicais.

E quais sabores lhe marcam o paladar? O leite da mãe seria a resposta pela transmissão de alma “via láctea” (não pelo sabor), mas a resposta será: o tempero da mãe.

E quando seus olhos mais se emocionaram? Foi homenageando a mãe na escola, na formatura, no casamento, no nascimento (dos seus próprios filhos), no velório... seus olhos lembrarão e ressorrirão e rechorarão pela mãe.

Se lhe perguntarem quais são os sons maviosos, certamente serão a voz da mãe a lhe embalar o sono e as palavras sussurradas no estado de quase sono, ou as orações na quase-morte que a levam a fazer promessas inimagináveis, mas prontamente pagas, quando o rebento corre perigo...

E nada marca mais o corpo de um humano que o calor do abraço materno, o beijo na testa, no olho, nos lábios, no corpo todo (com direito a leves mordidinhas nos bracinhos gordos, quando bebê – irresistível até para as zelosas mães).

E às mães? O que lhes perguntar? Fácil. Uma única pergunta, diante de várias situações:

Ao lembrar a dor do parto, a angústia do filho doente, as defesas heroicas na vizinhança, o corre-corre aos colégios, o choro ao altar, o desespero no cemitério... Você faria tudo de novo?

Ao dizer SIM, essa corajosa mulher sintetiza a maternidade de Deus e a magia do Universo.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

O MEDO DE MORRER





Sim, como todo ser humano, tenho medo da morte. Mas não da morte comum, fim controverso de uma vida para a sobrevivência de outras, como a dos vermes, por exemplo.
Temo a morte dos aromas que acalentam a alma, como o das flores, do café, do ventre de uma mulher ansiosa por amor, dos bebês recém-banhados. O delicioso empoeirado de uma obra ardorosamente procurada, o mormaço de uma chuva por meses aguardada. O pão quentinho saindo em fornada, o mato úmido.
Angustia-me a expectativa de não ver mais o sorriso da Monalisa, o pôr-do-sol, os olhos úmidos de quem se emociona, a arte de um drible, a interpretação de um ator em cena. Olhar para o céu (estando lá ou não) e não ver estrelas... Sentirei falta de não ver o sorriso cúmplice ou o aceno com a cabeça do aluno que entendeu o poema...
A pele arrepiada por um vento gélido, um toque estratégico, um texto empolgante, uma voz emocionada, um momento de paixão, um sussurro de “eu te amo” verdadeiro (raro, mas inesquecível)? Como sentirei saudades... Como me apavoro por não senti-los.
O gosto do seio trêmulo, do cigarro pós-café, pós-sexo, post mortem. Da fruta tirada do pé, da bebida suavemente embriagadora. Da rubra carne assada, da pimenta rubra, da boca rubra, do morango rubro. Lamentarei por não sentir mais o gosto da bala roubada da confeitaria.
E como não sentir medo de não ouvir mais o grito de gol do time a que se ama, a música que vira hino cotidiano, a voz do prazer, o gemido do prazer, o silêncio do prazer? A voz dos filhos chamando “papai”, o instante do reconhecimento, os estalados dos galhos secos, o pássaro errante, o eco dos tempos, a própria voz embargada... Como tremo de saber que não mais os ouvirei.

Mas há mais... Que importa que o corpo morra? Aterrorizo-me com a morte dos sonhos, com o fenecimento da alma, com o aborto dos sonhos, com o desaparecimento da luz que alumia a esperança. Temo não poder mais dizer, com ironia, indignação ou dor, tudo o que aflige alma. Pois uma alma aflita está viva. A satisfação plena é a vida entubada, artificial, ressuscitada por aparelhos. Temo perder a coragem que faz com que os meus me vejam como alguém questionador, corajoso, deliciosamente belicoso e irônico.  Sim, temo matar a revolta, mola propulsora das transformações. Temo morrer sentado solitário em um sofá, enquanto a cinza do cigarro cai com meu cadáver ao solo.
Não receio a dor, mas a responsabilidade da lágrima alheia. Não receio o desejo improvável de ser amado com ardorosa, eterna e carnal paixão, mas a certeza de morrer só. Não receio a Deus, mas a mim, que não sou digno de Sua piedade.
Não é pelo desaparecimento de meu corpo que me contorço em desespero. Mas pelo desaparecimento inevitável de minha lembrança da memória das pessoas com quem realmente me importei ou a quem dediquei aulas de razão e emoção. Pois se eu sumir da mente deles, não aprenderam a se emocionar, nem a respeitar a memória de quem lhes quis bem com a gratuidade dos moribundos desde o berçário...  E aí sim: tanto minha vida quanto minha morte terão sido em vão.