domingo, 2 de setembro de 2012

Desabafo de um profissional apaixonado pelo que faz.


Sexta-feira e sábado, tarde e noite, praticamente completos, dedicados à elaboração e correção de provas. Tudo para pensar em ter direito a um domingo de descanso ou lazer. E chego, a esta hora da madrugada, à triste constatação de que não o terei. Está no tempo de as pessoas que estipulam prazos lembrarem que somos humanos, não máquinas. 

E não adianta virem com frases como "São os ossos do ofício" ou "Quem não pode com o pote, não pegue na rodilha". Isso é detestável, é a inversão total de valores. Não trabalho em tantas escolas porque queira ser rico, mas porque quero pagar minhas contas, dar dignidade a mim e a meus filhos e ter lazer (sim, por acaso não podemos?). Se recebesse o que merece um profissional da educação por uma ou duas escolas apenas, sem ocupar todos os expedientes, e isso fosse o suficiente para dar o mínimo a mim e aos meus e poder descansar no fim de semana, não faria nenhuma questão de acumular riquezas. Esclareço logo que  não estou reclamando de salário porque, apesar de tudo, nossa classe ainda é uma das que recebe relativamente bem em comparação a outras, especialmente em escolas particulares. Falo de respeito aos homens e mulheres que se dedicam a essa profissão e não têm direito sequer a ter um encontro decente com a família ou consigo mesmo em um final de semana, porque algum burocrata acha que para que a escola mostre excelência, tudo tem de ser feito com extrema rapidez e, para isso, o professor deve ser o sacrificado. É tudo uma questão de boa vontade (ou má vontade, se pensarmos nos que nos impõem as datas-limite inadequadas) e de ideologia. 

As outras funções da escola, que dificilmente levam trabalho para casa, têm prazos compatíveis para realizar todas suas obrigações dentro do expediente. Já nós, professores, que aceitemos nosso "destino"? Não, não é por aí. Precisamos sentar e discutir isso. Se nós somos a "mola-mestra" da educação, como adoram dizer nas tão contraditórias homenagens ao dia do professor, se somos tão importantes, por os calendários não são feitos pensando também em nós? Sempre pensam em todos os setores: secretaria, gráfica, coordenação... Todos precisam de tempo hábil para fazer sua função dentro da escola. E nós, que levamos o serviço mais pesado para casa, temos um tempo igual ou inferior proporcionalmente ao que eles dispõem. Alguém vai lembrar que recebemos uma tal “5ª semana” para fazermos isso. Mas quem, senhores, quem entre os que temos responsabilidade, gastamos  esse tempo apenas nos seus afazeres educacionais? E lá vêm as exigências... Antecedência brutal na entrega de provas, de suas notas... Hoje contamos faltas, digitamos as provas, as notas... Fazemos as funções de vários setores, aliviamos o trabalho de todos eles. E nem mesmo o tempo que eles tinham na escola para fazer isso nos é acrescido para fazer a função deles, além da nossa. Nós que nos viremos com o mesmo tempo (ou menos, até!) para mais esses atributos. O absurdo é que alguns ainda nos olham com cara de espanto ao nos lamentarmos, como se não tivéssemos direito a querer ter um dia (eu disse UM DIA) do fim de semana TOTALMENTE livre. Parece, para tais pessoas (que não são mal intencionadas, creio, mas totalmente fora da realidade, porque não passam pelo que passamos), que estamos pedindo algo tão impensável quanto o fim do conflito no Oriente Médio. E qual é o problema em querer um prazo que me permita corrigir e elaborar tudo com folga suficiente para aproveitar UM DIA do fim de semana, em TODAS as semanas, como qualquer  trabalhador comum nesse país? É tudo questão de boa vontade, já disse.

 A esta hora, com certeza, muitos (talvez não todos) que estarão esperando nossas notas na segunda-feira para analisá-las, conferi-las, revisá-las ou simplesmente aguardarão nossas próximas atividades estão dormindo, amando, deliciando-se com a companhia dos filhos, de uma cervejinha ou de um filminho na TV. E amanhã não farão nada relativo a trabalho. Enquanto isso, eu e outros tentamos nos desdobrar para tentar passar ao menos meio domingo pensando em ir a uma praia, assistir ao futebol ou simplesmente brincar com os filhos. E muito provavelmente vários, como eu, chegaram à mesma triste conclusão que eu: o esforço foi em vão, porque a sobrecarga de obrigações é extrema, e o meu domingo pertencerá a estes, os únicos seres inanimados que se reproduzem: as provas. Até quando aceitaremos isso calados?