Bom,
para alguém de leitura apressada ou tarado de plantão, vale este aviso: não,
não se trata de um relato sobre jovens garotas de vida fácil sendo fecundadas
em templos de seitas religiosas em consagração ao amor.
Eu
começo este texto evocando a famosa perguntinha: “Quem nasceu primeiro, o ovo
ou a galinha?” E transfiro-a, num salto sem precedentes na história da
bizarrice, para minha vida: sou eu que não sirvo para as mulheres ou elas que
não me entendem?
Mais um relacionamento findo, e faço um breve
apanhado de minhas principais relações: entre casamentos, namoros e amores
irrealizados foram uns 10, mais ou menos. Em alguns, fui descartado. Em outros,
descartei. Somente em um dos que descartei não tive o menor remorso. Em
compensação, todas as que me descartaram fizeram-no pelos motivos mais torpes e
sem nenhum sintoma aparente de culpa. Ao contrário. Uma delas fez-me mesmo crer
que eu não prestava por não ter valores... em minha conta bancária. Os outros
valores? Esses? Bonitinhos, mas ordinários...
Houve de tudo um pouco nos ramos da
curiosidade, traição, alegria, tristeza, fatalidade, esperança e desprezo. Às
vezes vilão, às vezes vítima. Houve ocasiões (e não as coloquei na conta das 10
relações) em que o sentimento nem virou relação, praticamente. Ficou no campo
teórico ou do meu imaginário. Ou ainda, não passou de um “test-drive” de um
beijo. E não houve nenhuma maldade aqui. Vou citar esse caso só como exemplo.
Uma amiga (não colocarei o nome dela, assim como o de nenhuma das relações
acima, para não ficar expondo ninguém, embora neste caso particular essa amiga
provavelmente não se incomodaria, somos resistentes na amizade até hoje, e esse
episódio, quando lembrado, causa risos em ambas as partes, e até no marido
dela, também meu amigo) – pois bem, uma amiga – e eu resolvemos um dia nos “engraçar”.
Trocamos um belo, demorado e afetuoso beijo. No dia seguinte ela bateu à minha
porta. “Preciso te dizer uma coisa...” Nem esperei que terminasse e emendei: “Já
sei, somos amigos demais pra namorar. Concordo.” A seguir, uma crise de riso de
ambas as partes, meio que pelo cômico da situação, meio que de alívio pela
compreensão do outro.
Enfim, já tenho tentado viver esse negócio
bom que chamam de amor de várias maneiras: com cautela, sem cautela, com
mulheres mais novas, mais velhas, usando a anatomia como base... (com um pé
atrás, ou mergulhando de cabeça etc)
Nada parece dar certo. E não falta boa vontade minha. Uma de minhas melhores
amigas (não, com esta não tive nada. Risos.) diz que sou um ser híbrido, de
alma feminina, diferente de outros homens. Aliás, muitas das 10 relações
concordavam, pelo menos enquanto ainda estavam comigo. Mas sempre faltou, ora
nelas, ora em mim, aquele ponto de perfeição não possível, mas desejável, de
que aquilo ali seria pra sempre.
E aí a gente começa a se perguntar: será que
Deus reservou pra mim outra coisa que não o amor? Lembro-me de como dizem que
sou amigo, bom professor, meio psicólogo de todos. Houve até quem dissesse que
seria muito egoísmo de qualquer mulher querer ter-me só para si. E aí, já com
mais da metade da existência percorrida (nossa, como estou otimista, hoje),
começo a me ver só. Não dramaticamente só, com aquelas lágrimas mexicanas ou
como personagem de alguma história em que o suspeito é um esquisitão cheio de
manias e ruídos estranhos na sua casa (hum... tá, talvez eu tenha um pouquinho
desta última parte, sim). Mas uma solidão quase conformada de que é preferível ficar
só a maltratar alguém, ou a ser maltratado. Como se Deus me dissesse: “É melhor
assim, meu filho, tenho outros planos pra você.” De repente me vejo sendo
melhor amigo que namorado (embora eu não consiga entender como alguém pode
dissociar as coisas), melhor companheiro de cinema que de leito, melhor cupido
que alvo, melhor divã que travesseiro.
Essa noite dormi muito pouco, pensando nisso.
E de súbito me bateu uma vontade louca de chorar e um temor descomunal de gemer
de dor e não ter por quem chamar, caso adoeça de maneira grave, ou de que a
solidão me corroa a mente. Mas, ao mesmo tempo, um conforto estranho de alguém
que, pensando sempre mais no outro do que em si, diz: “Pelo menos, não firo mais
ninguém, nem serei ferido.” Estranho, sinto-me estranho. Vejo que chorei por algumas
pessoas que não me amavam de verdade e que outras choraram por mim quando não
sou digno de tanta devoção. E volta-me a pergunta inicial. Quem nasceu
primeiro, o ovo ou a galinha? Sou eu que não sirvo para as mulheres ou elas que
não me entendem? Acho que sou atrevido. Acho que o Amor não me entende, apesar
de eu entendê-lo muito bem.
Mas, se hoje Deus e a ciência começam a
caminhar muito próximos no rumo de uma mesma resposta (os criacionistas falam
na galinha, por conta da bíblica criação dos seres; os cientistas estão quase
provando que realmente a evolução celular levou primeiramente à galinha), quem
sabe eles não se decidem também sobre meu caso, bem menos importante, mas que
também daria uma boa canja...
Quer saber? Não vou esperar respostas. Vivi
até hoje muito bem sem saber do ovo ou da galinha. Devo conseguir fazer o mesmo
com minha vida.