Com tudo de histórico que vem acontecendo e que ainda pode
acontecer, não resisto e vou fazer mais um de meus longos textos, que alguns
amam e outros detestam. Pode parecer apenas biografia, a princípio, mas há uma
importante mensagem para jovens e SEUS PAIS, ao final:
Nasci em 1970. No auge da ditadura militar. Desde pequeno
entendi que nosso país tem visões muitas vezes distorcidas da realidade. Aos 6
ou 7 anos, não tenho certeza, eu corria com livros de capa vermelha (apesar de
não passarem de clássicos de Dostoievski, Tchekov, Gogol e outros, nada de
literatura “política”) para enterrá-los no quintal de casa, num buraco
previamente aberto. Os livros pertenciam a meu pai adotivo, húngaro de
nascimento (um “comunista em potencial”, segundo a polícia da época – coitado,
meu pai nunca foi de se envolver com nada disso, ao contrário, veio para o
Brasil fugindo da 2ª Guerra) que cometia o grande pecado de ser esclarecido.
Apoiei, como estudante secundarista, a maior paralisação de
professores da rede particular de ensino quando aluno do Colégio Cearense, o
que valeu aos líderes do movimento demissão (se professores) e suspensão (se
alunos). Eram 4 professores e 4 alunos que se recusaram a obedecer quando a
direção fez ameaças e mandou todos saírem do pátio de protestos e voltarem à
sala de aula.
Depois, universitário, participei de passeatas contra
Sarney, Itamar, Collor. Foram campanhas por eleições paritárias (sim, amigos
universitários, essa parece ser uma luta eterna), contra a baixa verba pra
educação (essa também) e pela causa de professores grevistas (mais ainda). Éramos
corajosos, fortes. Enfrentávamos polícia montada, armada, canina. Ou corríamos
para dentro da UFC, onde algumas polícias não podiam entrar. E lá passávamos
horas, com palavras de ordem, para em algum tempo sairmos escoltados ou fugidos
pelo muro lateral, perto da praça da Gentilândia. As calouradas tinham tom de
protesto, não o de festa que hoje possuem. Eu subia em mesas de restaurantes
universitários, fazendo discursos, principalmente anarquistas (mas não
anárquicos, vejam a diferença), contra a “ordem” estabelecida pela direita e
pela falsa esquerda.
Quando eu conto algumas dessas histórias a meus alunos em
sala de aula, ou uso como exemplo para debates com colegas professores sobre a “pouca
mobilização dos jovens”, eu sempre os “inocento”, dizendo que eles nasceram
livres, sem repressão, sem causas por que lutar (pelo menos, na cabeça deles).
Pois bem, felizmente, tudo mudou. Hoje eles reconheceram o estado calamitoso em
que o Brasil vive há 50 anos, no mínimo (um grande governo a partir do golpe
militar, por favor? Nenhum. Se não era repressivo, era um fracasso econômico,
moral... quando não havia tortura, era desmando, hipocrisia, conchavo... é
nisso que estamos hoje). Viram que precisam, sim, sair às ruas. E com uma
grande vantagem. Eles não precisam de brigar, quebrar, depredar. Sim, sempre há
os que fazem isso, mas a grande maioria, esmagadora, mesmo, quer uma revolução
na mente e nas atitudes, não nas estruturas já alquebradas da cidade.
Portanto, você que vai amanhã às manifestações, junte-se a
pessoas que tenham intenções reivindicatórias, mas sem agressão, depredação ou
confronto. A polícia, por sua vez, escolte os manifestantes por onde eles
quiserem ir, sem restrições de trajeto, pacificamente, detendo APENAS os poucos
desequilibrados e vândalos. Esse é um momento histórico no nosso país. Não o
estraguemos, dando margem a que emissoras de TV e rádio mal-intencionadas descaracterizem
a luta. E não façamos disso um ato contra PT, FHC, Dilma, PSDB, Lula, DEM, Cid,
Luiziane ou Roberto Cláudio. É contra TODOS. É contra o desmando que tomou
conta desse país desde que os militares usurparam o poder e que os civis pós-85
administraram tudo com interesses partidários e pessoais, não pelo bem do povo.
TODOS merecem nosso desprezo. Queremos algo NOVO. Governantes que façam pelo
povo, não por seus partidos, coligações e causas pessoais.
Para fazermos isso, saibamos usar do bom senso e das
atitudes contundentes, mas pacíficas. Não recuemos diante de policiais e
imprensa, mas não os confrontemos na porrada ou agressividade. Marchemos em
frente, simplesmente. E se a preocupação deles é o ônibus da seleção, deixem-no
passar. A seleção não construiu estádios, não desviou verbas, não votou pela
Copa aqui, muito menos quebrou saúde e educação. No máximo, a Confederação
brasileira de Futebol colaborou para isso. E ela não entra em campo. Deixem os
caras irem lá, jogar a bola deles. E continuemos indo, até os limites da
legalidade, protestando em todos os outros espaços, inclusive na frente do estádio,
mas sem quebrar, tentar invadir ou agredir. A polícia não poderá bater em quem não faz
nada de ilegal. Se esse for o espírito, teremos um dos mais belos, significativos
e apoiados manifestos da história do Brasil e do Mundo. E eu repito: podemos
fazer História.
Caros pais, eu sei que vocês estão preocupados. Eu mesmo pretendo
ir, não sem medo de enfrentar algum tumulto causado por um grupelho de imbecis
e que haja reação proporcional (ou não) da força armada. Mas não quero ficar de
fora desse momento histórico, dessa luta. Não barre seus filhos de irem, se
eles o desejarem. Confie. Oriente-os para que saiam em grupos, com outras pessoas
de bem que não farão nenhuma atitude agressiva (com certeza, vocês conhecem e
sabem quem vai, com essas características). Não prive seu filho de ser AGENTE
da história, se ele o desejar. Se você não foi antes, é a hora de compensar. Se
já foi, especialmente, sabe o quanto isso significa. Medo? Temos, claro. Eu
tenho 2 filhos: um de 6 que não irá, óbvio, e uma de 20 que, espero, estará lá.
Se temo que ela se machuque? Claro. Se temo que eu me machuque e eventualmente
ou tragicamente interrompa minha trajetória com eles? Claro que sim, sou
humano. Mas temo muito mais permitir que eles se tornem covardes ou que me
vejam como um. A saúde não está boa, minha perna dói pela má circulação. A
caminhada é longa, mas eu tentarei ir, sim. E queria ter 16 anos de novo, pra
começar tudo outra vez. Porque nossos filhos e netos merecem algo melhor do que
o que nós tivemos nos últimos 50 anos.