Acho muita bobagem na mídia e nas
redes sociais sobre as manifestações da população em cidades como São Paulo,
Rio, Porto Alegre, Natal e nossa Fortaleza. E como já me cobraram uma posição a
respeito, aqui vai:
É incrível a escandalosa manipulação
da mídia em torno do evento. As reportagens tendem (quando existem) a
desmerecer a angústia acumulada da população, cansada de ser roubada, seja nas
passagens dos ônibus, seja por marginais, seja pelos colarinhos brancos dos
ditames políticos. Preferem falaciosamente argumentar que “tudo isso foi por
conta de um aumento de 0,20 centavos” ou colocar pomposos governantes ou seus
representantes falando da “legitimidade da manifestação”, mas apoiando o ato “conservador
da ordem” da polícia. Certas emissoras, como a TV Verdes Mares local, possuem
analistas de violência especializados e muito bons, por sinal (no programa
matutino da dita emissora há aquele senhor negro, cujo nome me falha,
excelente, de fato), mas que não são chamados para comentar uma passeata contra
a... violência! Como assim? Não é a especialidade dele? Ou ele só serve pra
comentar assaltos, sequestros e mortes? Ah, é mais fácil dizer: “Vamos mudar de
assunto e falar da festa X em Barbalha” – isso foi real, vi esta manhã.
Enquanto isso, propagandas pagas
cobram (ou lavam os cérebros?) dos fortalezenses para mostrarem que a cidade é “da
alegria”... Decreta-se feriado para que o trânsito caótico não seja perceptível
aos olhos de nossos estimados turistas... institui-se um regime extra de
policiais para a Beira-Mar, onde esses mesmos visitantes praticarão turismo
sexual a olhos claros, sob a proteção policial, que cuidará apenas dos pequenos
meliantes e das infames moçoilas que quiserem abusar de seus ganhos com um “Boa-noite,
Cinderela”. Afinal, uma propaganda negativa sobre a nossa nobilíssima cidade
seria uma tristeza, não é mesmo? Hipócritas, sepulcros caiados!
E haja cinismo ao dizer que o povo tem o direito
de se manifestar... Meu Deus, que falsidade! Sabem de que manifestação “pacífica
e ordeira” eles falam ou aceitam que a população faça? Aquela que ninguém vê,
que não atrapalha ninguém , que não aparece na mídia nacional ou internacional
(“Brasil? Não... O Brasil é um país sério, em desenvolvimento, com pobreza,
analfabetismo e violência erradicadas”). Senhores, façam-nos cócegas com suas caras de
pau!
É essa a manifestação que eles
desejam. Silenciosa, morna, sem nenhuma repercussão. “Parar uma avenida? Um centro
comercial? A via de acesso aos pontos turísticos? Nunca! São vândalos,
desordeiros!” Eu até concordo que vandalismo não leva a nada. Dói-me ver
monumentos históricos, museus e outros locais culturais depredados. Mesmo os
bancos, comércios... Vários nada tem a ver com isso, e muito menos os clientes
da manhã seguinte, prejudicados... Mas pensemos. Se entre tantas mil pessoas há
uma centena de imbecis, o movimento inteiro é vândalo? Todos os manifestantes merecem
distribuição de sopapos e balas de borracha, defumadas em gás lacrimogêneo? Não
é mais sensato, civilizado e VERDADEIRAMENTE DEMOCRÁTICO permitir que a
passeata vá por onde quiser, que pare o que precise parar, e que a polícia
acompanhe os manifestantes para garantir que os mais exaltados (os imbecis,
eufemisticamente) sejam coibidos e presos? Ah, mas isso contradiz os interesses
dos que lhes dão ordens, que não querem justamente isso: a exposição pública dos
podres comandos que exercem e dos desmandos que acobertam.
Por fim, alguns políticos descarados
reverberam que “tais atos não são um manifesto da população, mas atitudes
comandadas por grupelhos partidários infiltrados na massa. Trata-se de um ato
político!” Se esses safados quisessem ter aulas de política, saberiam que TODO
ato é político. E que os partidos (não só aqueles pelos quais eles se elegeram)
também são frutos do povo, representam uma parte da sociedade, assim como os
sindicatos. Aliás, eles sabem disso tudo. É que o conflito de interesses é tão
descarado, que eles querem manipular tudo: a mídia, os partidos, o sentido do
trânsito, da passeata, das mentes do povo.
Portanto, alertem-se! Tão importante
quanto estar nos manifestos é denunciar a corrosiva campanha de difamação dos
movimentos legitimamente reivindicatórios!