sábado, 31 de agosto de 2013

Eu creio.

31 de agosto. Se meu saudoso pai fosse vivo, estaria fazendo 102 anos hoje. Sim, 102. Mas, infelizmente, já se vão quase 29 anos que ele se foi. E se celebro ainda essa data, é por acreditar que se uma infecção hospitalar após uma cirurgia dita simples não o tivesse vitimado, ele teria voltado pra casa em 3 dias, como foi dito à época, e ainda estaria até hoje entre nós, tamanha a sua vontade de viver e de ser feliz.

Mais que um exemplo, durante todos esses anos meu pai foi e é meu espelho, alter-ego, enfim, o Outro, tão famoso nas literaturas artísticas e médicas. O amor incondicional pela família, a cultura, a inteligência, a opinião firme, mas aberta à aceitação do alheio e ao diálogo, são algumas características que busquei herdar, por aprendizado, já que a genética não nos beneficiou. O espírito bonachão, embora sério, a simpatia para com o que lhe era caro e a sisudez com o que não lhe agradava, a tal ponto de ser o famoso “chato, mas legal”, esse modo de ser eu nem fiz esforço para seguir. Sou eu, enfim.

Mas há algo mais motivador que me leva a lembrar esta data hoje. Pensei muito, quase o dia todo - aliás, desde ontem -, sobre tudo o que vem me afligindo nesses últimos anos. E vi que ele não iria querer me ver assim. Angustiado, sofrendo, como se esperasse apenas a hora de reencontrá-lo. Ele, com o amor que teve por mim desde o ventre de minha querida mãe biológica, quando sequer sabia o que viria dali, deve estar preocupado comigo, assim como minha mãe adotiva. Porque ele tinha todas as virtudes que eu podia notar (até a raiva tão instantânea quanto momentânea, que lhe conferia autoridade e admiração pela capacidade de arrepender-se, ao mesmo tempo), e mais algumas que a pouca idade não permitia.

 Uma que eu não devo ter assimilado muito bem era a imensa vontade de me ver forte, grandioso, valente, esperançoso. Tornei-me alguém sensível demais, o que é muito bom para as artes e para as relações, mas péssimo para a tolerância a este mundo.  Sou aborrecido, triste, angustiado por tudo o que há e dá de errado na minha vida, na minha vivência (mas pelo menos sei que ele teria orgulho de mim como profissional – sei que não sou mau professor), no universo e sua maldita mania de premiar os malvados e condenar os bons. Parece que este mundo foi feito para quem maltrata. Mas meu pai não quereria me ver sofrendo por isso ou por qualquer outra coisa. Ele iria querer que eu enfrentasse, como ele fez, a tudo e todos que obstaculassem a simples felicidade que ele desejava tanto.

Pois eu decidi que está na hora. Tantos anos depois, chega a hora de eu tentar passar a fazer algo de que ele realmente sentiria orgulho: passar a acreditar. Nem que eu me arrebente, fracasse, seja vítima de chacotas (a começar por este texto) ou calúnias. Mas eu tenho a obrigação de tentar ser feliz. Até hoje tenho me dedicado a me lamentar e dizer: “Não posso. Não creio. Felicidade não é pra mim”. A única exceção plena é a vida de meus filhos, uma bênção maravilhosa e inabalável. Por vezes, não me envergonho em assumir, foram minha melhor razão para permanecer vivo. Mas não mais serão a única, de hoje por diante. Vou acreditar. Ou tentar, pelo menos.

Precisarei de uma força que nunca tive, e rogo a Deus para que me ajude. Mas vou acreditar que posso melhorar, crescer, evoluir. Em todos os aspectos (só não vou deixar de ser um estranho na Arte, continuarei gostando de filmes e literatura de terror, de coisas fúnebres e góticas – isso não é defeito, é estética, e por sinal de muito bom gosto). Mas vou acreditar que posso, mesmo secretamente, amar, ser amado e, ainda assim, feliz. Até que um dia os mistérios se desvendem aos meus olhos e aos de todos. E quero estar pronto para esse dia. A fim de ser melhor para mim mesmo e para quem aguentar este cidadão difícil, chato, um tanto destrambelhado e desleixado, mas honesto, amoroso, autêntico e, de hoje por diante... esperançoso.

Deus e Emmerich Szasz me abençoem.

domingo, 18 de agosto de 2013

SILÊNCIO PREOCUPANTE




Talvez alguns estejam estranhando minha ausência de depoimentos sobre a ocupação do Cocó e a questão do viaduto. Aliás, os mais atentos e próximos podem mesmo estar sentindo falta de postagens sobre questões políticas há um bom tempo. Logo eu, “reclamão” e de esquerda assumido.

Pois é, talvez seja só uma fase, já que meu espírito é muito questionador, sempre. Não estranhem se amanhã ou depois eu já aparecer criticando ou ironizando algo. Mas também não reparem se eu demorar. É uma fase, embora não saiba quando ou mesmo se passa (aí teria chegado à conclusão de que não se tratava de uma fase, mas enfim...).

É que eu tenho ficado muito irritado com as posturas de alguns, e nem sei se vale a pena entrar em conflito. A cada dia me convenço mais de que as pessoas não possuem postura política independente de linha ideológica, mas guiam-na pelos meros interesses próprios. A gente vê, pelas redes sociais, coisas inconcebíveis e absurdas saindo pelas teclas de quem menos se espera. Os movimentos parecem interessar apenas quando a causa lhe afeta diretamente. Aí começam a discutir entre si os que “ontem” marchavam lado a lado nas manifestações. 

Como exemplo, cito a causa dos médicos. São raros e radicais seus defensores. Porque ambos os lados só veem o lado pessoal: Quem não é médico diz: “Quero ter saúde boa e gratuita”, sem querer saber se o profissional da área será bem pago pra isso. Parece até que todo médico vive do status que realmente a classe possui. E alguns médicos, por sua vez, veem apenas o seu lado, sem mostrar uma solução plausível para a saúde pública do Brasil. Como se o remédio (perdão pelo trocadilho infame, o desejo de fazê-lo foi maior que eu) não passasse também por suas mãos.

É como se você dissesse: “não luto pelo respeito aos homossexuais porque não sou; essa é a luta deles”. Mas a questão não é ser ou não homossexual. É alguém merecer ou não respeito, independente de quem seja...  Então, se eu sou professor, só vou me informar, lutar e gritar por Educação? Se não tenho carro, dane-se o viaduto? E se tenho, danem-se as árvores? É difícil falar de igualdade social quando queremos as vantagens que nos cabem e ignoramos o que não nos afeta diretamente...

Vejam o caso mais recente, do Cocó. Tenho a nítida impressão, em quase todas as postagens que vejo (e as exceções são honrosas, de parte a parte) que o apoio ou não ao viaduto passa justamente por questões como ter ou não um carro, ser uma obra do grupo ligado ao Cid ou à Luiziane, derrubar ou não árvores perto de sua casa etc. É como se a questão ambientalista ou urbana fossem menores que suas possíveis perdas particulares ou as cores da bandeira que admiram. Dá pra garantir que alguns ativistas apoiariam o viaduto se fosse uma obra petista. Ou que os defensores da modernidade sairiam até nus para provar seu naturismo se a obra fosse da “loura”, como dizem. Quem tem carro, quer o viaduto e xinga os “retrógrados”; quem não tem, quer a natureza, numa espécie de vingança contra a pretensa “burguesia” dos motorizados (reforço... há numerosas e valorosas exceções – nem todo mundo tem essa visão restrita do problema). E as questões vão tão mais além... Natureza, transporte público, saúde, segurança... está tudo ligado. E ninguém para pra avaliar, ou mesmo pra se informar. Parece que é como se dissessem: “se as árvores derrubadas pertencessem a um político fazendeiro, poderiam derrubar: é propriedade privada, tem de acabar em nome do benefício da população”. Mas... e a natureza, não é a mesma? E os que defendem o viaduto, estariam assim enraizados se as árvores derrubadas fossem em frente a sua casa ou apartamento? Se o silêncio, paz e arborização destruídos estivessem ao alcance de suas janelas?

Para falar a verdade, eu não me considero habilitado para julgar a questão. Li pouco a respeito. A não ser os textos que os militantes dos dois lados me enviaram. E praticamente nenhum desses arquivos me pareceu isento de parcialidade. Também por isso não falei a respeito. Talvez alguns esperassem (com certa razão, seria meu normal) que eu aparecesse lá. 

Também não me tomem por ingênuo. Não creio que todo movimento é livre de interesses pessoais. Mas quando eles ultrapassam a informação, o sensato e o bem-estar coletivo, não dá para “curtir”, “compartilhar” ou coisa que o valha. E não me animei a fazê-lo nem mesmo quando um ou outro bom texto o merecia, Estou... cansado. Preciso parar, repensar e seguir adiante. Jamais serei direita, claro. Mas a cada dia me decepciono com movimentos de minorias ou de reivindicações. Eles só lutam por seus direitos. E seus opositores por suas causas. O coletivo nunca está em pauta. Aquela neutralidade de ser capaz de abrir mão do que é-lhe confortável em prol de todos passa longe  de ser uma opção. 

É como a questão da segurança (aliás, aproveito para dizer que por respeito aos movimentos abandonarei os grupos do facebook que tratam disso). Vivemos uma situação absurda de descaso, claro. Mas estou farto de ver gente falando (como se fosse possível) na emergência em colocar um guarda em cada esquina ou impedir todos os assaltos a carros da cidade. 

Ou ainda, a Educação. Os seus heroicos militantes são, muitas vezes, os primeiros a gazear aulas, rezar por um feriado ou querer passar de ano sem nenhum esforço. Que incongruências são essas? Que contradições regem a cabeça dos que buscam por melhoras? A resposta é simples: em todas as áreas, eles querem avanço apenas para o que lhes interessa. Sem abrir mão de nada. 

Sonho com o dia em que todos sejam capazes de perder um benefício individual aqui para ganharem todos ali. De hoje abrir mão de algo que lhe é caro em nome de que a população ganhe mais adiante. Talvez eu seja utópico. Talvez louco. Talvez idiota. Mas a verdade é que está cada vez mais difícil usar de isenção, por saber que do outro lado (nem sempre oposto, às vezes o próprio lado) dificilmente haverá… Acho que começo a ter minha primeira famosa crise de desesperança motivada pela “experiência”. Aquela coisa pessimista de “Não adianta, não vai dar em nada”. Espero que seja um momento efêmero. 


Máximas roderiquianas (441 a 460)

Máximas roderiquianas (441) A calúnia corrói vítimas, mas aniquila detratores. Entre os dois extremos está a descoberta da verdade.

Máximas roderiquianas (442) Em um casal, a diferença de idade é a soma dos anseios: um quer vitalidade; o outro, maturidade.

Máximas roderiquianas (443) A humanidade não evolui com a alta tecnologia, mas com pequenos feitos que a livram da barbárie.

Máximas roderiquianas (444) Às vezes um homem ama despudoradamente alguém que não merece e, por pudor, não ama uma grande mulher.

Máximas roderiquianas (445) A Arte não carece de explicações, mas de afeições.

Máximas roderiquianas (446) O sonho é uma checagem de nossa vaga no Além.

Máximas roderiquianas (447) Não transfiramos para nossa ascendência o valor de nossos atos: Deus e o Diabo não possuem sobrenome.

Máximas roderiquianas (448) Se a crença na espera é um jasmim, em mim o jardim já está quase no fim.

Máximas roderiquianas (449) Vingar-se é a menos correta, mas melhor forma de perdão.

Máximas roderiquianas (450) A maior dor da vítima de abandono é a dúvida que consigo carrega sobre a perdida possibilidade da plenitude. Dali por diante, nada mais parecerá igualar-se.

Máximas roderiquianas (451) Um pênis nem sempre faz de um homem um pai; um coração, invariavelmente.

Máximas roderiquianas (452) Relacionar-se com alguém logo após um amor verdadeiro é uma prótese: está lá, serve, mas não se sente.

Máximas roderiquianas (453) A única vantagem de uma madrugada solitária em comparação a uma vagabunda é que o álcool e o cigarro beijam a boca.

Máximas roderiquianas (454) Meu grande problema com o mundo é que nem eu o vejo como os comuns o veem, nem ele me dispensa um tratamento comum.

Máximas roderiquianas (455) O amor pela própria companhia é o orgasmo da Solidão; porém também é fugaz e arrefece.

Máximas roderiquianas (456) Bons livros são como o vinho: quanto mais raros e envelhecidos, melhor seu buquê e mais lentamente o degustamos, lamentando gota a gota a proximidade de seu fim.

Máximas roderiquianas (457) A razão é o salvo-conduto de um prisioneiro da esperança.

Máximas roderiquianas (458) Em um relacionamento há Química, Biologia, Física; mas o que lhe faz eterno é a História que se vai construindo.

Máximas roderiquianas (459) A probabilidade é a hipótese em gotas.

Máximas roderiquianas (460) Um amor verdadeiro é uma obra de Arte: não precisa de uma plateia, mas ainda assim gosta de causar-lhe admiração ou assombro.

Máximas roderiquianas (421 a 440)

Máximas roderiquianas (421) Qualquer sugestão impossível, se dada com boa vontade, tende a tornar-se uma doce e temível dúvida a martelar sua mente.

Máximas roderiquianas (422) Eu me ajoelharia diante do Senhor se Ele não me tivesse estourado os meniscos; eu me curvaria diante Dele, se alguns de Seus seguidores não quisessem se aproveitar de minhas fraquezas quando o fiz; mas ao contrário do que parece, não sou um ateu, sou um sobrevivente.

Máximas roderiquianas (423) Na verdade, não sou o proprietário deste corpo: pago um caro e injusto aluguel, pois as instalações se deterioram diariamente.

Máximas roderiquianas (424) Matar um amor que te foi traiçoeiro e ingrato é muito difícil. Sentir o ódio depois, simples; é apenas o esquartejamento do cadáver.

Máximas roderiquianas (425) Se falo o que penso, corro o risco de morrer pelo rancor que desperto. Se guardo comigo, quem morre com aquilo atravessado sou eu. Como não sou suicida...

Máximas roderiquianas (426) Um ombro amigo é um psicólogo sem antidepressivos.

Máximas roderiquianas (427) Ser autêntico é uma fórmula bem eficaz de terminar seus dias sozinho. 

Máximas roderiquianas (428) Meias verdades não fazem uma inteira.

Máximas roderiquianas (429) O pessimismo é a soma de todas as injustiças padecidas.

Máximas roderiquianas (430) O julgamento alheio de uma ideia é um algoz; o próprio, o caixão.

Máximas roderiquianas (431) A Língua de um povo é como uma mulher: deve ser amada e preservada, não estuprada.

Máximas roderiquianas (432) Querer bem é desejar mais e exigir menos.

Máximas roderiquianas (433) Educação não é mordaça; respeito não é concordância; tolerância não é silêncio. 

Máximas roderiquianas (434) Uma migalha de esperança é capaz de fazer um pássaro com asas quebradas recomeçar a sonhar com céus mais límpidos e tranquilos. 

Máximas roderiquianas (435) A maior derrota para a Educação é supô-la espontânea e fácil.

Máximas roderiquianas (436) Um amor breve é tão doloroso quanto uma paixão duradoura. 

Máximas roderiquianas (437) Retalhos de passado não trazem novas sensações; remendados servem, no máximo, para liquidação em um brechó.

Máximas roderiquianas (438) Assim como boas sementes não germinam em terra inóspita, cultura não floresce em um jovem sem um lar que estimule o intelecto.

Máximas roderiquianas (439) Uma mente vingativa é mais eficaz que um porte de arma.

Máximas roderiquianas (440) A paternidade é a forma que Deus encontrou para nos fazer conhecer o Mistério da Existência: criar um filho, entregá-lo à sociedade e ver essa criança usar o livre arbítrio para honrar nosso nome é o mais próximo da eternidade que o mundo terreno pode nos dar.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Emoção também é coisa de pai.

Está vindo aí o dia dos pais. Curioso observar como ele para mim é meio desconexo com o que normalmente se espera de um pai. Normalmente, percebemos que às mães são destinadas homenagens diferenciadas, com festa, rosas, declarações de amor explícitas, sensibilidade, lágrimas. Para nós, aquela imagem de suporte, determinação, força e – como não notar? – severidade educativa. Não cabe aqui uma discussão infrutífera sobre o papel maior ou o sofrimento físico ou emocional de um ou de outro, mas a verdade é que não nos imaginam capazes de privilegiadas emoções.

Não se espera de um pai a lágrima, o sorriso emocionado, o arrepio, a sensação de angústia e preocupação constante, dor. Talvez porque para a mulher a sociedade machista (mesmo entre mulheres) delegue, justamente pela dor do parto, toda a parte emocional do conceber e criar filhos. Parece que ao homem não cabem arroubos sentimentais, trêmulos depoimentos de amor ou admiração pelo sacrifício. Somos solenemente colocados num plano de valorosa coadjuvância, uma espécie de parceria que prima pela excelência, pelo resultado, mas não pelo processo. Pior: é como se não tivéssemos o “direito” de demonstrar uma suposta fragilidade emotiva diante do “machinho” ou da menina cujo complexo de Elektra parece ser regado sob a voz áspera, serena e taxativa da figura paterna.  

Nós, pais, somos tidos como frios, metódicos, provedores de um lar preparado para a emotividade da mãe e nossa dogmática “missão atávica” de baluartes da pureza das filhas e da masculinidade dos “pirocos”. Pois eu não sou adepto disso. Ao contrário, não me envergonho em dizer que por meus filhos estremeço, congelo, derramo-me em carinhos, dengos e calafrios. Sinto-me tão emotivamente abençoado e por vezes abalado quanto as mães. Eu rio com os primeiros tropeços e corro às primeiras quedas. Tal qual uma mãe instintiva, chego a magoar em nome da defesa de meus filhotes, talvez até melhor, com o equilíbrio um tanto sádico de ensinar-lhes as artimanhas para um troco bem dado, seja na palavra, no desprezo ou no porte. Não me envergonho de declarar que minhas crias são minha razão de viver. De chorar quando eles se vão antes da hora, deste mundo ou para ele. De ensimesmar-me numa dolorosa reclusão quando percebo que de mim eles nada mais esperam que um alicerçado e terrivelmente sofrido silêncio de apoio irrestrito, ainda que intimamente negado.

É até bíblica a diferença de trato entre o pai e a mãe. À Maria uma devoção católica festiva, perfeita e perfeccionista. A José, um discreto, silencioso e respeitoso carinho distante e contemplativo. É como se José não pudesse também chorar aos pés da cruz, nem amparar o Cristo nas quedas e dores. Estranho... Sinto-me muito mais homem quando me emociono ao ver o drama de crianças que veem no pai não apenas o herói, mas o fragilizado responsável por ser eternamente forte. Sem entrar em disputas tolas, mas a mãe tem a força da resistência à dor do parto, e nós, que por vezes transmitimos uma aparente fortaleza intransponível,  na verdade somos tão melancolicamente atingíveis em nossa muralha. Uma lágrima de um filho, mesmo alheio, é-nos um começo de um rompimento de um dique de solidez que nos foi inexplicavelmente imposto pelo mundo. Desfalecemos por dentro, transformamos o pranto em catarse: mantemos a postura de respaldo, transformamo-nos no porto seguro, quando parece não haver mais lágrimas a rolar de uma mãe desesperada e, ao mesmo tempo, também tão forte.

Ao ver um filho pedir-me para brincar, sentar no chão e com ele rolar, sinto-me o artista perfeito: o mímico da mão-de-monstro, o pintor do lápis de cera quase findo, o Pelé sem nenhuma habilidade, o palhaço triste que desperta o riso de uma alma carente de afagos protetores e desejos por voos longos e tão dificilmente aceitos. Geralmente percebemos mais cedo que a mãe que eles cresceram; mas demoramos séculos para admitir que a hora de dormir deles não nos pertence mais.


Sim, eu me emociono, com orgulho. E não me importa que meus filhos tenham vindo de meus testículos ou do meu coração. São eles que um dia verão em mim um homem de verdade. Aquele capaz de chorar de amor. Porque um filho que vê o pai se derramar em prantos pelo bem querer aos seus rebentos um dia, com certeza, será capaz de fazer de seu mundo algo menos temerário que os inimigos invisíveis que eles insistem e convencem de que temos de combater. Quando eles crescerem, esses inimigos serão enormes e bem visíveis. E serão minhas emoções e vibrações as armas  e escudo de meu herói eternamente criança, que combaterá todo o mal do qual não o consegui proteger.