Talvez alguns estejam estranhando minha ausência de depoimentos sobre a ocupação do Cocó e a questão do viaduto. Aliás, os mais atentos e próximos podem mesmo estar sentindo falta de postagens sobre questões políticas há um bom tempo. Logo eu, “reclamão” e de esquerda assumido.
Pois é, talvez seja só uma fase, já que meu espírito é muito questionador, sempre. Não estranhem se amanhã ou depois eu já aparecer criticando ou ironizando algo. Mas também não reparem se eu demorar. É uma fase, embora não saiba quando ou mesmo se passa (aí teria chegado à conclusão de que não se tratava de uma fase, mas enfim...).
É que eu tenho ficado muito irritado com as posturas de alguns, e nem sei se vale a pena entrar em conflito. A cada dia me convenço mais de que as pessoas não possuem postura política independente de linha ideológica, mas guiam-na pelos meros interesses próprios. A gente vê, pelas redes sociais, coisas inconcebíveis e absurdas saindo pelas teclas de quem menos se espera. Os movimentos parecem interessar apenas quando a causa lhe afeta diretamente. Aí começam a discutir entre si os que “ontem” marchavam lado a lado nas manifestações.
Como exemplo, cito a causa dos médicos. São raros e radicais seus defensores. Porque ambos os lados só veem o lado pessoal: Quem não é médico diz: “Quero ter saúde boa e gratuita”, sem querer saber se o profissional da área será bem pago pra isso. Parece até que todo médico vive do status que realmente a classe possui. E alguns médicos, por sua vez, veem apenas o seu lado, sem mostrar uma solução plausível para a saúde pública do Brasil. Como se o remédio (perdão pelo trocadilho infame, o desejo de fazê-lo foi maior que eu) não passasse também por suas mãos.
É como se você dissesse: “não luto pelo respeito aos homossexuais porque não sou; essa é a luta deles”. Mas a questão não é ser ou não homossexual. É alguém merecer ou não respeito, independente de quem seja... Então, se eu sou professor, só vou me informar, lutar e gritar por Educação? Se não tenho carro, dane-se o viaduto? E se tenho, danem-se as árvores? É difícil falar de igualdade social quando queremos as vantagens que nos cabem e ignoramos o que não nos afeta diretamente...
Vejam o caso mais recente, do Cocó. Tenho a nítida impressão, em quase todas as postagens que vejo (e as exceções são honrosas, de parte a parte) que o apoio ou não ao viaduto passa justamente por questões como ter ou não um carro, ser uma obra do grupo ligado ao Cid ou à Luiziane, derrubar ou não árvores perto de sua casa etc. É como se a questão ambientalista ou urbana fossem menores que suas possíveis perdas particulares ou as cores da bandeira que admiram. Dá pra garantir que alguns ativistas apoiariam o viaduto se fosse uma obra petista. Ou que os defensores da modernidade sairiam até nus para provar seu naturismo se a obra fosse da “loura”, como dizem. Quem tem carro, quer o viaduto e xinga os “retrógrados”; quem não tem, quer a natureza, numa espécie de vingança contra a pretensa “burguesia” dos motorizados (reforço... há numerosas e valorosas exceções – nem todo mundo tem essa visão restrita do problema). E as questões vão tão mais além... Natureza, transporte público, saúde, segurança... está tudo ligado. E ninguém para pra avaliar, ou mesmo pra se informar. Parece que é como se dissessem: “se as árvores derrubadas pertencessem a um político fazendeiro, poderiam derrubar: é propriedade privada, tem de acabar em nome do benefício da população”. Mas... e a natureza, não é a mesma? E os que defendem o viaduto, estariam assim enraizados se as árvores derrubadas fossem em frente a sua casa ou apartamento? Se o silêncio, paz e arborização destruídos estivessem ao alcance de suas janelas?
Para falar a verdade, eu não me considero habilitado para julgar a questão. Li pouco a respeito. A não ser os textos que os militantes dos dois lados me enviaram. E praticamente nenhum desses arquivos me pareceu isento de parcialidade. Também por isso não falei a respeito. Talvez alguns esperassem (com certa razão, seria meu normal) que eu aparecesse lá.
Também não me tomem por ingênuo. Não creio que todo movimento é livre de interesses pessoais. Mas quando eles ultrapassam a informação, o sensato e o bem-estar coletivo, não dá para “curtir”, “compartilhar” ou coisa que o valha. E não me animei a fazê-lo nem mesmo quando um ou outro bom texto o merecia, Estou... cansado. Preciso parar, repensar e seguir adiante. Jamais serei direita, claro. Mas a cada dia me decepciono com movimentos de minorias ou de reivindicações. Eles só lutam por seus direitos. E seus opositores por suas causas. O coletivo nunca está em pauta. Aquela neutralidade de ser capaz de abrir mão do que é-lhe confortável em prol de todos passa longe de ser uma opção.
É como a questão da segurança (aliás, aproveito para dizer que por respeito aos movimentos abandonarei os grupos do facebook que tratam disso). Vivemos uma situação absurda de descaso, claro. Mas estou farto de ver gente falando (como se fosse possível) na emergência em colocar um guarda em cada esquina ou impedir todos os assaltos a carros da cidade.
Ou ainda, a Educação. Os seus heroicos militantes são, muitas vezes, os primeiros a gazear aulas, rezar por um feriado ou querer passar de ano sem nenhum esforço. Que incongruências são essas? Que contradições regem a cabeça dos que buscam por melhoras? A resposta é simples: em todas as áreas, eles querem avanço apenas para o que lhes interessa. Sem abrir mão de nada.
Sonho com o dia em que todos sejam capazes de perder um benefício individual aqui para ganharem todos ali. De hoje abrir mão de algo que lhe é caro em nome de que a população ganhe mais adiante. Talvez eu seja utópico. Talvez louco. Talvez idiota. Mas a verdade é que está cada vez mais difícil usar de isenção, por saber que do outro lado (nem sempre oposto, às vezes o próprio lado) dificilmente haverá… Acho que começo a ter minha primeira famosa crise de desesperança motivada pela “experiência”. Aquela coisa pessimista de “Não adianta, não vai dar em nada”. Espero que seja um momento efêmero.