Ainda estou um tanto atordoado com tantas informações,
opiniões, notícias e posturas dos últimos 3 dias. Processar e filtrar tudo isso
me deu muita dor de cabeça, boas discussões no facebook, várias interrogações
e, claro, um pouco de raiva e frustração. O que vou colocar aqui é um balanço,
até o momento, do que pude averiguar, pois muitos me perguntam opiniões,
angustiados, preocupados, sequiosos de saber por onde ir e mesmo se deve ir ou
simplesmente desistir, nessa batalha de posicionamentos, xingamentos, acusações
e agressões. Mas atenção. Diante de tanta coisa, não posso dizer que este é meu
posicionamento final. Este é o de momento:
A primeira coisa que redescobri foi meu espírito anarquista
utópico. Sim, eu ainda acredito que é possível construir uma sociedade
alicerçada em bases mais humanas e menos institucionais. E, diante disso,
recebi com alegria o que tem se tornado o motivo de maior preocupação (e mesmo
ódio) para grande parte das pessoas historicamente ligadas à luta de classes no
Brasil: o apartidarismo. Quero deixar claro que sou eleitor de partidos como o
PSOL e o PSTU. Portanto, muito bem posicionados à esquerda. E bem radicais, do
jeito que gosto. Mas aprovei que um movimento espontâneo, surgido praticamente
do nada, peça para que se abaixem bandeiras partidárias em seus atos públicos. Vejam
bem: peçam. Sou contrário a atos de brutalidade como expulsão dos militantes e
queima das bandeiras, como forma de intimidar os partidários históricos.
Ou seja (aí vem uma das utopias), eu espero que a militância
perceba que esta é uma hora especial, em que se ela insistir em tomar à frente
do movimento, ele esvaziará, porque boa parte dos manifestantes não quer ser
atrelado a qualquer partido. E não há, ao contrário do que se diz, um desejo
fascista de extinção dos partidos. De forma alguma. Deseja-se isso para AQUELE
momento, aquele movimento. E me pergunto
se os partidos e militantes se dão conta de que essa é uma oportunidade única
de ver jovens e adultos antes alienados agora ganhando as ruas e formando uma
consciência crítica capaz de, futuramente, fazê-los ingressar num partido
político!! Tenho dito que isso é recuar um passo para avançar dois. Mas meus
amigos militantes só conseguem enxergar, furiosos, como um golpe contra os
partidos, como uma brecha para a extinção dos mesmos e tal. Citam 64, o
integralismo, o AI-5.
Gente, sinceramente. Por mais que a direita se articule para
usar o movimento em proveito próprio, acho muito, muito difícil algo nesse
sentido ser feito. Estamos numa época diferente, o povo, por mais alienado que
seja, ganhou mais acesso às informações, com a Internet e até mesmo com a
maldita globalização que o próprio sistema capitalista neoliberal criou. Não
que seja impossível, pois concordo que nada seja impossível para as mentes
direitistas malignas. Mas não creio que
o consigam. O povo ainda não chegou a um estágio pleno de conscientização
política, mas já deu uma avançada. Sabem que esse tipo de retrocesso seria uma
droga. Nada de pânico. Ficar desesperado, achando que os partidos serão
extintos, é quase um ato desesperado de alguém que está, desculpem dizer, “enciumado”
por não estar à frente desses manifestos, pela primeira vez, tão grandes e com
tamanha amplitude nacional. Sei que não são ciúmes, claro. Mas os partidos têm
de saber que o povo vai reconhecer quem sempre esteve na luta, lógico. Eles só
querem, nesse momento, desvincular a imagem do movimento aos partidos para que
ninguém diga que as reivindicações se tratam somente de uma questão eleitoral,
exatamente do mesmo modo que vocês (e eu também) temem(os) que alguém invente
de tirar a esquerda (fraquinha, rota, esfarrapada e omissa, mas esquerda)
atualmente no poder para fazer retornar a direita de FHC e seus asseclas. É a
mesma preocupação, não veem? Tenham paciência, não estamos em 64. Esse
retrocesso não acontecerá – mas não custa nada ficarmos espertos e atentos.
Eu, como disse, tenho a infeliz certeza de que se os
partidos tomarem à frente do movimento, ele acaba. E aí, amigos militantes,
temos de ser inteligentes. Deixem com que esse movimento natural forme uma juventude
mais atuante e crítica, limada à base de repressão policial. Passado o oba-oba
eles irão correndo estudar ou reconhecer a história de vocês e é aí que se
filiarão ou, no mínimo, votarão em vocês. Parem de xingar a galera.
Especialmente, parem de atrelar a execução do hino e o uso da bandeira nacional
ao Integralismo. Gente, será que toda vez que se usar o hino é por conta de um espelho
integralista? Muitos ali nem sabem o que foi isso. Muitos querem “apenas”
mudança de atitude por parte dos políticos. E lá vem mais uma acusação contra o
movimento: falta foco.
E é verdade, de certa forma. Os gritos são muito genéricos,
como “saúde, educação” etc. Mas como esperar que algo que veio das ruas espontaneamente
venha com um plano preparado anteriormente, com propostas claras e sólidas,
exceto contra aquilo que já há, como a PEC 37, a dita “Cura gay” ou o Ato
médico? E mais: ser genérico é realmente ser vazio? Não está na base de tudo a
essência dos pedidos? Porque se cobramos saúde, educação e outros, com certeza
não é com a mesma vacuidade hipócrita e sem sentido que os políticos atuais utilizam
em seus discursos de campanha.
E aqui no Ceará a indignação ganhou ainda mais sentido: muitos
só agora descobriram a afetação ditatorial de nosso governador, que decidiu que
ninguém no mundo deveria perceber que a população cearense não está satisfeita
com o que se investe em saúde e educação. Os protestos contra ele aumentaram,
depois da ação truculenta ordenada previamente por ele (e que hoje já sabemos,
traiçoeiramente iniciada pela polícia, como mostrou um repórter da UOL). Portanto
NÃO foi uma reação a supostos vândalos, mas estes regiram com pedradas à
armadilha policial que vitimou alguns manifestantes. Covardia e hipocrisia
pura, o que esse senhor faz em seu governo. Eu não estranho. Afinal, não há um
político Ferreira Gomes que escape. Mas muitos não o sabiam. Agora sentiram na
pele, nos olhos, na cabeça...
E falando em violência, preocupa-me muito uma cobrança em
relação a como alguém deve se comportar na passeata. Desde ontem tenho visto
pessoas de bem criticando os manifestantes por não confrontarem a polícia e ficarem
cantando, dançando, ou mandando os que estão em prédios e casas piscarem luzes. Esperem um pouco, não estamos
em guerra civil (ainda). Também não acho que devemos ser passivos. Mas
pacíficos, sim. Um bom manifestante não foge da polícia na primeira bomba de
efeito moral e engrossa o grupo de pessoas que confronta os policiais pela
causa. Certo. Concordo e faço isso, inclusive. Mas começar assim, não! É dar
margem às críticas e acusações de vandalismo, agressividade etc. Essa garotada não
tem nenhuma experiência de militância, combatividade e tal. Estavam até semana
passada jogando vídeo-game, lendo mangás e sua maior preocupação era qual
cosplay fariam no próximo SANA no Centro de Convenções. E vocês os querem guerrilheiros
revolucionários mal saídos dos cueiros? Muitos já tiveram a coragem extrema de
sair às escondidas de casa, contra a vontade dos pais. Só agora inalaram o primeiro
gás ou aprenderam por qual razão levar o vinagre. Tenham paciência. Eles
aprenderão. E lutarão conosco lado a lado. Mas tudo tem seu tempo. Além do
mais, é incoerente pedir respeito e iniciar o confronto. Temos de ser corajosos
na resposta, mas não devemos ser os que provocam o embate.
Por outro lado, os manifestantes pacifistas não podem
prescindir da presença dos manifestantes experientes e combativos. Eles sabem como
proceder nas situações extremas. Eu me lembro que gritava para os mais ingênuos
saírem de perto das paredes, que corressem para lugares abertos, na hora do gás
lacrimogêneo. Os coitados viravam presa fácil, sem saber para onde correr.
Então, os manifestantes “comuns” não podem se dar ao luxo de dispensar aqueles
que já vem há anos lutando por esse país. Acham que colocando uma máscara
anônima (pelo amor de Deus, assistam o filme “V de Vingança” – se não tiverem
acesso à ainda melhor HQ dos anos 80 – e incorporem o ESPÍRITO do personagem,
esqueçam os atos terroristas dele, porque ele tinha razões para tal – era sozinho,
sem apoio nenhum -, é bem semelhante em ideal, mas totalmente diferente em
prática) vão virar os defensores dos fracos e oprimidos; se você usa da máscara
para espalhar o terror, está fazendo tudo errado. Esse personagem é uma linda
inspiração, não a estraguem.
Em suma, preocupa-me a divisão que está se propondo dentro
dos movimentos. Pacifistas x ativistas, militantes x apartidários, juventude x
experiência (e ainda temos que nos preocupar com a galera do vandalismo
gratuito, sem qualquer ideologia). Está difícil para todos os lados enxergar
que juntos, abrindo mão de uma ou outra premissa básica individual, a
manifestação cresce, o todo ganha crédito, o Brasil melhora. Depois que o
movimento ganhar a simpatia de todos, mesmo os da classe mais abastada – que se
ficarem quietos já ajudam bastante -, as peculiaridades de cada facção podem
ser postas em prática em diferentes tipos de manifestação. Apartidários um dia,
militantes noutro, uns apoiando os outros se desejarem. Mas nesse momento de
movimento espontâneo, todos têm de abrir mão um pouco de seus princípios pelo
bem maior: a formação de uma nova geração de lutadores combativos e
politizados, que se não nasceram num momento crítico do país, se nunca
precisaram protestar contra coisa nenhuma, agora estão aprendendo, na marra, a
fazer isso. E nós devemos nos unir, e não nos dividir e facilitar a vida de
quem quer transformar o movimento numa simples baderna de desocupados ou
irresponsáveis.
Para concluir, há pelo menos uma coisa em comum em ambos os
lados: os dois cometem o erro de condenar quem está em casa. Aquela pessoa que,
por um motivo ou outro, prefere acompanhar de longe, ansioso também, torcendo
também para que tudo dê certo. Gente, ninguém é igual. Há pessoas que fazem
trabalho precioso nas redes sociais, produzindo vídeos, desmascarando sites
retrógrados, denunciando a mídia mentirosa. Também existe trabalho de “inteligência”
em todo grupo combativo. E, além do mais, tem gente que não gosta ou tem medo de
ir pra rua. E daí? Ele é menos importante que você? Menos brasileiro? Não vamos
começar errado, não vamos ter preconceito, algo comum naqueles que condenamos e
queremos retirar do poder. Os mesmos que criticam a homofobia, o racismo, o
preconceito social não são capazes de respeitar essa diferença? Que contradição
é essa? O ideal seria que estivessem conosco, nas ruas? Claro. Mas vou
arrastá-los? Usá-los como bucha de canhão ou boi de piranha? Expô-los a algo
que eles simplesmente não têm coragem ou não podem fazer ou não foram tocados
para tal? Em todo exército existem
pessoas com funções diferentes. Arrumemos uma que eles possam fazer para nos
ajudar, e não simplesmente criemos neles uma rejeição por nós e nossa causa.
Esse erro cometeram quando vaiaram os torcedores que iam para o estádio no dia
do jogo, 4ª feira. Eles poderiam ser grandes manifestantes dentro do estádio,
fazendo aquilo que não nos permitiram: denunciar que o Ceará não era uma
maravilha. Mas quantos deles perderam toda a vontade de fazê-lo porque foram maltratados
enquanto passavam por nós? Já pensaram nisso?
Espero ter ajudado algumas pessoas a pensar melhor sobre
esse momento histórico que vivemos. E para aqueles que de mim discordam, saibam
que têm todo meu respeito. E que não sou dono da verdade. Posso até ser
convencido de que estou errado, claro. Mas pelo menos levem em consideração as
ideias aqui colocadas, como levarei, com certeza, as suas. Não preciso provar para
ninguém meu posicionamento de esquerda. Quem me conhece, sabe. Quem foi meu
aluno, viu e ouviu. Então, vamos para o campo das ideias civilizadas e em
debate.
Enfim, este é meu posicionamento, por enquanto. União utópica
de todos em torno de um desejo por demais sonhador, talvez. Mas toda grande
revolução começou com sonhos absurdos de se concretizar.
Abraços a TODOS!