E vai começar a Copa das Confederações. Mini-Copa,
evento-teste, podem escolher o nome. Para um apaixonado por futebol como eu,
seria impossível dizer que não vou acompanhar todos os jogos que puder. Mas
algo está diferente este ano.
Não torcerei pelo Brasil (desculpem-me os que, como eu, amam
o esporte). Sei que agora, com os estádios quase prontos, a coisa toda armada,
parte da torcida querendo festa, é difícil falar em transformações e mudanças.
Nem este evento nem a Copa do Mundo deixarão de ocorrer. Isso é fato.
Deveríamos, os brasileiros, ter pensado nesses protestos na hora da candidatura.
Afinal, quem, em sã consciência, acreditou realmente que os nossos
representantes iriam estimular as melhorias da cidade toda, e não apenas das
regiões turísticas e de acesso aos estádios a partir dos próprios pontos
turísticos? Quem ingenuamente pensou que os ingressos seriam populares por
conta da situação econômica do povo, ou que a FIFA não iria interferir na
cultura do país, só porque ele é aquele que mais ama futebol no mundo? Quem aí,
enfim, achou que a Copa traria prestação de serviço renumerada, e não
voluntariado? Que não haveria superfaturamento, politicagem, puxa-saquismo de
federações, clubes, entidades esportivas? Ora, se você acreditou em quaisquer
das perguntas acima, acorde, Alice! Este não é o país das maravilhas, pelo
menos não políticas.
Mas mesmo tudo isso sendo comparável à morte de Inês de
Castro, mesmo sendo impossível não lembrar que havia um monte de pessoas que
hoje reclamam torcendo para o Brasil ser país-sede, não dá para torcer pela
camisa verde-amarela dessa vez. Uma vitória de nossa seleção será equiparável à
vitória de nosso escrete na Copa de 70: uma camuflagem da real situação do
país, um oba-oba sem fim sobre o “desenvolvimento” da nação que, por mais que
tenha tido alguma melhora depois que saiu das malditas mãos do PSDB, está
longe, mas muito longe do que é propagandeado. A esquerda que comanda o país é
muito parecida com o governo que seus membros derrubaram nas urnas. Só não são
iguais porque senão seriam comparáveis ao período militar em desgraça, coisa
que não acontece. Mas estão bem pertinho de empatar, em hipocrisia.
E por mais que o futebol seja apaixonante, que seja um
esporte encantador no país, apesar dos Ricardos Teixeiras e Marins da vida
(este último defensor da ditadura, não é uma “coincidência”?), não dá pra
simplesmente isolar e dizer: “Pronto, todas as reivindicações são válidas, mas
agora é apenas futebol”. Não, não é APENAS futebol. Não neste caso. A derrota
do selecionado brasileiro será a derrota desse projeto errado desde o
princípio, será a derrota dos que arquitetaram fazer o povo de idiota e
mostrarem-nos sorrindo para todo o planeta, enquanto a nação precisa de muito
mais do que lindos estádios de futebol. Por isso, que perca a seleção, para que
vença o Brasil!
Não que uma eventual vitória seja uma catástrofe, uma
desgraça. Se ao menos jogassem bem, teríamos pelo menos o orgulho futebolístico
que a seleção de 70 nos deu, apesar dos militares. Mas jogar bem é algo que
essa seleção também não tem feito há muito. É... está sem jeito. Não dá mesmo
pra torcer por uma vitória brasileira. Que percam rápido e que as manchetes
mundiais sejam sobre a insatisfação do povo com o país, não apenas com os
jogadores.
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