Está vindo aí o dia dos pais. Curioso observar como ele para
mim é meio desconexo com o que normalmente se espera de um pai. Normalmente,
percebemos que às mães são destinadas homenagens diferenciadas, com festa,
rosas, declarações de amor explícitas, sensibilidade, lágrimas. Para nós,
aquela imagem de suporte, determinação, força e – como não notar? – severidade educativa.
Não cabe aqui uma discussão infrutífera sobre o papel maior ou o sofrimento
físico ou emocional de um ou de outro, mas a verdade é que não nos imaginam
capazes de privilegiadas emoções.
Não se espera de um pai a lágrima, o sorriso emocionado, o
arrepio, a sensação de angústia e preocupação constante, dor. Talvez porque
para a mulher a sociedade machista (mesmo entre mulheres) delegue, justamente
pela dor do parto, toda a parte emocional do conceber e criar filhos. Parece
que ao homem não cabem arroubos sentimentais, trêmulos depoimentos de amor ou
admiração pelo sacrifício. Somos solenemente colocados num plano de valorosa
coadjuvância, uma espécie de parceria que prima pela excelência, pelo
resultado, mas não pelo processo. Pior: é como se não tivéssemos o “direito” de
demonstrar uma suposta fragilidade emotiva diante do “machinho” ou da menina
cujo complexo de Elektra parece ser regado sob a voz áspera, serena e taxativa
da figura paterna.
Nós, pais, somos tidos como frios, metódicos, provedores de
um lar preparado para a emotividade da mãe e nossa dogmática “missão atávica”
de baluartes da pureza das filhas e da masculinidade dos “pirocos”. Pois eu não
sou adepto disso. Ao contrário, não me envergonho em dizer que por meus filhos
estremeço, congelo, derramo-me em carinhos, dengos e calafrios. Sinto-me tão
emotivamente abençoado e por vezes abalado quanto as mães. Eu rio com os
primeiros tropeços e corro às primeiras quedas. Tal qual uma mãe instintiva,
chego a magoar em nome da defesa de meus filhotes, talvez até melhor, com o
equilíbrio um tanto sádico de ensinar-lhes as artimanhas para um troco bem
dado, seja na palavra, no desprezo ou no porte. Não me envergonho de declarar
que minhas crias são minha razão de viver. De chorar quando eles se vão antes
da hora, deste mundo ou para ele. De ensimesmar-me numa dolorosa reclusão
quando percebo que de mim eles nada mais esperam que um alicerçado e
terrivelmente sofrido silêncio de apoio irrestrito, ainda que intimamente
negado.
É até bíblica a diferença de trato entre o pai e a mãe. À
Maria uma devoção católica festiva, perfeita e perfeccionista. A José, um
discreto, silencioso e respeitoso carinho distante e contemplativo. É como se
José não pudesse também chorar aos pés da cruz, nem amparar o Cristo nas quedas
e dores. Estranho... Sinto-me muito mais homem quando me emociono ao ver o
drama de crianças que veem no pai não apenas o herói, mas o fragilizado
responsável por ser eternamente forte. Sem entrar em disputas tolas, mas a mãe tem
a força da resistência à dor do parto, e nós, que por vezes transmitimos uma
aparente fortaleza intransponível, na
verdade somos tão melancolicamente atingíveis em nossa muralha. Uma lágrima de
um filho, mesmo alheio, é-nos um começo de um rompimento de um dique de solidez
que nos foi inexplicavelmente imposto pelo mundo. Desfalecemos por dentro,
transformamos o pranto em catarse: mantemos a postura de respaldo,
transformamo-nos no porto seguro, quando parece não haver mais lágrimas a rolar
de uma mãe desesperada e, ao mesmo tempo, também tão forte.
Ao ver um filho pedir-me para brincar, sentar no chão e com
ele rolar, sinto-me o artista perfeito: o mímico da mão-de-monstro, o pintor do
lápis de cera quase findo, o Pelé sem nenhuma habilidade, o palhaço triste que
desperta o riso de uma alma carente de afagos protetores e desejos por voos
longos e tão dificilmente aceitos. Geralmente percebemos mais cedo que a mãe que
eles cresceram; mas demoramos séculos para admitir que a hora de dormir deles
não nos pertence mais.
Sim, eu me emociono, com orgulho. E não me importa que meus
filhos tenham vindo de meus testículos ou do meu coração. São eles que um dia
verão em mim um homem de verdade. Aquele capaz de chorar de amor. Porque um
filho que vê o pai se derramar em prantos pelo bem querer aos seus rebentos um
dia, com certeza, será capaz de fazer de seu mundo algo menos temerário que os
inimigos invisíveis que eles insistem e convencem de que temos de combater.
Quando eles crescerem, esses inimigos serão enormes e bem visíveis. E serão
minhas emoções e vibrações as armas e
escudo de meu herói eternamente criança, que combaterá todo o mal do qual não o
consegui proteger.