Chegou
ao fim a novela de cinco anos de “intensos” debates no Congresso Nacional que
determinaram o direito das cidadãs de exigirem o termo “bacharela” em seus
diplomas, cabendo até a solicitação de um novo diploma à instituição formadora,
apenas para “consertar” o “machismo grotesco”. Então, segundo a lei sancionada
pela “presidenta”, a “bacharela” agora é oficial.
Dilma é
uma boa presidente, mas já cometeu dois erros graves: o primeiro, mais sério
para quem prima por uma língua fiel a suas origens e tradições, é o
esquecimento de que ente = ser. E que isso deveria (digo “deveria” porque há
gramáticos e dicionaristas que, absurdamente, defendem a forma não-neutra do
termo “presidente” – o ser que preside) ser lembrado na hora em que ela bate o
pé para utilizar essa escrita equivocada conceitualmente. Se assim for, que se
aceitem formas como serventa, viventa, delinquenta ou mesmo a combatenta, para
homenagear a luta da “presidenta” em insistir nessa expressão.
Mas
isso não é tudo. O que está por trás é bem pior. Essa suposta forma de corrigir
os erros de um país notoriamente machista vem se somar a uma sucessão de “compensações”
que beiram o populismo e a irresponsável aceitação dos governos de que eles não
são capazes (ou não lhes interessa) de assumir seu papel de transformadores da
sociedade. Foi assim com a cota dos negros para as universidades, foi assim com
a instauração do ENEM, foi assim com a criação de planos como o Bolsa-Família e
o Brasil Carinhoso. Como o governo não tem coragem de criar planos sociais que vão
ao cerne do problema, desafiando a mentalidade arcaica ou os interesses
econômicos de escolas particulares, por exemplo, prefere “corrigir erros
históricos”. Grande correção. Comete outro erro histórico, o da covardia, para
camuflar sua incompetência ou, pior, conivência. Mulheres, negros, estudantes
da escola pública, famílias carentes, enfim, a esmagadora maioria da população
é “premiada” com pirulitos doces e paliativos, que resolverão um problema
temporário, mas que alargarão a nossa deficiência técnica, social, cultural.
Esquece
Dilma Rousseff, assim como os defensores dessas esmolas passageiras, que a
questão vai muito mais longe do que permitir uma forma substantiva feminina que
desconsidere a lógica da língua e um sistema de acesso que privilegia o que,
por vezes, sabe menos, ou aquele que, acomodado, se contenta com o pouco que o “seu
doutô” vai lhe presentear. Interferências nojentas e descabidas que não
resolvem nada para as gerações futuras, mas que tiram destes governos o peso da
culpa de suas pouco competentes mentes e planos governamentais.
Afinal,
é mais fácil ludibriar o povo que hoje tem poder de voto e que se encanta com
qualquer falso moralismo do que enfrentar o status quo e pensar no legado de que
nossas gerações futuras poderiam usufruir se o correto fosse feito: o
enfrentamento daqueles que realmente lucram com tamanhas generosidades
acintosas. Mas talvez seja querer demais exigir coragem daqueles que são
imediatistas e que deixarão uma herança maldita para os que serão vítimas desse
erro histórico. É mais fácil apostar na cegueira da população ávida por uma
solução umbilical e tomar atitudes repelentes (ou seriam repelentas?).