quinta-feira, 20 de junho de 2013

19 de junho de 2013 - Um relato

19 de junho de 2013.

Fui ao manifesto. Sozinho, como sempre faço ao participar de eventos que requeiram análise e atenção. Encontrei gente conhecida, claro. Mas procurei não “me agrupar” propositalmente, para não ser um estorvo para ninguém e para ter liberdade de movimentos e observação. E vou relatar o que vi de bom, de trágico e, em minha humilde opinião, de equivocado no manifesto de hoje.

Cheguei por volta das 10h30 ao local do manifesto, e logo troquei minha blusa do Inter por uma em que se lia nas costas “Os Ferreira Gomes NÃO me representam”. A do Inter foi pra cintura (?). E aí comecei a ver e ouvir tudo. A primeira coisa que vi foi um cara com a camisa do Grêmio... risos. Eu não resisti, cheguei ao desconhecido e disse: “Só assim Grêmio e Inter ficam lado a lado, né?”. O manifestante soltou a bandeira e tiramos uma foto. Em uma minha, sozinho, ele ainda aparece ao fundo. Foi legal. Depois comecei a reparar no comportamento do povo. Lindo ver todos gritando “Sem partido! Sem partido!” quando algum ousava levantar bandeira. Só em um dado momento ficou chato, quando alguém do povão e um dos militantes partidários quiseram se enfrentar. Mas acabou rápido.

Vários outros gritos de ordem se ouviram. Mas teve um que me chamou a atenção. Algo como: “Ei, vou te falar, um professor vale mais que o Neymar!!” Obrigado, obrigado... Entre um ou outro encontro com gente conhecida, como com a amiga Geórgia Russel, Laline e Bruno, o companheiro Nilo e vários alunos e ex-alunos, vejo cartazes criativos e inteligentes, mas alguns com um tom politicamente incorreto para a ocasião “O SUS não cura nem gripe, quanto mais viadagem” ou absurdamente americanófilo “Yes, we can” (???????). Mas na maioria, estavam ótimos, respeitosos e provocativos, ao mesmo tempo. Contextualizados.

A passeata começou pouco mais de meio-dia, pacífica e linda. Emocionante. E olhe que o sol não ajudava (tá, uma ou outra dondoquinha ficava dizendo: “Ai, minhas espinhas vão ficar inflamadas...” ou “Minha maquiagem vai derreter”, mas... faz parte). Calor de rachar. Mas todo mundo lá, no asfalto fervente, caminhando. E aí vem minha primeira crítica à organização: posso estar dizendo bobagem, sou leigo. Mas minha experiência de protestos diz que escolher um caminho que não tem qualquer alternativa de rota é complexo. Se aquele lugar não oferecia opções, outro deveria ter sido escolhido. Barrados uns 200 metros após uma igreja próxima ao Makro, não havia como dobrar, driblar a polícia. Era passar por ali ou voltar. E aí vem a ação ditatorial do senhor governador Cid Gomes, que decidiu que não se pode mostrar ao mundo que o Ceará e o Brasil não são a maravilha que seus governantes querem mostrar. Então, ele simplesmente determinou, baseado em sabe-se lá que lei (porque se ela existe, deve ser revogada), que a manifestação não poderia ter livre acesso a qualquer lugar. Isso é ABSURDO. O papel da polícia é acompanhar a manifestação aonde quer que vá, para cuidar que os vândalos e exaltados não pratiquem atos depredatórios. Não é papel (ou não deveria ser – como disse, se essa lei existe, deveria ser revogada) dela ou de quem quer que seja determinar se ou por onde vai um protesto. Vamos fazer protesto no deserto? Ou onde não há mídia? Onde não os incomode? Então não é protesto. A polícia poderia e deveria, sim, impedir, por exemplo, alguma pretensa invasão do estádio. O evento não era público, era particular. Seria crime entrar sem pagar e, principalmente, totalmente inadequado e anticivilizado. E nada mais, além dos atos vândalos, se ocorrerem.

Pois bem, a polícia impede a passagem. Nessa hora, eu estava a uns 150 metros da barreira. Visibilidade ruim, por causa das bandeiras e cartazes erguidos. Não sei, infelizmente, dizer, se a polícia agiu por ordem superior ou se reagiu a um pequeno grupo de baderneiros que teria atirado pedras à barreira policial. Não posso afirmar nada, não vi, só ouvi as duas versões. Mas aí vem o que argumentei antes: na verdade, NÃO IMPORTA. Se a polícia fizesse o papel de apenas escoltar e fiscalizar o movimento, e não impedi-lo, ninguém tentaria forçar passagem. E se algum imbecil tentasse agredir policiais, teriam eles o apoio da população para deter quem tivesse praticado a violência, porque o povo queria um ato pacífico, sem partido, sem baderna. Mas o senhor governador, truculento e fascista, optou por impedir o protesto. Deu no que deu. Seja qual foi a razão, a polícia foi cruel. Bombas de gás lacrimogêneo começam a ser disparadas. Um rapaz de nome Alan (descobriria depois) caiu ao meu lado, quando recuávamos. Gritei por ajuda. Trouxeram vinagre para tentar cortar o efeito do gás. Mas ele estava muito mal. Optei em ficar com ele até que algum de seus amigos o encontrasse. Levantei-o e sentei-o em uma rampa de uma borracharia, acho, ajudado por outras pessoas. Lavei a cabeça dele com água tirada de uma torneira exposta. Aí seus amigos chegaram e voltei lá pra frente, pois os manifestantes tentaram se aproximar de novo. Novo ataque da polícia, nessa ocasião “alicerçado” por spray de pimenta e bombas de efeito moral. Dessa vez o gás quase me pegou, mas consegui escapar sem sentir muitos efeitos. Recuei até a igreja, e acompanhei o grito de muitos para o carro de reportagem de uma equipe local de uma grande emissora (não se iludam, não era a Globo) para que filmassem os acontecimentos lá na frente. Eles não se mexeram, contentaram-se em filmar nossa revolta. Resolvi tentar ir adiante mais uma vez. Aí veio a reação completa. Balas de borracha. Uma atingiu o rapaz ao meu lado na cabeça, que caiu direto. Eu só tive o tempo de dar a mão para erguê-lo, pois ele parecia apenas atordoado, pegou de raspão. Mas veio uma outra dose forte de lacrimogêneo, que me pegou em cheio. Fiquei cego. Tossia demais. Recuei até a igreja, onde fui auxiliado por um ex-aluno (confesso que o cumprimentei, mas não gravei o rosto, mal abria os olhos – obrigado, se estiver lendo esse texto). Finalmente, quando eu melhorava, antes de saber o que fazer, veio a polícia avançando, fazendo todos recuarem. Mais gás. Um manifestante anônimo, me vendo mal, ofereceu vinagre. E um momento de sorriso no caos: enquanto me ensinava como usá-lo eu respondia: “Pode deixar, já sei; estou acostumado”. Ele riu, como quem diz: “Esse aí é macaco velho em manifestos”. Quando me recuperei, vi as cenas mais deploráveis: uma senhora de mais de 80 anos, seguramente, às cegas, sendo levada por manifestantes, amparada. E outra, numa cadeira de rodas, desesperada, gritava: “Meu Deus, onde está a democracia?” Ela estava “ilhada” num lugar alto, sem poder descer da calçada alta da igreja, numa óbvia escolha equivocada e apressada por uma rota de fuga. Eu e outros a retiramos de lá. E uma pessoa conduziu sua cadeira a lugar seguro.

Depois disso tudo, respirei um minuto. A perna e o pé com unha encravada doíam. Não dava mais pra mim. Precisava voltar. Retornei para o viaduto. Respirei um pouco. Encontrei um ex-aluno, correspondente de um jornal escrito, dei rápida entrevista e comecei a ver as torcidas brasileira e mexicana chegando ao jogo. E aí a segunda crítica: foi terrível ver a população vaiando e xingando os torcedores. É jogar a população que não veio ao manifesto contra nós. Eles não são menos afetados que nós. Muitos ali são classe média, compraram o ingresso com sacrifício. Outros ganharam em sorteios. Nem todo mundo ali é elite. E mesmo que fosse. Precisamos envolver TODOS nesse tipo de movimento. Jogar parte da opinião pública contra o movimento é falta de bom senso e inteligência, desculpem dizer. Que culpa eles têm? Nem sabiam, quando compraram os ingressos, que isso iria acontecer. Talvez, até, se soubessem, estivessem conosco. Não é contra eles, o protesto. Nunca foi. Mas que fique a lição para próxima vez. Avaliemos os nossos atos melhor. Sejamos inteligentes. Eles podem aumentar o movimento. Ou, pelo menos, não criticar. Já seria muito.

Enfim, retornei a pé até Borges de Melo, onde peguei meu ônibus. Não fiquei até o final. Não creio que houve algo muito diferente da imbecilidade do governador e seus asseclas. Queria ter colaborado mais. Mas cheguei ao limite físico. Voltei pra casa. Triste porque a manifestação não atingiu o principal objetivo de denunciar, de perto do estádio, os desmandos do governo estadual e de outros no cenário nacional. Mas feliz por ter feito parte desse momento histórico.  Espero apenas que os órgãos da imprensa noticiem a verdade e, principalmente, denunciem a intransigência e brutalidade do nosso governador. Se você, meu leitor nesse momento, é da imprensa de qualquer espécie, faça-o. Não se omita, por favor. Não se pode impedir o direito ao protesto, só porque não se deseja exposto a público os erros de seu governo.


FORÇA A TODOS!!