Amarras de farpados arames envoltos no músculo avermelhado e
duro... O sangue escorre lento e viscoso... negro, não, quase negro, pois o
aguado das lágrimas deu um leve toque carmim ao embrutecido órgão. Se ele
teimava em bater, sorrir, esperar, nada mais há. E simplesmente porque não pode
haver. Se ele ousar se mexer o ideal é eu torturá-lo sem dó, sem qualquer atitude
que lembre humanidade. Mas súbito percebo que isso pode não fazer efeito.
Muitos antes já não o trataram com humanidade e ainda assim ele insistiu. Esse podre
coração precisa ser mais maltratado, até não mais bater por nada, por ninguém,
por nenhum tipo de desejo ou porvir. Mas tal tem de ser concretizado de ser por
mim, por mim!Nada de sucumbir aos sorrisos falsos, às palavras fraternais de
conforto, mesmo que bem intencionadas. Nada de pôr os olhinhos de fora de minha
caverna, procurando luz ou ar. Sufocar, suplantar, sucatear sentimentalismos e
autopiedade. Mas por mim, por mim!Se é de acabar com essa tragicômica mania
maldita de crer, que seja eu o sensicida. Não quero mais ser vítima de ninguém.
Algoz de mim, é o que serei. Tirarei das mãos alheias a corda que puxa a lâmina
decapitadora, para eu mesmo puxar uma
lâmina dessentimentalizadora, que acabará com todo o mal... Pela raiz, pela
cabeça, pelo tronco, pelo membro, que seja! Que uma melancólica valsa outonal
venha a tocar como funérea melodia de meus últimos suspiros do coração. Não
quero mais suspirar por ninguém, por coisa alguma. Quero ensimesmar-me até o
fundo da caverna. Sem luz, sem água, sem desejo. Aberração não é o que serei, é
o que vivo quando ainda creio, quando aposto, quando confio e espero. Que os
ventos leves levem-me a notícia dos últimos estertores do meu antes obstinado,
agora findado órgão irresponsável, que me permitiu o maior de todos os erros:
acreditar. E que esse vento traga o aroma pútrido de minhas velhas emoções,
definhando sob o sol, engordando os corvos que andam-me há tempos a espreitar-me.
Sim, corvos, conseguiram me ver morto. Mas pelo menos não lhes dei o gosto de
presenciarem meu fim. Eu o fiz! Eu! Fiquem com os restos desse coração que só
me fez mal. Sem ele, estarei mais forte e mais preparado para o próximo ataque
de vocês. E quando vierem buscar-me no fundo da caverna, será minha vez
furar-lhes os olhos e a vaidade. Porque não terei mais compaixão. E ali
ficarei, eternamente, a alimentar-me apenas de minhas dores. É uma dieta
conhecida. Só tinha que me acostumar com ela. Antes um mal necessário, agora o
fim de toda a angústia.