segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

DESEJO UM NATAL DIFERENCIADO AOS MEUS AMIGOS





                Eu não sou fácil, nunca quis sê-lo. Nem espero que concorde comigo, ou que se apiede. Também dispenso os discursos dogmáticos. Mas a TODOS desejarei meu Natal diferenciado.
               
                Eu espero que todos tenham um Natal em que o verdadeiro Cristo seja lembrado. Quer tenha sido 25 de dezembro ou não a data, que a essência do que signifique a vinda Dele ao mundo reluza em você. Que Ele saia, na mente de todos, de sua “camuflagem” de Papai Noel e desperte em todos o verdadeiro espírito natalino: de reflexão, não de regozijo. Não temos de fato motivos para beber, comer ou farrear (sim, há quem vá a festas em plena noite de Natal) enquanto milhares padecem de fome, injustiça, miséria, desprezo. Também não digo que sejamos palmatória do mundo e fiquemos jejuando e chorando. Mas o nascimento de Cristo merece uma reflexão sobre o mundo em que vivemos ou, pelo menos, sobre  o nosso papel dentro da família. E é por isso que, quando possível, devemos estar com ela. Comendo, sim, bebendo, sim, porque este é um mundo em que também não podemos ser vistos como alienígenas, ou de nada valerá nossa reflexão. A serenidade para levar uma mensagem de fé e amor ao próximo começa dentro de nossas casas. E, para nos ouvirem, temos de ser participantes, não eremitas. Mas podemos nos mostrar participantes de um modo diferenciado, sem o comércio e/ou fanatismo que normalmente envolvem o período.
                
               Levemos aos nossos a preocupação e a responsabilidade por um mundo melhor, menos violento, mais ético e menos falso. Com mais valores e menos prepotência. Com mais ação e menos discursos inflamados. Com um começo pequeno, que seja, mas que se espalhe. Lembrem-se: Cristo começou convencendo apenas a doze apóstolos. Doze que provavelmente devem ter sido considerados loucos, à época. Mas que propagaram a mensagem com tamanha devoção e verdade que hoje milhões se dizem cristãos, em todo planeta. Infelizmente, poucos agem como tais. Preferem, por exemplo, disputar qual a melhor igreja, angariar verbas, usar o nome Santo de Deus para causas menos dignas de fé. Questionemos, à hora da ceia natalina, o quanto devemos agradecer a Deus por termos a oportunidade de nos refestelarmos com iguarias saborosas enquanto milhões não podem sequer chupar os ossos do que nos restará na “ressaca” do dia seguinte. Não, não resolveremos nada prático com essa reflexão. Não será ela que matará a fome do povo. Mas talvez ela marque a alma de um jovem primo, filho ou sobrinho que estará à mesa, de olhos arregalados, ouvindo alguém da família que tem respaldo. E essa mensagem se perpetuará em sua mente, em seu coração, talvez em alguns de seus atos no ano vindouro.

              E se você, por uma razão ou outra for ficar só, como, provavelmente, eu ficarei, que você se lembre do Cristo que pregou só, por muito tempo, que se lamentou, ao se sentir abandonado na hora da morte, mas que não questionou sua missão.  Que mostrou que, diante da mais dolorosa das horas, a da certeza da morte, não se furtou a admitir que mesmo sua solidão fazia parte dos planos do Pai.

             Enfim, desejo a todos um Natal no sentido maiúsculo. Participe da parte social, comercial, terrena ou supostamente religiosa, se não houver como abster-se delas. Mas lembre-se que você pode mais. E que Cristo, se pudesse te pedir um presente, dispensaria as árvores, fartas ceias e até mesmo as missas. Ele optaria por seu COMPROMETIMENTO com a causa Dele. Amém.

            FELIZ NATAL.

                

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O FUTEBOL, O LADRÃO DE GALINHAS E O MATO SEM CACHORRO.


(Para quem gosta de Futebol, Justiça ou discutir o Brasil)

                Assistindo aos noticiários esportivos sobre o julgamento da Portuguesa, observando o comportamento dos honoráveis advogados que lidam com a questão e analisando a “grita” geral de todos os lados envolvidos (ou não), não pude deixar de fazer uma reflexão nada incomum (muitos já devem tê-la feito), mas fundamental para o entendimento de como as coisas funcionam no nosso país.
                A Portuguesa é um clube simpático e frequentemente vítima de abusos de arbitragem e desmandos de mandatários que claramente buscam beneficiar os ditos 8 “grandes”  de Rio e São Paulo (não sei como ainda alguém ousa chamar algo visível e nítido como “teoria” da conspiração, já que ela de fato existe). Essa Portuguesa, sempre tão injustiçada e massacrada, cometeu um erro. Um erro que lhe custará caro. Escalou um jogador de forma irregular por confiar na palavra de um advogado que lhe deu uma informação equivocada (ou por entendido errado a informação, cada um escolha a justificativa que desejar ou lhe aprouver). Com isso, livrará o poderoso Fluminense de finalmente “pagar“ uma série B que ele não jogou em 2000, quando foi guindado da 3ª à 1ª Divisão pela malfadada Copa João Havelange.
                Pois tal fato detonou uma comoção quase nacional, em que todos os não torcedores do Fluminense se viram subitamente acometidos por um senso de justiça semelhante ao que sentimos pelo ladrão de galinhas, quando comparado ao criminoso de colarinho branco (ou branco, verde e grená, se preferirem). A pobre Portuguesa será punida por ter cometido um erro de competência, que em nada influiu em campo, que de nada seria útil, não fosse tal fato passível de uma pena que redimisse o Fluminense do purgatório da 2ª divisão.
                Ora, entendam: quando vemos um ladrão de galinhas ou uma mãe que furta leite para alimentar o filho, nós nos condoemos por essa pessoa, pois lembramos da imensidão de crimes cometidos pelos engomados dos congressos e senados da vida que, quando rara e milagrosamente são presos, ainda possuem muitas benesses. E nossa tendência é simpatizar com o pequeno larápio, esquecendo até que, mesmo em nome de causa nobre, seu ato foi, sim, criminoso. A sensação de revolta pela punição do miserável e costumeira proteção aos abastados nos transforma em Robin Hoods da justiça. Livremos os pobres e encarceremos os ricos, os mais exaltados (talvez até eu), propagariam. E seria muito bom, aliás, tal inversão de hábito. Mas, se analisarmos friamente os fatos, ambos teriam de ser presos. Com penas, tratamentos e repercussões diferentes. Mas ambos erraram.
                 Não que o Fluminense (coincidentemente, simbolizado por um mascote que é um “cartola”, figura no futebol comparável a um dos políticos citados), mereça culpa. Será beneficiado pela colocação que logrou alcançar e que lhe permitirá usufruir do salvo-conduto abençoado (por João de Deus, como entoam nas arquibancadas, ou não). Mas é inevitável a sensação de mal estar. Porque aqueles que acompanham futebol e não são ingênuos (ou pertencentes ao grupo de torcedores dos tais 8 grandes) sabem que, sem dúvida, se a situação fosse inversa, não seria visto de tal forma a irregularidade e a Portuguesa nada obteria para rebaixar o Fluminense. Digo mais, se os times envolvidos fossem Portuguesa e Ponte Preta, por exemplo, ou o Criciúma, cumprir-se-ia a ação sem alarde e estaríamos todos conversados.
                E aí nos percebemos diante de um mato sem cachorro. Como querer que a justiça seja feita por nossas próprias mãos, beneficiando os eternos injustiçados, só para mostrarmos que somos favoráveis aos mais fracos e desguarnecidos ladrões de galinha, se roubar é, no fim das contas um erro? Um erro como o que, mesmo involuntariamente, a equipe de origem lusitana cometeu. Como não nos solidarizarmos a eles, por outro lado?

                Nesse mato, só nos resta esperar que os que elaboram e julgam as leis utilizem do bom senso. A justiça não pode ser totalmente cega. Até porque nunca o foi. Sempre pendeu para o lado que poderia pagar sua cirurgia de correção visual. Está na hora de ela parar com isso. Não indo para o outro lado, o que seria simplista e comparável aos tão criticados sistemas de cotas, bolsa-família etc. Está na hora de ela realmente enxergar. Em todos os campos: futebolísticos, econômicos, políticos, sociais...  

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Máximas roderiquianas 511 a 520

Máximas roderiquianas (511) Viver cansa; a Arte amansa, mas a Angústia não descansa.

Máximas roderiquianas (512) Os desejos mais conscienciosamente reprimidos são deprimentes quando travados, vergonhosos quando relembrados, angustiantes quando descartados.

Máximas roderiquianas (513) Mulheres são abençoadas por Deus: uma protuberância repentina crescida em seu ventre fará com que veja sua genitália brotar vida. Homens são amaldiçoados: semelhante protuberância fará não ver mais a sua.

Máximas roderiquianas (514) Quando alguém a quem queres bem te expõe ao ridículo, o melhor a fazer é simulares a aceitação da infame pilhéria.

Máximas roderiquianas (515) A baixa autoestima é o maior legado do Demo; a capacidade de ironizar as próprias mazelas é o de Deus.

Máximas roderiquianas (516) É incompreensível o temor das pessoas pelos cemitérios: ou eles são a antessala do paraíso ou a última morada tranquila antes do inferno. De qualquer forma, são um local de paz.

Máximas roderiquianas (517) A decepção é o outono dos sonhos floridos.

Máximas roderiquianas (518) A felicidade é um arco-íris: bela, colorida, fugaz e lendária, quanto ao pote de ouro em seu final.

Máximas roderiquianas (519) O eterno quase é o nada com grife de maldição.

Máximas roderiquianas (520) Necessity of careness and commotion brought together become a self-explosion. Isolation turns into disintegration.

sábado, 9 de novembro de 2013

Máximas roderiquianas 501 a 510

Máximas roderiquianas (501) Ensinar Literatura é a arte de fazer os outros perceberem que o mofo tem valor.

Máximas roderiquianas (502) Se tens medo de tomares posse do que é teu, não adianta apenas travares as portas por fora; alguém arrombará a janela e, quando menos cuidares, perceberás que aquilo não mais te pertence.

Máximas roderiquianas (503) O maior deleite do mestre-cuca é ver as vítimas de seu banquete se regozijarem com o próprio sangue.

Máximas roderiquianas (504) As mulheres deveriam dedicar mais de seu precioso tempo ao que realmente é indispensável: a beleza interior. Não importam, a um homem de valor, as marcas do tempo que nela aparecem. A vaidade excessiva só atrai a atenção dos fúteis e aproveitadores.

Máximas roderiquianas (505) Para os felizardos, recomenda-se a observação; para os angustiados, vislumbra-se a reflexão; para os iluminados, reserva-se a solidão.

Máximas roderiquianas (506) Para o homem de bem, a verdade o machuca e fere a outrem; e a mentira o mata, embora poupe àqueles que ama. No balanço final dessas desigualdades, ele chega à consciência tranquila.

Máximas roderiquianas (507) A esperança morta ressuscita a paz.

Máximas roderiquianas (508) Segurança claudicante: angústia lancinante.

Máximas roderiquianas (509) Respeitar a língua-pátria é uma forma de atestar a civilidade de um povo.

Máximas roderiquianas (510) Uma dor enterrada viva geralmente retorna do caixão.

domingo, 13 de outubro de 2013

DIA DO PROFESSOR 2013: NÃO QUERO SER WINSTON SMITH .

Mais um dia dos professores chegando. E eu tenho me questionado muito ultimamente  se nossa profissão está em seus estertores existenciais. São tantas angústias, preocupações, constatações melancólicas... Tudo acabou culminando em uma crise “profissexistencial” em uma sala de 3º ano na última semana... Tentarei aqui compartilhar toda a dor que venho sentindo por perceber que possivelmente estejamos chegando ao fim, como carreira. (Ou, como disse na sala, talvez esteja na hora de EU parar? Não sei...)

Antes de mais nada, é importante que se diga que o que será colocado a seguir não é direcionado a qualquer instituição, turma, aluno ou família em particular. É uma conjuntura global e antiga que a cada dia só piora. Eu olho ao redor e só vejo maiores dificuldades, incompetências e insensibilidades de todos os envolvidos com Educação. Até mesmo por parte de alguns colegas de labuta. Mas estes mais por conformismo ou medo do que por outra coisa. Em geral, o que se vê é a desvalorização do que seja REALMENTE lidar com Educação em nosso país.

Comecemos pelas instituições: hoje há uma moda de “excelência” aparente muito obsessiva, mas que passa unicamente pelas obrigações mais rasteiras dos professores e coloca a lógica pedagógica em segundo, não, em último plano, por vezes. A preocupação é com farda para professores (o que deveria ser uma opção, jamais uma obrigação), material de rede nacional (que eu, profissional na minha disciplina, não posso avaliar e rejeitar, se for o caso...) lousas digitais, livros digitais, presenças digitais... e continuamos manetas na arte de conhecer o estudante, suas necessidades e angústias. A frequencia digital, por exemplo, tão cheia de “segurança” e “sofisticação”, serve apenas para que cada vez menos individualizemos o alunado e realmente identifiquemos quem é quem. Professor tem de tentar conhecer seu aluno pelo nome. E já é tão difícil, com a quantidade de turmas e poucas aulas semanais em cada uma delas (no caso do Ensino Médio, especialmente)... E aí vão tirando a chamada, que te permite saber mais rapidamente os nomes desses garotos. Porque, só lembrando, eles foram registrados com um nome, não com um número ou um chip.

E a tecnologia que facilitou a vida em todos os setores? Gráficas, Secretaria, setores variados que agora trabalham muito menos e não tomaram para si os serviços burocráticos dos professores... Ao contrário, os prazos para nós diminuíram, mesmo que agora eles não digitem, não lancem notas... Fazemos tudo isso e em menos tempo ainda... E ninguém lembra de que deveria ser poupado do professor qualquer trabalho burocrático, para que ele se dedicasse exclusivamente ao que lhe diz respeito: lidar com os alunos e sua aprendizagem. Mas a ideia é de que colocar “mais uma coisinha” para o professor não custa nada... E reclame! Você será o “retrógrado”, o que “emperra o processo”, o “desatualizado”...

E quando algumas escolas se posicionam favoráveis a atitudes erradas da família ou dos alunos? São “clientes”... A pior filosofia possível para uma escola porque, afinal, o “cliente tem sempre razão”... E isso em Educação é mortal. Professores são não apenas questionados (e podem ser, porque não somos senhores da razão), mas “acareados”, expostos, enganados. Sempre há quem queira dar suas convicções particulares (quase sempre absurdas) sob a ameaçadora frase: “Professor, alguns pais/alunos vieram reclamar...”. Mas... Que pais? Que alunos? Ah, eles nunca têm nome... “É para resguardar o aluno de possíveis retaliações”. Que é isso? Eu sou um professor ou um terrorista? Então é assim? Escutar, calar, mudar para o que se deseja que a escola faça, sem nenhuma argumentação? Discutir com reclamantes anônimos? Valei-me, George Orwell! É 1984 no século XXI!!

O que vale é aprovar o aluno, porque, passando para as famílias agora, o que interessa é ter o “retorno do investimento”.  Sim, “eu paguei, ele tem de passar”. Reparem: o filho tem de passar, não necessariamente aprender. “Não se pode passar um ano investindo alto para o menino reprovar”. Opa! E sou eu quem tem de fazer a criança/jovem querer estudar? Sou eu que tenho de curar as deficiências que os anos anteriores de empurra-empurra para a série seguinte criaram? E o pior: quando o aluno capengamente termina o 3º ano e não passa na faculdade dos sonhos a culpa, para pais e escola, é dos professores... Ah, tá.  E mais: eu tenho que substituir o trabalho dos pais de acompanhar os filhos no processo educativo porque eles passam o dia e a noite fora de casa? Bolsa-família pra nós, já, então! É muito filho para dar conta, sem o devido salário!

Isso sem falar nos pais que incentivam seus filhos a destratarem professores. Mandando? Não... não tanto. Mas agindo como se os professores fossem seus “empregados”, desvalorizando seu trabalho, tratando-lhes como um prestador de um serviço qualquer que não o fez corretamente, quando o filho não tira boas notas. Professor, para a maioria das famílias, é um inimigo a ser vencido. É o obstáculo entre o orçamento anual e a aprovação. E haja desacato: ligam para os filhos na hora da aula, aparecem à porta e interrompem para chamá-los, questionam métodos, avaliações e posturas profissionais sem jamais terem tido uma formação pedagógica, na esmagadora maioria das vezes. Basta que seu filho não tenha o tão esperado... aprendizado? Não! RESULTADO. Os pais têm de ter consciência de que ser um ótimo filho não quer dizer necessariamente ser um ótimo estudante. Há seres humanos maravilhosos que simplesmente não gostam de estudar e precisam receber em casa, e não na escola, o valor do conhecimento. O processo é conosco. A filosofia vem de casa.

E falando nos filhos, vamos a eles. Longe de mim querer que professores sejam tratados como em certos países orientais, em que tais profissionais sequer precisam se curvar diante de imperadores (não é lenda, é verdade!) ou esperar que recebamos os maiores salários do país – embora merecêssemos estar entre os melhores, sim! Eu falo de algo bem simples: respeito. Respeito pelo conhecimento, pelos anos a fio sentados em um banco de Universidade e em casa estudando o que e como transmitir aos outros. Respeito pela presença de alguém que pode até não falar sobre o que se gosta, mas que deve ser ouvido independentemente disso. Respeito pelo ser humano, enfim. Não se vira de lado ou se dá as costas, não se dorme ou mexe no celular diante daqueles a quem devemos respeito, em situações convencionais. Por que conosco é diferente? Porque o aluno pode “escolher” que aula assistir? Por que eu tenho que deslocar energia de minha aula para a investigação de quem está usando o celular? Por que eu tenho de pagar, com a afronta (mesmo involuntária, às vezes) do aluno, pelas horas por ele perdidas em frente a redes sociais, televisão ou jogos virtuais?

Alguém ousou dizer a esses jovens que eles podem chegar à hora que desejarem e sair a todo instante, sob os mais variados pretextos (e mesmo não sendo pretextos... o que aconteceu com a capacidade do ser humano em controlar seu aparelho urinário e sua sede? Eles saem durante um filme, cerimonial, celebração ou jogo para irem ao banheiro ou beber água?). Quem lhes disse que não precisam fazer silêncio enquanto o professor não começa a matéria propriamente dita? Quem disse a eles que não precisam levar o material para a sala mesmo no dia em que a bolsa estiver pesada?

O que deve ser dito a eles, pela família e pela escola - e não pelo professor, porque o aluno tende a ver nossa observação como uma declaração de guerra – é que APRENDIZAGEM NÃO É LAZER. Dela o lazer pode e deve fazer parte, quando o PROFESSOR, treinado e capacitado para isso, achar que é a hora de “dar uma variada” e usar um método diferente. Mas aprendizagem não é diversão. Assim como quando alguém quer moldar o corpo, exige-se renúncia, sacrifício, suor, até lágrimas. A sala de aula não é lugar apenas para fazer amigos ou brincadeiras memoráveis. Isso é um ingrediente, não uma finalidade. Os alunos de hoje querem passar de ano sem ler um livro, sem comprar material (mas o celular de última geração está ali, escondido atrás ou dentro da mochila), sem anotar, sem prestar atenção, sem ter um único dissabor. O máximo de resultado com o mínimo de esforço, eis o lema da maioria deles. Querem trabalhos que não deem trabalho, provas que não provem seu conhecimento e conceitos que não os conceituem (pois não se pode “rotular os alunos”). Ou seja, fazer NADA e receber um boletim lindo, que lhes permita um presentinho dos pais e a repetição do processo no ano subsequente...

O que deve ser dito a eles é que o professor é uma autoridade, sim, que também pode ser amigo e fraterno, mas não seu responsável. O que me incomoda em ser chamado de “tio” por esses jovens não é o fato de essa alcunha conferir um certo grau de velhice (embora seja de bom tom não dar a entender isso).  O que incomoda, realmente, é a ideia subliminar de que o “tio” é um protetor, que não vai deixar nada de errado (leia-se: reprovação) acontecer com ele. Não é o que eles pensam, na hora em que dizem, claro. Mas é o que acaba passando. Eles esperam que nós o protejamos das broncas dos pais, do bullying dos colegas que passam de ano, dos traumas de uma nota baixa... mas sem fazer nada. Temos que ter “peninha” dos nossos queridos “sobrinhos”, “pobres coitados” que “não precisam saber Física porque serão estilistas, ou não devem ser cobrados em Literatura porque farão engenharia...”. Pode até ter um fundo de verdade. Mas faz mal? Que coisa! Parem de estimular a esses jovens a se acomodar!

Em suma, quero ser respeitado como profissional. Que minha palavra seja válida e aceita como a de um médico, de um advogado, de um engenheiro... categorias às quais se escuta sem questionar ou, mesmo reclamando, todos admiram. Quero ter minha preparada e abalizada palavra de educador aceita e valorizada pela escola que me contrata, pela família que nem me conhece (mas deveria) e pelo aluno que me vê em sala. Que não goste de mim? Tudo bem. Mas que me escute DEDICADAMENTE, e não com o ridículo discurso do “eu escuto é com os ouvidos” ou do “Dê sua aula pra quem quer e me deixe quieto aqui, que não estou atrapalhando”! Eu não dou aula de costas, dormindo, lendo outra coisa ou mexendo no celular. Por que tenho de ser complacente com quem faz isso em minha aula?

Sinto, a cada dia, que não atinjo mais meus alunos. E esse foi o motivo de minha crise na sala a que me referi no começo desse texto. Chorei. Sim, chorei. Mas não porque eu me julgue incompetente, ultrapassado ou chato. Mas porque o mundo mudou para pior em relação ao tratamento para com o professor, e hipócritas querem que eu veja isso como uma evolução. Como se isso fosse o natural e eu que estivesse em desacordo com os dias atuais.

NÃO!! São os dias atuais que estão em desacordo com o que é certo para a Educação. E é por isso que eu disse, entre sinceras lágrimas, para a turma boquiaberta: “Acho que está na hora de eu parar, pois eu não consigo mais me fazer entender para vocês”. Bateu, pela primeira vez, uma vontade de ter a idade para me aposentar. Antes que, tal qual o personagem Winston Smith, do citado clássico “1984”, de George Orwell, eu seja convencido de que eu é que sou o problema e me pegue, como já vejo infelizmente alguns companheiros de profissão fazendo, reproduzindo o discurso dos patrões ou simplesmente dizendo: “Roderic, eu já fui como você. Acredite, não vale a pena”. Pois eu acho que vale a pena espernear, sim. E é só por isso, apenas por isso, que a vontade de me aposentar já passou. Porque AMO o que faço e creio que eu posso dar murros (minha teimosia em ensinar e cobrar do aluno, da família, da escola) em pontas de facas (os alunos, a família, a escola, a ideia errônea de educação de hoje) e valer a pena. Eu perco minha mão, mas posso amolar algumas facas e fazê-las um pouco melhores do que são... Afinal, apesar de tudo, com muito ORGULHO: sou PROFESSOR!

500 máximas



Já são 500 máximas. E parece que foi ontem que as iniciei. A ideia veio da leitura das máximas as quais o inigualável Machado de Assis cria, em Memórias póstumas de Brás Cubas, através do defunto protagonista. Desde que o li pela primeira vez, lá pelos 12 anos, duas me chamavam particular atenção: “Matamos o tempo; o tempo nos enterra” e “Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar”. E eu guardei isso na memória por anos. Até hoje, em minhas aulas, costumo citá-las, ao narrar um resumo rápido que o tempo escasso que a carga horária de Literatura permite. E comecei a brincar de fazer umas frases. Lá pela 4ª, comecei a numerá-las, para não (me) perder, porque não tive vontade de parar mais. E o facebook (e também aqui, no blog) me pareceu o lugar ideal para divulgá-las. Irônicas, criativas, ou simplesmente lamentosas – não, eu não direi quais são cerebrais e quais são de meus verdadeiros sentimentos -, foram as máximas fiéis a seu conceito de brevidade (nem sempre, confesso). E eis que aparecem os primeiros “curtidores”, que se tornaram meio que um termômetro da beleza, (im)popularidade ou simples despertar das ideias alheias de meu trabalho. Senti que algumas pessoas de fato se viam ali, “resumidas”. Algumas máximas despertaram polêmica, agradecimentos, admiração ou discordância explícita. Mas poucas passaram totalmente despercebidas. Hoje, 500 máximas depois, sinto-me feliz por poder brincar, trabalhar e até, ouso dizer, influenciar através das palavras. Afinal, o que é a literatura, em seu preceito mais básico, senão a busca por atingir as mentes e corações humanos? Nada mais simples e terreno, porém dignificante. Mas também quero de alguma forma eternizá-las. Espero um dia conseguir.

Máximas de 491 a 500

Máximas roderiquianas (491) O presente material é apenas um atestado de nossa incompetência para demonstrar o quanto as pessoas nos significam.

Máximas roderiquianas (492) Lágrimas são estilhaços do coração.

Máximas roderiquianas (493) Há meses que nascem tragicamente longos e que tendem a morrer longamente trágicos.

Máximas roderiquianas (494) A diferença entre os outros estilos musicais e o rock é que ele é o único que se torna um estilo de vida.

Máximas roderiquianas (495) Para mim, amar o que exatamente sou é fácil; difícil é aceitar que ninguém mais ama exatamente o que sou.

Máximas roderiquianas (496) A Death’s kiss was the kiss of life that brought my breath back to this side.

Máximas roderiquianas (497) Sacrifícios secretos simulam sonhos sufocados.

Máximas roderiquianas (498) O amor ocorre quando a volúpia pela parceira língua jamais míngua.

Máximas roderiquianas (499) Para se recuperar a vontade de viver são necessárias a exumação da alma e a investigação de sua causa mortis.

Máximas roderiquianas (500) Meu corpo é um outono, minha alma um inverno; mas não por isso aos que quero bem terei menos primaveras nos sorrisos ou verões em meus discursos.

sábado, 28 de setembro de 2013

Máximas roderiquianas (481 a 490)

Máximas roderiquianas (481) O que os olhos não veem o coração ressente.

Máximas roderiquianas (482) Quando sucumbir não é mais um temor, mas um alívio, está na hora de se deixar apagar a vela do enfermo.

Máximas roderiquianas (483) O senso comum violenta os indivíduos autênticos.

Máximas roderiquianas (484) A confissão das fraquezas é, com certeza, a falência do corpo; mas pode ser a redenção da alma.

Máximas roderiquianas (485) Quem diz amar e lança ao coração alheio sementes de tamarindo não pode esperar uma colheita de morangos.

Máximas roderiquianas (486) A neutralidade é o purgatório dos covardes.

Máximas roderiquianas (487) Morrer não é uma questão de estar aqui ou ali, mas de permanecer aquém ou ir além.

Máximas roderiquianas (488) A mediocridade é filha bastarda do equilíbrio e prima legítima do silêncio.

Máximas roderiquianas (489) Nenhum espírito é tão pobre para não ter uma verdade ou tão opulento para tê-las todas.

Máximas roderiquianas (490) A solidão se detecta quando confundimos o ruído do ataque de um mosquito com uma aterrissagem de avião.

Máximas roderiquianas (461 a 480)

Máximas roderiquianas (461) A esperança é um croupier desonesto; só um embuste maior pode fazê-la render-se a nós.

Máximas roderiquianas (462) Contato curto, amizades longas.

Máximas roderiquianas (463) Até a afonia tem um propósito: ouvir melhor a voz da alma.

Máximas roderiquianas (464) A maior dificuldade para se atingir um objetivo dito como impossível é vencer a quase intransponível distância entre o depressivo imobilismo e o primeiro passo.

Máximas roderiquianas (465) Sê igual e serás ignorado; sê diferente e serás desacreditado.

Máximas roderiquianas (466) Há certas vidas que não valem a própria morte; são um desperdício de energia cósmica.

Máximas roderiquianas (467) A sensibilidade é uma virtude que as mulheres tomam para si e reprovam em um homem que lhes interesse.

Máximas roderiquianas (468) O ecletismo é a prova inconteste de que mesmo a tolerância pode ser nociva.

Máximas roderiquianas (469) O amor perfeito é tal qual saboroso jantar: o homem deve ser vinho envelhecido; a mulher, queijo fresco.

Máximas roderiquianas (470) A lâmina de tosquiar é o troféu dos mansos.

Máximas roderiquianas (471) A inteligência, infelizmente, só encanta cérebros femininos, não corpos ou corações.

Máximas roderiquianas (472) Maus escritores e compositores são o atestado de que a onomatopeia realmente pertence às bestas.

Máximas roderiquianas (473) Corpos reluzem; mentes induzem; almas seduzem.

Máximas roderiquianas (474) Mulheres: quanto mais divas, menos vivas.

Máximas roderiquianas (475) Um indignado é uma ameaça à cristalização das aberrações da sociedade; por isso ela pasteuriza toda rebeldia e a transforma em tendência.

Máximas roderiquianas (476) A vida cansa, a dor avança, o diabo alcança, a morte amansa.

Máximas roderiquianas (477) Quando a felicidade de quem te fez mal não te incomoda mais, supõe-se uma evolução de tua espiritualidade.

Máximas roderiquianas (478) O único modo de esbarrar com a felicidade é não buscá-la.

Máximas roderiquianas (479) Às vezes, quando o corpo clama por amor, tudo o que se pode fazer é sufocar-lhe o grito entre os travesseiros.

Máximas roderiquianas (480) Os homens querem mostrar a suas amadas que são melhor provedores que o pai delas, mais protetores que o irmão, mais virtuosos que todos seus ex-namorados e mais confiáveis que o melhor amigo que ela disponha para desabafos, portanto podendo vir a ser o marido ideal; as mulheres, por sua vez, também querem ser as esposas perfeitas: mais zelosas que a mãe, mais carinhosas que a irmã, mais belas que todas as suas antigas paixões e mais admiráveis que as amigas dele. E é aí que começa o fracasso das relações, pois no amor não devemos querer ser superiores a ninguém, a não ser a nós mesmos.

sábado, 31 de agosto de 2013

Eu creio.

31 de agosto. Se meu saudoso pai fosse vivo, estaria fazendo 102 anos hoje. Sim, 102. Mas, infelizmente, já se vão quase 29 anos que ele se foi. E se celebro ainda essa data, é por acreditar que se uma infecção hospitalar após uma cirurgia dita simples não o tivesse vitimado, ele teria voltado pra casa em 3 dias, como foi dito à época, e ainda estaria até hoje entre nós, tamanha a sua vontade de viver e de ser feliz.

Mais que um exemplo, durante todos esses anos meu pai foi e é meu espelho, alter-ego, enfim, o Outro, tão famoso nas literaturas artísticas e médicas. O amor incondicional pela família, a cultura, a inteligência, a opinião firme, mas aberta à aceitação do alheio e ao diálogo, são algumas características que busquei herdar, por aprendizado, já que a genética não nos beneficiou. O espírito bonachão, embora sério, a simpatia para com o que lhe era caro e a sisudez com o que não lhe agradava, a tal ponto de ser o famoso “chato, mas legal”, esse modo de ser eu nem fiz esforço para seguir. Sou eu, enfim.

Mas há algo mais motivador que me leva a lembrar esta data hoje. Pensei muito, quase o dia todo - aliás, desde ontem -, sobre tudo o que vem me afligindo nesses últimos anos. E vi que ele não iria querer me ver assim. Angustiado, sofrendo, como se esperasse apenas a hora de reencontrá-lo. Ele, com o amor que teve por mim desde o ventre de minha querida mãe biológica, quando sequer sabia o que viria dali, deve estar preocupado comigo, assim como minha mãe adotiva. Porque ele tinha todas as virtudes que eu podia notar (até a raiva tão instantânea quanto momentânea, que lhe conferia autoridade e admiração pela capacidade de arrepender-se, ao mesmo tempo), e mais algumas que a pouca idade não permitia.

 Uma que eu não devo ter assimilado muito bem era a imensa vontade de me ver forte, grandioso, valente, esperançoso. Tornei-me alguém sensível demais, o que é muito bom para as artes e para as relações, mas péssimo para a tolerância a este mundo.  Sou aborrecido, triste, angustiado por tudo o que há e dá de errado na minha vida, na minha vivência (mas pelo menos sei que ele teria orgulho de mim como profissional – sei que não sou mau professor), no universo e sua maldita mania de premiar os malvados e condenar os bons. Parece que este mundo foi feito para quem maltrata. Mas meu pai não quereria me ver sofrendo por isso ou por qualquer outra coisa. Ele iria querer que eu enfrentasse, como ele fez, a tudo e todos que obstaculassem a simples felicidade que ele desejava tanto.

Pois eu decidi que está na hora. Tantos anos depois, chega a hora de eu tentar passar a fazer algo de que ele realmente sentiria orgulho: passar a acreditar. Nem que eu me arrebente, fracasse, seja vítima de chacotas (a começar por este texto) ou calúnias. Mas eu tenho a obrigação de tentar ser feliz. Até hoje tenho me dedicado a me lamentar e dizer: “Não posso. Não creio. Felicidade não é pra mim”. A única exceção plena é a vida de meus filhos, uma bênção maravilhosa e inabalável. Por vezes, não me envergonho em assumir, foram minha melhor razão para permanecer vivo. Mas não mais serão a única, de hoje por diante. Vou acreditar. Ou tentar, pelo menos.

Precisarei de uma força que nunca tive, e rogo a Deus para que me ajude. Mas vou acreditar que posso melhorar, crescer, evoluir. Em todos os aspectos (só não vou deixar de ser um estranho na Arte, continuarei gostando de filmes e literatura de terror, de coisas fúnebres e góticas – isso não é defeito, é estética, e por sinal de muito bom gosto). Mas vou acreditar que posso, mesmo secretamente, amar, ser amado e, ainda assim, feliz. Até que um dia os mistérios se desvendem aos meus olhos e aos de todos. E quero estar pronto para esse dia. A fim de ser melhor para mim mesmo e para quem aguentar este cidadão difícil, chato, um tanto destrambelhado e desleixado, mas honesto, amoroso, autêntico e, de hoje por diante... esperançoso.

Deus e Emmerich Szasz me abençoem.

domingo, 18 de agosto de 2013

SILÊNCIO PREOCUPANTE




Talvez alguns estejam estranhando minha ausência de depoimentos sobre a ocupação do Cocó e a questão do viaduto. Aliás, os mais atentos e próximos podem mesmo estar sentindo falta de postagens sobre questões políticas há um bom tempo. Logo eu, “reclamão” e de esquerda assumido.

Pois é, talvez seja só uma fase, já que meu espírito é muito questionador, sempre. Não estranhem se amanhã ou depois eu já aparecer criticando ou ironizando algo. Mas também não reparem se eu demorar. É uma fase, embora não saiba quando ou mesmo se passa (aí teria chegado à conclusão de que não se tratava de uma fase, mas enfim...).

É que eu tenho ficado muito irritado com as posturas de alguns, e nem sei se vale a pena entrar em conflito. A cada dia me convenço mais de que as pessoas não possuem postura política independente de linha ideológica, mas guiam-na pelos meros interesses próprios. A gente vê, pelas redes sociais, coisas inconcebíveis e absurdas saindo pelas teclas de quem menos se espera. Os movimentos parecem interessar apenas quando a causa lhe afeta diretamente. Aí começam a discutir entre si os que “ontem” marchavam lado a lado nas manifestações. 

Como exemplo, cito a causa dos médicos. São raros e radicais seus defensores. Porque ambos os lados só veem o lado pessoal: Quem não é médico diz: “Quero ter saúde boa e gratuita”, sem querer saber se o profissional da área será bem pago pra isso. Parece até que todo médico vive do status que realmente a classe possui. E alguns médicos, por sua vez, veem apenas o seu lado, sem mostrar uma solução plausível para a saúde pública do Brasil. Como se o remédio (perdão pelo trocadilho infame, o desejo de fazê-lo foi maior que eu) não passasse também por suas mãos.

É como se você dissesse: “não luto pelo respeito aos homossexuais porque não sou; essa é a luta deles”. Mas a questão não é ser ou não homossexual. É alguém merecer ou não respeito, independente de quem seja...  Então, se eu sou professor, só vou me informar, lutar e gritar por Educação? Se não tenho carro, dane-se o viaduto? E se tenho, danem-se as árvores? É difícil falar de igualdade social quando queremos as vantagens que nos cabem e ignoramos o que não nos afeta diretamente...

Vejam o caso mais recente, do Cocó. Tenho a nítida impressão, em quase todas as postagens que vejo (e as exceções são honrosas, de parte a parte) que o apoio ou não ao viaduto passa justamente por questões como ter ou não um carro, ser uma obra do grupo ligado ao Cid ou à Luiziane, derrubar ou não árvores perto de sua casa etc. É como se a questão ambientalista ou urbana fossem menores que suas possíveis perdas particulares ou as cores da bandeira que admiram. Dá pra garantir que alguns ativistas apoiariam o viaduto se fosse uma obra petista. Ou que os defensores da modernidade sairiam até nus para provar seu naturismo se a obra fosse da “loura”, como dizem. Quem tem carro, quer o viaduto e xinga os “retrógrados”; quem não tem, quer a natureza, numa espécie de vingança contra a pretensa “burguesia” dos motorizados (reforço... há numerosas e valorosas exceções – nem todo mundo tem essa visão restrita do problema). E as questões vão tão mais além... Natureza, transporte público, saúde, segurança... está tudo ligado. E ninguém para pra avaliar, ou mesmo pra se informar. Parece que é como se dissessem: “se as árvores derrubadas pertencessem a um político fazendeiro, poderiam derrubar: é propriedade privada, tem de acabar em nome do benefício da população”. Mas... e a natureza, não é a mesma? E os que defendem o viaduto, estariam assim enraizados se as árvores derrubadas fossem em frente a sua casa ou apartamento? Se o silêncio, paz e arborização destruídos estivessem ao alcance de suas janelas?

Para falar a verdade, eu não me considero habilitado para julgar a questão. Li pouco a respeito. A não ser os textos que os militantes dos dois lados me enviaram. E praticamente nenhum desses arquivos me pareceu isento de parcialidade. Também por isso não falei a respeito. Talvez alguns esperassem (com certa razão, seria meu normal) que eu aparecesse lá. 

Também não me tomem por ingênuo. Não creio que todo movimento é livre de interesses pessoais. Mas quando eles ultrapassam a informação, o sensato e o bem-estar coletivo, não dá para “curtir”, “compartilhar” ou coisa que o valha. E não me animei a fazê-lo nem mesmo quando um ou outro bom texto o merecia, Estou... cansado. Preciso parar, repensar e seguir adiante. Jamais serei direita, claro. Mas a cada dia me decepciono com movimentos de minorias ou de reivindicações. Eles só lutam por seus direitos. E seus opositores por suas causas. O coletivo nunca está em pauta. Aquela neutralidade de ser capaz de abrir mão do que é-lhe confortável em prol de todos passa longe  de ser uma opção. 

É como a questão da segurança (aliás, aproveito para dizer que por respeito aos movimentos abandonarei os grupos do facebook que tratam disso). Vivemos uma situação absurda de descaso, claro. Mas estou farto de ver gente falando (como se fosse possível) na emergência em colocar um guarda em cada esquina ou impedir todos os assaltos a carros da cidade. 

Ou ainda, a Educação. Os seus heroicos militantes são, muitas vezes, os primeiros a gazear aulas, rezar por um feriado ou querer passar de ano sem nenhum esforço. Que incongruências são essas? Que contradições regem a cabeça dos que buscam por melhoras? A resposta é simples: em todas as áreas, eles querem avanço apenas para o que lhes interessa. Sem abrir mão de nada. 

Sonho com o dia em que todos sejam capazes de perder um benefício individual aqui para ganharem todos ali. De hoje abrir mão de algo que lhe é caro em nome de que a população ganhe mais adiante. Talvez eu seja utópico. Talvez louco. Talvez idiota. Mas a verdade é que está cada vez mais difícil usar de isenção, por saber que do outro lado (nem sempre oposto, às vezes o próprio lado) dificilmente haverá… Acho que começo a ter minha primeira famosa crise de desesperança motivada pela “experiência”. Aquela coisa pessimista de “Não adianta, não vai dar em nada”. Espero que seja um momento efêmero. 


Máximas roderiquianas (441 a 460)

Máximas roderiquianas (441) A calúnia corrói vítimas, mas aniquila detratores. Entre os dois extremos está a descoberta da verdade.

Máximas roderiquianas (442) Em um casal, a diferença de idade é a soma dos anseios: um quer vitalidade; o outro, maturidade.

Máximas roderiquianas (443) A humanidade não evolui com a alta tecnologia, mas com pequenos feitos que a livram da barbárie.

Máximas roderiquianas (444) Às vezes um homem ama despudoradamente alguém que não merece e, por pudor, não ama uma grande mulher.

Máximas roderiquianas (445) A Arte não carece de explicações, mas de afeições.

Máximas roderiquianas (446) O sonho é uma checagem de nossa vaga no Além.

Máximas roderiquianas (447) Não transfiramos para nossa ascendência o valor de nossos atos: Deus e o Diabo não possuem sobrenome.

Máximas roderiquianas (448) Se a crença na espera é um jasmim, em mim o jardim já está quase no fim.

Máximas roderiquianas (449) Vingar-se é a menos correta, mas melhor forma de perdão.

Máximas roderiquianas (450) A maior dor da vítima de abandono é a dúvida que consigo carrega sobre a perdida possibilidade da plenitude. Dali por diante, nada mais parecerá igualar-se.

Máximas roderiquianas (451) Um pênis nem sempre faz de um homem um pai; um coração, invariavelmente.

Máximas roderiquianas (452) Relacionar-se com alguém logo após um amor verdadeiro é uma prótese: está lá, serve, mas não se sente.

Máximas roderiquianas (453) A única vantagem de uma madrugada solitária em comparação a uma vagabunda é que o álcool e o cigarro beijam a boca.

Máximas roderiquianas (454) Meu grande problema com o mundo é que nem eu o vejo como os comuns o veem, nem ele me dispensa um tratamento comum.

Máximas roderiquianas (455) O amor pela própria companhia é o orgasmo da Solidão; porém também é fugaz e arrefece.

Máximas roderiquianas (456) Bons livros são como o vinho: quanto mais raros e envelhecidos, melhor seu buquê e mais lentamente o degustamos, lamentando gota a gota a proximidade de seu fim.

Máximas roderiquianas (457) A razão é o salvo-conduto de um prisioneiro da esperança.

Máximas roderiquianas (458) Em um relacionamento há Química, Biologia, Física; mas o que lhe faz eterno é a História que se vai construindo.

Máximas roderiquianas (459) A probabilidade é a hipótese em gotas.

Máximas roderiquianas (460) Um amor verdadeiro é uma obra de Arte: não precisa de uma plateia, mas ainda assim gosta de causar-lhe admiração ou assombro.

Máximas roderiquianas (421 a 440)

Máximas roderiquianas (421) Qualquer sugestão impossível, se dada com boa vontade, tende a tornar-se uma doce e temível dúvida a martelar sua mente.

Máximas roderiquianas (422) Eu me ajoelharia diante do Senhor se Ele não me tivesse estourado os meniscos; eu me curvaria diante Dele, se alguns de Seus seguidores não quisessem se aproveitar de minhas fraquezas quando o fiz; mas ao contrário do que parece, não sou um ateu, sou um sobrevivente.

Máximas roderiquianas (423) Na verdade, não sou o proprietário deste corpo: pago um caro e injusto aluguel, pois as instalações se deterioram diariamente.

Máximas roderiquianas (424) Matar um amor que te foi traiçoeiro e ingrato é muito difícil. Sentir o ódio depois, simples; é apenas o esquartejamento do cadáver.

Máximas roderiquianas (425) Se falo o que penso, corro o risco de morrer pelo rancor que desperto. Se guardo comigo, quem morre com aquilo atravessado sou eu. Como não sou suicida...

Máximas roderiquianas (426) Um ombro amigo é um psicólogo sem antidepressivos.

Máximas roderiquianas (427) Ser autêntico é uma fórmula bem eficaz de terminar seus dias sozinho. 

Máximas roderiquianas (428) Meias verdades não fazem uma inteira.

Máximas roderiquianas (429) O pessimismo é a soma de todas as injustiças padecidas.

Máximas roderiquianas (430) O julgamento alheio de uma ideia é um algoz; o próprio, o caixão.

Máximas roderiquianas (431) A Língua de um povo é como uma mulher: deve ser amada e preservada, não estuprada.

Máximas roderiquianas (432) Querer bem é desejar mais e exigir menos.

Máximas roderiquianas (433) Educação não é mordaça; respeito não é concordância; tolerância não é silêncio. 

Máximas roderiquianas (434) Uma migalha de esperança é capaz de fazer um pássaro com asas quebradas recomeçar a sonhar com céus mais límpidos e tranquilos. 

Máximas roderiquianas (435) A maior derrota para a Educação é supô-la espontânea e fácil.

Máximas roderiquianas (436) Um amor breve é tão doloroso quanto uma paixão duradoura. 

Máximas roderiquianas (437) Retalhos de passado não trazem novas sensações; remendados servem, no máximo, para liquidação em um brechó.

Máximas roderiquianas (438) Assim como boas sementes não germinam em terra inóspita, cultura não floresce em um jovem sem um lar que estimule o intelecto.

Máximas roderiquianas (439) Uma mente vingativa é mais eficaz que um porte de arma.

Máximas roderiquianas (440) A paternidade é a forma que Deus encontrou para nos fazer conhecer o Mistério da Existência: criar um filho, entregá-lo à sociedade e ver essa criança usar o livre arbítrio para honrar nosso nome é o mais próximo da eternidade que o mundo terreno pode nos dar.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Emoção também é coisa de pai.

Está vindo aí o dia dos pais. Curioso observar como ele para mim é meio desconexo com o que normalmente se espera de um pai. Normalmente, percebemos que às mães são destinadas homenagens diferenciadas, com festa, rosas, declarações de amor explícitas, sensibilidade, lágrimas. Para nós, aquela imagem de suporte, determinação, força e – como não notar? – severidade educativa. Não cabe aqui uma discussão infrutífera sobre o papel maior ou o sofrimento físico ou emocional de um ou de outro, mas a verdade é que não nos imaginam capazes de privilegiadas emoções.

Não se espera de um pai a lágrima, o sorriso emocionado, o arrepio, a sensação de angústia e preocupação constante, dor. Talvez porque para a mulher a sociedade machista (mesmo entre mulheres) delegue, justamente pela dor do parto, toda a parte emocional do conceber e criar filhos. Parece que ao homem não cabem arroubos sentimentais, trêmulos depoimentos de amor ou admiração pelo sacrifício. Somos solenemente colocados num plano de valorosa coadjuvância, uma espécie de parceria que prima pela excelência, pelo resultado, mas não pelo processo. Pior: é como se não tivéssemos o “direito” de demonstrar uma suposta fragilidade emotiva diante do “machinho” ou da menina cujo complexo de Elektra parece ser regado sob a voz áspera, serena e taxativa da figura paterna.  

Nós, pais, somos tidos como frios, metódicos, provedores de um lar preparado para a emotividade da mãe e nossa dogmática “missão atávica” de baluartes da pureza das filhas e da masculinidade dos “pirocos”. Pois eu não sou adepto disso. Ao contrário, não me envergonho em dizer que por meus filhos estremeço, congelo, derramo-me em carinhos, dengos e calafrios. Sinto-me tão emotivamente abençoado e por vezes abalado quanto as mães. Eu rio com os primeiros tropeços e corro às primeiras quedas. Tal qual uma mãe instintiva, chego a magoar em nome da defesa de meus filhotes, talvez até melhor, com o equilíbrio um tanto sádico de ensinar-lhes as artimanhas para um troco bem dado, seja na palavra, no desprezo ou no porte. Não me envergonho de declarar que minhas crias são minha razão de viver. De chorar quando eles se vão antes da hora, deste mundo ou para ele. De ensimesmar-me numa dolorosa reclusão quando percebo que de mim eles nada mais esperam que um alicerçado e terrivelmente sofrido silêncio de apoio irrestrito, ainda que intimamente negado.

É até bíblica a diferença de trato entre o pai e a mãe. À Maria uma devoção católica festiva, perfeita e perfeccionista. A José, um discreto, silencioso e respeitoso carinho distante e contemplativo. É como se José não pudesse também chorar aos pés da cruz, nem amparar o Cristo nas quedas e dores. Estranho... Sinto-me muito mais homem quando me emociono ao ver o drama de crianças que veem no pai não apenas o herói, mas o fragilizado responsável por ser eternamente forte. Sem entrar em disputas tolas, mas a mãe tem a força da resistência à dor do parto, e nós, que por vezes transmitimos uma aparente fortaleza intransponível,  na verdade somos tão melancolicamente atingíveis em nossa muralha. Uma lágrima de um filho, mesmo alheio, é-nos um começo de um rompimento de um dique de solidez que nos foi inexplicavelmente imposto pelo mundo. Desfalecemos por dentro, transformamos o pranto em catarse: mantemos a postura de respaldo, transformamo-nos no porto seguro, quando parece não haver mais lágrimas a rolar de uma mãe desesperada e, ao mesmo tempo, também tão forte.

Ao ver um filho pedir-me para brincar, sentar no chão e com ele rolar, sinto-me o artista perfeito: o mímico da mão-de-monstro, o pintor do lápis de cera quase findo, o Pelé sem nenhuma habilidade, o palhaço triste que desperta o riso de uma alma carente de afagos protetores e desejos por voos longos e tão dificilmente aceitos. Geralmente percebemos mais cedo que a mãe que eles cresceram; mas demoramos séculos para admitir que a hora de dormir deles não nos pertence mais.


Sim, eu me emociono, com orgulho. E não me importa que meus filhos tenham vindo de meus testículos ou do meu coração. São eles que um dia verão em mim um homem de verdade. Aquele capaz de chorar de amor. Porque um filho que vê o pai se derramar em prantos pelo bem querer aos seus rebentos um dia, com certeza, será capaz de fazer de seu mundo algo menos temerário que os inimigos invisíveis que eles insistem e convencem de que temos de combater. Quando eles crescerem, esses inimigos serão enormes e bem visíveis. E serão minhas emoções e vibrações as armas  e escudo de meu herói eternamente criança, que combaterá todo o mal do qual não o consegui proteger.  

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Máximas roderiquianas (411 a 420)

Máximas roderiquianas (411) Para alguém que não ama, o que mais preocupa depois da satisfação da carne é o amanhã; para quem ama é a falta dele.

Máximas roderiquianas (412) Assim como a delicadeza é feminina e a brutalidade, masculina, o sorriso aberto deve ficar para as mulheres e a gargalhada espalhafatosa para os homens.

Máximas roderiquianas (413) A amizade tanto pode ser argumento para iniciar uma relação amorosa como para evitá-la.

Máximas roderiquianas (414) É desconsoladamente perdido este mundo, em que aparência sem inteligência equivale à sedução e inteligência sem aparência gera solidão.

Máximas roderiquianas (415) Ocupação é necessidade; profissão, identidade; vocação, felicidade.

Máximas roderiquianas (416) Entre permanecer calado, escolher palavras que amenizem mas descaracterizem o que se quer dizer e correr o risco de ferir suscetibilidades ao declarar francamente o que  se pensa, fico com esta última. Nem uma mísera opinião deve ficar escondida sob a capa da neutralidade ou o medo da incompreensão.

Máximas roderiquianas (417) A Vida inveja a Arte; portanto, jamais lhe será superior.

Máximas roderiquianas (418) Se Deus escreve certo por linhas tortas, não será o Diabo que Lhe presenteará com um caderno de caligrafia.

Máximas roderiquianas (419) A autenticidade traz paz espiritual, mas inspira a rejeição alheia.

Máximas roderiquianas (420) Há pessoas por quem nada fazemos nem no grito; e há outras cujo simples sussurro é o suficiente para gerar uma inominável onda de generosidade.


domingo, 21 de julho de 2013

MEU CARO CHICO

Texto meu para prestar homenagem a ilustre mestre da música brasileira.

Antes, uma explicação. No dia 20 de julho de 2013 houve um sarau em honra a Chico Buarque de Holanda organizado pelo Coral Sobretons, do qual tive a honra de participar por exíguo tempo. Fui convidado para participar do evento cantando (imaginem, que horror!) "Cálice", do ilustre compositor. E assim cada um dos participantes faria, com um dos clássicos do grande bardo. A segunda participação deveria ser uma música do repertório do cantor/grupo que se apresentava. Bem, como não sou cantor, acordou-se entre mim e Tiago Nogueira, regente do Sobretons e (ir)responsável pelo convite para que eu torturasse a sensibilidade musical dos ouvintes, que eu faria um poema para saudar o evento e o homenageado. De acordo com sugestão do próprio Tiago (por sinal, meu ex-aluno), elenquei alguns títulos de músicas de Chico para brincar com as mesmas. E eis o resultado. Espero que os fãs do grande mestre da MPB se divirtam procurando os títulos e referências.

MEU CARO CHICO

Meu caro Chico que não é Barão,
Mas é dos mais nobres desta nação,
Dos melhores poetas que já vi.
Eu não vou compor um Samba de Orly.
Nem ópera, pois malandro não sou...
Meu caro amigo, sou só professor
E se eu tentar tal coisa... ai de mim!
Apanho qual Geni do Zeppelin!

Olhos nos olhos, bem cá entre nós,
Que este público não nos deixe a sós...
Vai passar uma banda de uma gente
Humilde, e em roda-viva contente,
Pra comigo pintar em preto e branco
Um bom retrato de seu rosto brando.
A construção também terá as cores
De um passaredo e alguns de seus amores...

Apesar de você não ser semita,
É Angélica, Carolina e Rita,
Nenhuma com jeito de meretriz.
Quieta, Bárbara, nem a Beatriz!
Vem Luísa, Januária e Maninha.
De Amsterdã, Ana quase não vinha.
E trato de ficar nessas apenas
Pra não falar das mulheres de Atenas!

Trocando em miúdos, ó meu guri,
Vai ter valsinha, baticum aqui,
O que será pouco pra tanto brado,
Com fantasia e sinal fechado.
Deus lhe pague por todo o sentimento,
E chega de saudade e desalento...
Vamos trabalhar, não tem vagabundo,
Pois o cantar do malandro é o mundo!

Máximas roderiquianas (391 a 410)

Máximas roderiquianas (391) O sonhador constrói para sua vida um palácio de esperanças; o iludido tenta morar nele; a realidade bate à porta para cobrar o aluguel.

Máximas roderiquianas (392) A verdadeira Solidão não questiona “Quem?”, mas “Por quê?”.

Máximas roderiquianas (393) A Tristeza bate à nossa porta; a Dor a escancara; a Morte, sorrateira, passa-lhe por baixo.

Máximas roderiquianas (394) A melhor maneira de conheceres alguém é dando-lhe o controle de tua conta bancária; a pior é dando-lhe o do teu coração.

Máximas roderiquianas (395) As operações para um grande amor são simples: subtrair a distância, somar os corpos, dividir a cama e multiplicar o prazer.

Máximas roderiquianas (396) Desculpem este neurótico os que apreciam o acaso, as coisas feitas sem horário ou planejamento. Mas prefiro ter controle sobre minha vida. O fortuito normalmente não traz boas surpresas.

Máximas roderiquianas (397) A regularidade de mortes de pessoas próximas é como um cerco a uma cidadela parcamente guarnecida.

Máximas roderiquianas (398) O amor é tal qual o alimento; quem tem com sobras, armazena-o até apodrecer ou usa-o mal, sem limites; quem não o tem, procura por ele ansiosamente quando faz falta e rói-lhe até o osso quando encontra, sem o largar. Mas ninguém resiste a essa vida sem ele.

Máximas roderiquianas (399) Nem sempre a incerteza do talvez é melhor que a finitude do nunca.

Máximas roderiquianas (400) A unidade é fria; a dualidade, quente; a pluralidade, vã.

Máximas roderiquianas (401) A ostentação de uma virtude diante de um desafortunado dessa mesma sorte é o maior pecado de um homem.

Máximas roderiquianas (402) A Eternidade nasce em Deus, perece no Mundo e se resgata na Arte.

Máximas roderiquianas (403) Às vezes o homem põe um cadeado em sua alma em busca de respostas. Mas só se apercebe de que pode sofrer ainda mais quando nota que a chave não tem cópias e estava dentro de si mesmo.

Máximas roderiquianas (404) Morrer é melhor que sonhar. Não há a frustração do despertar e ver que tudo continua como dantes.

Máximas roderiquianas (405) Life bugs; Death sucks, Hope is mug; Devil’s rug all dug.

Máximas roderiquianas (406) Em vários momentos a vida é como um filme de locadoras: o trailer e os extras são bem melhores.

Máximas roderiquianas (407) O amigo é aquele por quem você é capaz de tudo fazer, mesmo que ele te esmague o coração.

Máximas roderiquianas (408) Pessoas esnobes irritam profundamente, mas consola saber que, se no início de suas próprias análises elas “liberam gases” e as demais “peidam”, no fim os resíduos terão o mesmo odor, para desespero de quem se sente superior.

Máximas roderiquianas (409) O palco repele e atrai, faz tremer e arrepiar.

Máximas roderiquianas (410) Ao contrário do que se pensa, as mulheres gostam de detalhes em narrativas, não em sentimentos. O que ela e o amado estavam vestindo é-lhes mais importante do que por qual emoção estavam se despindo.




quarta-feira, 10 de julho de 2013

Os “dezmandos” da sociedade do terceiro milênio - Uma visão roderiquiana do caos moderno



1 – Não se idolatra qualquer um além de Deus, até que esse alguém morra e vire matéria de todos os programas jornalísticos ou se torne, em vida, um sucesso instantâneo, a última moda em qualquer setor.

2 – Não se usa o nome de Deus em vão; só se for por muito dinheiro.

3 – Os domingos e festas estão reservados ao futebol, praia, shows e todo tipo de lazer; os dias seguintes a esses, à ressaca; os restantes, a conseguir dinheiro para gastar dinheiro para a próxima farra.

4 – O pai e a mãe são os únicos que não podem ser xingados, caluniados, enganados, roubados (os próprios, claro).

5 – Não se deve matar, mas deve-se concordar com pena de morte, aborto, cultura ruim e falta de educação, que são formas legítimas de controle social.

6 – A castidade de nossas filhas e irmãs é intocável; revogam-se todas as outras.

7 – O roubo da classe política é imperdoável; mas pode-se furar fila, ser penetra em eventos, fazer pequenos subornos por um atendimento mais rápido e eficaz etc, em nome de uma justa equiparação social.

8 – Deve-se jurar sobre a caveira da mãe natimorta que todas as mentiras que se diz em redes sociais são legítimas e inofensivas. Se a televisão pode, por que não um reles mortal?

9 – A mulher que estiver mais próxima é a próxima cobiçada; a seguinte é a seguinte e assim sucessivamente.

10 – Todo objeto alheio sob vigilância é intocável. Caso contrário, toma-se posse, a fim de que o alheio deixe de ser tão alheio; é um serviço de utilidade pública roubar-lhe, como forma de alerta.


segunda-feira, 8 de julho de 2013

SONHO URGENTE


Poderia ser o gosto, o sabor
De seu corpo escultural e tão cálido,
A doçura de seu beijo de amor,
O aroma fresco vindo de seu hálito.

Poderia ser o timbre da voz
Que geme e sussurra, querendo mais...
Mordendo o lóbulo, falando em nós,
Enlouquecendo meu ser com seus “ais”.

Poderia ser a visão dos seus
Olhos fechados, do cenho franzido,
Querendo tatear os afagos meus,
Dando carinho a meu olhar querido.

Mas foi seu cheiro que ficou em mim...
O perfume de um sonho de nós dois,
O aroma etéreo de um amor sem fim,

Que não deve ficar para depois.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Máximas roderiquianas (371 a 390)

Máximas roderiquianas (371) Em cada dez pessoas verdadeiramente apaixonadas, nove se dão mal; a outra se dá muito mal.

Máximas roderiquianas (372) O amor sincero empresta a juros migalhas do Paraíso; já o hipócrita vende-as com propaganda enganosa.

Máximas roderiquianas (373) O trovão é o gemido da tempestade; o relâmpago, o orgasmo.

Máximas roderiquianas (374) Uma existência marcante não é medida pela quantidade de aplausos que lhe foram dados, mas pelo número de pessoas a quem ela suscitou questionamentos.

Máximas roderiquianas (375) Infortúnio é quando alguém que te fez sofrer prova do próprio veneno; azar é quando se recupera.

Máximas roderiquianas (376) Um corpo magnífico dá notoriedade; um cérebro, longevidade; uma alma, eternidade.

Máximas roderiquianas (377) Questões pessoais são mais bem resolvidas com sorrisos e flexibilidade; as sociais, somente com seriedade e radicalismo.

Máximas roderiquianas (378) A vida é uma pantomima enganosa, que te leva a crenças irritantemente lindas, porém vãs.

Máximas roderiquianas (379) Cada palavra dita ou escrita, se verdadeira, pode ser um afago ou um soco.

Máximas roderiquianas (380) O segredo para não temer a partida abrupta é permitir-se morrer um pouquinho a cada dia.

Máximas roderiquianas (381) O tempo é uma grandeza sem medida.

Máximas roderiquianas (382) A rebeldia sem causa não me preocupa; incomoda-me a rebeldia sem consequencias.

Máximas roderiquianas (383) A Língua é o maior patrimônio de uma nação e deve ser defendida ferrenhamente. Detratá-la é cuspir no pavilhão nacional; aceitar que o façam é desertá-la.

Máximas roderiquianas (384) A única caça que não alimenta a sobrevivência humana é a busca pela paz, pois esta se torna extinta desde que percebemos o mal que em nós habita.

Máximas roderiquianas (385) Não é humano aquele que não sonha ou se regozija com a desgraça sentimental daqueles que lhe perpetraram dolosamente uma frustração emocional irreparável.

Máximas roderiquianas (386) O mais eficaz modo de destruir um ideal revolucionário é fazer seus defensores acreditarem que ele é natimorto; o segundo é fazê-los crer que eles próprios o são.

Máximas roderiquianas (387) Sufocamos convalescentes sonhos amorosos frustrados para não matarmos quem os exterminou.

Máximas roderiquianas (388) Quando se é jovem imagina-se que a morte venha breve; quando adultos, luta-se por seu retardo; ao ficarmos velhos, desejamos que tivesse vindo antes da primeira lembrança a seu respeito.

Máximas roderiquianas (389) Abrir um coração apaixonado e fiel para uma pessoa que só valoriza bens materiais e beleza é como tocar uma sonata raríssima para um chimpanzé surdo.

Máximas roderiquianas (390) Corre riscos de se frustrar quem confia em alguém da esquerda, pensando que este fará algum bem ao povo. Mas quem confia na direita não corre riscos: já há a certeza de que não fará.

domingo, 23 de junho de 2013

RAZÃO PELA QUAL É DIFÍCIL FAZER UMA REVOLUÇÃO DE IDEIAS NO BRASIL:




Fiz um apanhado em minha linha do tempo e nas de alguns outros perfis e vejam os tipos de pessoas que encontrei discutindo no facebook:

- Os manifestantes sem partido que participam, vão a tudo que podem e têm respeito por todos os outros.
- Os manifestantes sem partido que ofendem os partidários.
- Os manifestantes sem partido que ofendem os que ficam em casa.
- Os manifestantes com partido que vão e tentam forçar a barra para erguer sua bandeira.
- Os manifestantes com partido que vão porque acham que vale a pena participar, mesmo que temporariamente sem poder mostrar seu partido.
- Os manifestantes com partido que preferem não participar da manifestação, por acharem que deveriam poder mostrar suas bandeiras, mas respeitam a manifestação.
- Os manifestantes com partido que não vão à manifestação, ofendem os que lá estão e dizem que tudo isso é um golpe, que são todos manobrados etc.
- Os manifestantes com partido que não vão à manifestação, respeitam os que lá estão mas também dizem que tudo isso é um golpe, que são todos manobrados etc.
 - Os manifestantes que não sabem o que é um partido, não entendem nada, não sabem nem o que estão fazendo ali, mas como seus amigos estão lá, vão também.
- Os manifestantes que vão vandalizar, roubar e saquear, porque são criminosos.
- Os manifestantes que vão vandalizar, roubar e saquear, por conta da “adrenalina”.
- Os manifestantes que vão só para acirrar os ânimos, porque gostam de ver o circo pegar fogo.
- Os manifestantes que só acham válida a manifestação que confrontar a polícia, porque senão não é manifestação, então criticam todos os outros manifestantes, “esses modinhas que vão cantar e sentar”.
- Os manifestantes que estão infiltrados a serviço de uma causa de direita e vão só atacar a presidência e pedir impeachment.
- os manifestantes que não sabem que estão fazendo um serviço pela causa da direita, atacando a presidência e pedindo impeachment.
- Os manifestantes que não vão a nenhuma manifestação, mas que apoiam, pesquisam e ajudam a difundir a causa, ao menos, pelas redes sociais.
- Os não-manifestantes que são contra qualquer tipo de manifestação porque tudo pra eles é “baderna”, então criticam a tudo e todos, esses “desocupados”.
- Os não-manifestantes que não sabem nem o que se passa e só perguntam onde vai ser o forrozão mais tarde.
- Os não-manifestantes que sabem o que se passa, mas que não querem falar sobre isso, pois é tudo “perda de tempo”.


SEM UNIÃO NÃO EXISTE NENHUMA REVOLUÇÃO, DE NENHUMA ESPÉCIE. Pense nisso. 

sábado, 22 de junho de 2013

Quanta coisa aconteceu...

Ainda estou um tanto atordoado com tantas informações, opiniões, notícias e posturas dos últimos 3 dias. Processar e filtrar tudo isso me deu muita dor de cabeça, boas discussões no facebook, várias interrogações e, claro, um pouco de raiva e frustração. O que vou colocar aqui é um balanço, até o momento, do que pude averiguar, pois muitos me perguntam opiniões, angustiados, preocupados, sequiosos de saber por onde ir e mesmo se deve ir ou simplesmente desistir, nessa batalha de posicionamentos, xingamentos, acusações e agressões. Mas atenção. Diante de tanta coisa, não posso dizer que este é meu posicionamento final. Este é o de momento:

A primeira coisa que redescobri foi meu espírito anarquista utópico. Sim, eu ainda acredito que é possível construir uma sociedade alicerçada em bases mais humanas e menos institucionais. E, diante disso, recebi com alegria o que tem se tornado o motivo de maior preocupação (e mesmo ódio) para grande parte das pessoas historicamente ligadas à luta de classes no Brasil: o apartidarismo. Quero deixar claro que sou eleitor de partidos como o PSOL e o PSTU. Portanto, muito bem posicionados à esquerda. E bem radicais, do jeito que gosto. Mas aprovei que um movimento espontâneo, surgido praticamente do nada, peça para que se abaixem bandeiras partidárias em seus atos públicos. Vejam bem: peçam. Sou contrário a atos de brutalidade como expulsão dos militantes e queima das bandeiras, como forma de intimidar os partidários históricos.

Ou seja (aí vem uma das utopias), eu espero que a militância perceba que esta é uma hora especial, em que se ela insistir em tomar à frente do movimento, ele esvaziará, porque boa parte dos manifestantes não quer ser atrelado a qualquer partido. E não há, ao contrário do que se diz, um desejo fascista de extinção dos partidos. De forma alguma. Deseja-se isso para AQUELE momento, aquele movimento.  E me pergunto se os partidos e militantes se dão conta de que essa é uma oportunidade única de ver jovens e adultos antes alienados agora ganhando as ruas e formando uma consciência crítica capaz de, futuramente, fazê-los ingressar num partido político!! Tenho dito que isso é recuar um passo para avançar dois. Mas meus amigos militantes só conseguem enxergar, furiosos, como um golpe contra os partidos, como uma brecha para a extinção dos mesmos e tal. Citam 64, o integralismo, o AI-5.

Gente, sinceramente. Por mais que a direita se articule para usar o movimento em proveito próprio, acho muito, muito difícil algo nesse sentido ser feito. Estamos numa época diferente, o povo, por mais alienado que seja, ganhou mais acesso às informações, com a Internet e até mesmo com a maldita globalização que o próprio sistema capitalista neoliberal criou. Não que seja impossível, pois concordo que nada seja impossível para as mentes direitistas malignas.  Mas não creio que o consigam. O povo ainda não chegou a um estágio pleno de conscientização política, mas já deu uma avançada. Sabem que esse tipo de retrocesso seria uma droga. Nada de pânico. Ficar desesperado, achando que os partidos serão extintos, é quase um ato desesperado de alguém que está, desculpem dizer, “enciumado” por não estar à frente desses manifestos, pela primeira vez, tão grandes e com tamanha amplitude nacional. Sei que não são ciúmes, claro. Mas os partidos têm de saber que o povo vai reconhecer quem sempre esteve na luta, lógico. Eles só querem, nesse momento, desvincular a imagem do movimento aos partidos para que ninguém diga que as reivindicações se tratam somente de uma questão eleitoral, exatamente do mesmo modo que vocês (e eu também) temem(os) que alguém invente de tirar a esquerda (fraquinha, rota, esfarrapada e omissa, mas esquerda) atualmente no poder para fazer retornar a direita de FHC e seus asseclas. É a mesma preocupação, não veem? Tenham paciência, não estamos em 64. Esse retrocesso não acontecerá – mas não custa nada ficarmos espertos e atentos.

Eu, como disse, tenho a infeliz certeza de que se os partidos tomarem à frente do movimento, ele acaba. E aí, amigos militantes, temos de ser inteligentes. Deixem com que esse movimento natural forme uma juventude mais atuante e crítica, limada à base de repressão policial. Passado o oba-oba eles irão correndo estudar ou reconhecer a história de vocês e é aí que se filiarão ou, no mínimo, votarão em vocês. Parem de xingar a galera. Especialmente, parem de atrelar a execução do hino e o uso da bandeira nacional ao Integralismo. Gente, será que toda vez que se usar o hino é por conta de um espelho integralista? Muitos ali nem sabem o que foi isso. Muitos querem “apenas” mudança de atitude por parte dos políticos. E lá vem mais uma acusação contra o movimento: falta foco.

E é verdade, de certa forma. Os gritos são muito genéricos, como “saúde, educação” etc. Mas como esperar que algo que veio das ruas espontaneamente venha com um plano preparado anteriormente, com propostas claras e sólidas, exceto contra aquilo que já há, como a PEC 37, a dita “Cura gay” ou o Ato médico? E mais: ser genérico é realmente ser vazio? Não está na base de tudo a essência dos pedidos? Porque se cobramos saúde, educação e outros, com certeza não é com a mesma vacuidade hipócrita e sem sentido que os políticos atuais utilizam em seus discursos de campanha.

E aqui no Ceará a indignação ganhou ainda mais sentido: muitos só agora descobriram a afetação ditatorial de nosso governador, que decidiu que ninguém no mundo deveria perceber que a população cearense não está satisfeita com o que se investe em saúde e educação. Os protestos contra ele aumentaram, depois da ação truculenta ordenada previamente por ele (e que hoje já sabemos, traiçoeiramente iniciada pela polícia, como mostrou um repórter da UOL). Portanto NÃO foi uma reação a supostos vândalos, mas estes regiram com pedradas à armadilha policial que vitimou alguns manifestantes. Covardia e hipocrisia pura, o que esse senhor faz em seu governo. Eu não estranho. Afinal, não há um político Ferreira Gomes que escape. Mas muitos não o sabiam. Agora sentiram na pele, nos olhos, na cabeça...

E falando em violência, preocupa-me muito uma cobrança em relação a como alguém deve se comportar na passeata. Desde ontem tenho visto pessoas de bem criticando os manifestantes por não confrontarem a polícia e ficarem cantando, dançando, ou mandando os que estão em prédios e casas  piscarem luzes. Esperem um pouco, não estamos em guerra civil (ainda). Também não acho que devemos ser passivos. Mas pacíficos, sim. Um bom manifestante não foge da polícia na primeira bomba de efeito moral e engrossa o grupo de pessoas que confronta os policiais pela causa. Certo. Concordo e faço isso, inclusive. Mas começar assim, não! É dar margem às críticas e acusações de vandalismo, agressividade etc. Essa garotada não tem nenhuma experiência de militância, combatividade e tal. Estavam até semana passada jogando vídeo-game, lendo mangás e sua maior preocupação era qual cosplay fariam no próximo SANA no Centro de Convenções. E vocês os querem guerrilheiros revolucionários mal saídos dos cueiros? Muitos já tiveram a coragem extrema de sair às escondidas de casa, contra a vontade dos pais. Só agora inalaram o primeiro gás ou aprenderam por qual razão levar o vinagre. Tenham paciência. Eles aprenderão. E lutarão conosco lado a lado. Mas tudo tem seu tempo. Além do mais, é incoerente pedir respeito e iniciar o confronto. Temos de ser corajosos na resposta, mas não devemos ser os que provocam o embate.

Por outro lado, os manifestantes pacifistas não podem prescindir da presença dos manifestantes experientes e combativos. Eles sabem como proceder nas situações extremas. Eu me lembro que gritava para os mais ingênuos saírem de perto das paredes, que corressem para lugares abertos, na hora do gás lacrimogêneo. Os coitados viravam presa fácil, sem saber para onde correr. Então, os manifestantes “comuns” não podem se dar ao luxo de dispensar aqueles que já vem há anos lutando por esse país. Acham que colocando uma máscara anônima (pelo amor de Deus, assistam o filme “V de Vingança” – se não tiverem acesso à ainda melhor HQ dos anos 80 – e incorporem o ESPÍRITO do personagem, esqueçam os atos terroristas dele, porque ele tinha razões para tal – era sozinho, sem apoio nenhum -, é bem semelhante em ideal, mas totalmente diferente em prática) vão virar os defensores dos fracos e oprimidos; se você usa da máscara para espalhar o terror, está fazendo tudo errado. Esse personagem é uma linda inspiração, não a estraguem.

Em suma, preocupa-me a divisão que está se propondo dentro dos movimentos. Pacifistas x ativistas, militantes x apartidários, juventude x experiência (e ainda temos que nos preocupar com a galera do vandalismo gratuito, sem qualquer ideologia). Está difícil para todos os lados enxergar que juntos, abrindo mão de uma ou outra premissa básica individual, a manifestação cresce, o todo ganha crédito, o Brasil melhora. Depois que o movimento ganhar a simpatia de todos, mesmo os da classe mais abastada – que se ficarem quietos já ajudam bastante -, as peculiaridades de cada facção podem ser postas em prática em diferentes tipos de manifestação. Apartidários um dia, militantes noutro, uns apoiando os outros se desejarem. Mas nesse momento de movimento espontâneo, todos têm de abrir mão um pouco de seus princípios pelo bem maior: a formação de uma nova geração de lutadores combativos e politizados, que se não nasceram num momento crítico do país, se nunca precisaram protestar contra coisa nenhuma, agora estão aprendendo, na marra, a fazer isso. E nós devemos nos unir, e não nos dividir e facilitar a vida de quem quer transformar o movimento numa simples baderna de desocupados ou irresponsáveis.

Para concluir, há pelo menos uma coisa em comum em ambos os lados: os dois cometem o erro de condenar quem está em casa. Aquela pessoa que, por um motivo ou outro, prefere acompanhar de longe, ansioso também, torcendo também para que tudo dê certo. Gente, ninguém é igual. Há pessoas que fazem trabalho precioso nas redes sociais, produzindo vídeos, desmascarando sites retrógrados, denunciando a mídia mentirosa. Também existe trabalho de “inteligência” em todo grupo combativo. E, além do mais, tem gente que não gosta ou tem medo de ir pra rua. E daí? Ele é menos importante que você? Menos brasileiro? Não vamos começar errado, não vamos ter preconceito, algo comum naqueles que condenamos e queremos retirar do poder. Os mesmos que criticam a homofobia, o racismo, o preconceito social não são capazes de respeitar essa diferença? Que contradição é essa? O ideal seria que estivessem conosco, nas ruas? Claro. Mas vou arrastá-los? Usá-los como bucha de canhão ou boi de piranha? Expô-los a algo que eles simplesmente não têm coragem ou não podem fazer ou não foram tocados para tal?  Em todo exército existem pessoas com funções diferentes. Arrumemos uma que eles possam fazer para nos ajudar, e não simplesmente criemos neles uma rejeição por nós e nossa causa. Esse erro cometeram quando vaiaram os torcedores que iam para o estádio no dia do jogo, 4ª feira. Eles poderiam ser grandes manifestantes dentro do estádio, fazendo aquilo que não nos permitiram: denunciar que o Ceará não era uma maravilha. Mas quantos deles perderam toda a vontade de fazê-lo porque foram maltratados enquanto passavam por nós? Já pensaram nisso?

Espero ter ajudado algumas pessoas a pensar melhor sobre esse momento histórico que vivemos. E para aqueles que de mim discordam, saibam que têm todo meu respeito. E que não sou dono da verdade. Posso até ser convencido de que estou errado, claro. Mas pelo menos levem em consideração as ideias aqui colocadas, como levarei, com certeza, as suas. Não preciso provar para ninguém meu posicionamento de esquerda. Quem me conhece, sabe. Quem foi meu aluno, viu e ouviu. Então, vamos para o campo das ideias civilizadas e em debate.


Enfim, este é meu posicionamento, por enquanto. União utópica de todos em torno de um desejo por demais sonhador, talvez. Mas toda grande revolução começou com sonhos absurdos de se concretizar.

Abraços a TODOS!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

19 de junho de 2013 - Um relato

19 de junho de 2013.

Fui ao manifesto. Sozinho, como sempre faço ao participar de eventos que requeiram análise e atenção. Encontrei gente conhecida, claro. Mas procurei não “me agrupar” propositalmente, para não ser um estorvo para ninguém e para ter liberdade de movimentos e observação. E vou relatar o que vi de bom, de trágico e, em minha humilde opinião, de equivocado no manifesto de hoje.

Cheguei por volta das 10h30 ao local do manifesto, e logo troquei minha blusa do Inter por uma em que se lia nas costas “Os Ferreira Gomes NÃO me representam”. A do Inter foi pra cintura (?). E aí comecei a ver e ouvir tudo. A primeira coisa que vi foi um cara com a camisa do Grêmio... risos. Eu não resisti, cheguei ao desconhecido e disse: “Só assim Grêmio e Inter ficam lado a lado, né?”. O manifestante soltou a bandeira e tiramos uma foto. Em uma minha, sozinho, ele ainda aparece ao fundo. Foi legal. Depois comecei a reparar no comportamento do povo. Lindo ver todos gritando “Sem partido! Sem partido!” quando algum ousava levantar bandeira. Só em um dado momento ficou chato, quando alguém do povão e um dos militantes partidários quiseram se enfrentar. Mas acabou rápido.

Vários outros gritos de ordem se ouviram. Mas teve um que me chamou a atenção. Algo como: “Ei, vou te falar, um professor vale mais que o Neymar!!” Obrigado, obrigado... Entre um ou outro encontro com gente conhecida, como com a amiga Geórgia Russel, Laline e Bruno, o companheiro Nilo e vários alunos e ex-alunos, vejo cartazes criativos e inteligentes, mas alguns com um tom politicamente incorreto para a ocasião “O SUS não cura nem gripe, quanto mais viadagem” ou absurdamente americanófilo “Yes, we can” (???????). Mas na maioria, estavam ótimos, respeitosos e provocativos, ao mesmo tempo. Contextualizados.

A passeata começou pouco mais de meio-dia, pacífica e linda. Emocionante. E olhe que o sol não ajudava (tá, uma ou outra dondoquinha ficava dizendo: “Ai, minhas espinhas vão ficar inflamadas...” ou “Minha maquiagem vai derreter”, mas... faz parte). Calor de rachar. Mas todo mundo lá, no asfalto fervente, caminhando. E aí vem minha primeira crítica à organização: posso estar dizendo bobagem, sou leigo. Mas minha experiência de protestos diz que escolher um caminho que não tem qualquer alternativa de rota é complexo. Se aquele lugar não oferecia opções, outro deveria ter sido escolhido. Barrados uns 200 metros após uma igreja próxima ao Makro, não havia como dobrar, driblar a polícia. Era passar por ali ou voltar. E aí vem a ação ditatorial do senhor governador Cid Gomes, que decidiu que não se pode mostrar ao mundo que o Ceará e o Brasil não são a maravilha que seus governantes querem mostrar. Então, ele simplesmente determinou, baseado em sabe-se lá que lei (porque se ela existe, deve ser revogada), que a manifestação não poderia ter livre acesso a qualquer lugar. Isso é ABSURDO. O papel da polícia é acompanhar a manifestação aonde quer que vá, para cuidar que os vândalos e exaltados não pratiquem atos depredatórios. Não é papel (ou não deveria ser – como disse, se essa lei existe, deveria ser revogada) dela ou de quem quer que seja determinar se ou por onde vai um protesto. Vamos fazer protesto no deserto? Ou onde não há mídia? Onde não os incomode? Então não é protesto. A polícia poderia e deveria, sim, impedir, por exemplo, alguma pretensa invasão do estádio. O evento não era público, era particular. Seria crime entrar sem pagar e, principalmente, totalmente inadequado e anticivilizado. E nada mais, além dos atos vândalos, se ocorrerem.

Pois bem, a polícia impede a passagem. Nessa hora, eu estava a uns 150 metros da barreira. Visibilidade ruim, por causa das bandeiras e cartazes erguidos. Não sei, infelizmente, dizer, se a polícia agiu por ordem superior ou se reagiu a um pequeno grupo de baderneiros que teria atirado pedras à barreira policial. Não posso afirmar nada, não vi, só ouvi as duas versões. Mas aí vem o que argumentei antes: na verdade, NÃO IMPORTA. Se a polícia fizesse o papel de apenas escoltar e fiscalizar o movimento, e não impedi-lo, ninguém tentaria forçar passagem. E se algum imbecil tentasse agredir policiais, teriam eles o apoio da população para deter quem tivesse praticado a violência, porque o povo queria um ato pacífico, sem partido, sem baderna. Mas o senhor governador, truculento e fascista, optou por impedir o protesto. Deu no que deu. Seja qual foi a razão, a polícia foi cruel. Bombas de gás lacrimogêneo começam a ser disparadas. Um rapaz de nome Alan (descobriria depois) caiu ao meu lado, quando recuávamos. Gritei por ajuda. Trouxeram vinagre para tentar cortar o efeito do gás. Mas ele estava muito mal. Optei em ficar com ele até que algum de seus amigos o encontrasse. Levantei-o e sentei-o em uma rampa de uma borracharia, acho, ajudado por outras pessoas. Lavei a cabeça dele com água tirada de uma torneira exposta. Aí seus amigos chegaram e voltei lá pra frente, pois os manifestantes tentaram se aproximar de novo. Novo ataque da polícia, nessa ocasião “alicerçado” por spray de pimenta e bombas de efeito moral. Dessa vez o gás quase me pegou, mas consegui escapar sem sentir muitos efeitos. Recuei até a igreja, e acompanhei o grito de muitos para o carro de reportagem de uma equipe local de uma grande emissora (não se iludam, não era a Globo) para que filmassem os acontecimentos lá na frente. Eles não se mexeram, contentaram-se em filmar nossa revolta. Resolvi tentar ir adiante mais uma vez. Aí veio a reação completa. Balas de borracha. Uma atingiu o rapaz ao meu lado na cabeça, que caiu direto. Eu só tive o tempo de dar a mão para erguê-lo, pois ele parecia apenas atordoado, pegou de raspão. Mas veio uma outra dose forte de lacrimogêneo, que me pegou em cheio. Fiquei cego. Tossia demais. Recuei até a igreja, onde fui auxiliado por um ex-aluno (confesso que o cumprimentei, mas não gravei o rosto, mal abria os olhos – obrigado, se estiver lendo esse texto). Finalmente, quando eu melhorava, antes de saber o que fazer, veio a polícia avançando, fazendo todos recuarem. Mais gás. Um manifestante anônimo, me vendo mal, ofereceu vinagre. E um momento de sorriso no caos: enquanto me ensinava como usá-lo eu respondia: “Pode deixar, já sei; estou acostumado”. Ele riu, como quem diz: “Esse aí é macaco velho em manifestos”. Quando me recuperei, vi as cenas mais deploráveis: uma senhora de mais de 80 anos, seguramente, às cegas, sendo levada por manifestantes, amparada. E outra, numa cadeira de rodas, desesperada, gritava: “Meu Deus, onde está a democracia?” Ela estava “ilhada” num lugar alto, sem poder descer da calçada alta da igreja, numa óbvia escolha equivocada e apressada por uma rota de fuga. Eu e outros a retiramos de lá. E uma pessoa conduziu sua cadeira a lugar seguro.

Depois disso tudo, respirei um minuto. A perna e o pé com unha encravada doíam. Não dava mais pra mim. Precisava voltar. Retornei para o viaduto. Respirei um pouco. Encontrei um ex-aluno, correspondente de um jornal escrito, dei rápida entrevista e comecei a ver as torcidas brasileira e mexicana chegando ao jogo. E aí a segunda crítica: foi terrível ver a população vaiando e xingando os torcedores. É jogar a população que não veio ao manifesto contra nós. Eles não são menos afetados que nós. Muitos ali são classe média, compraram o ingresso com sacrifício. Outros ganharam em sorteios. Nem todo mundo ali é elite. E mesmo que fosse. Precisamos envolver TODOS nesse tipo de movimento. Jogar parte da opinião pública contra o movimento é falta de bom senso e inteligência, desculpem dizer. Que culpa eles têm? Nem sabiam, quando compraram os ingressos, que isso iria acontecer. Talvez, até, se soubessem, estivessem conosco. Não é contra eles, o protesto. Nunca foi. Mas que fique a lição para próxima vez. Avaliemos os nossos atos melhor. Sejamos inteligentes. Eles podem aumentar o movimento. Ou, pelo menos, não criticar. Já seria muito.

Enfim, retornei a pé até Borges de Melo, onde peguei meu ônibus. Não fiquei até o final. Não creio que houve algo muito diferente da imbecilidade do governador e seus asseclas. Queria ter colaborado mais. Mas cheguei ao limite físico. Voltei pra casa. Triste porque a manifestação não atingiu o principal objetivo de denunciar, de perto do estádio, os desmandos do governo estadual e de outros no cenário nacional. Mas feliz por ter feito parte desse momento histórico.  Espero apenas que os órgãos da imprensa noticiem a verdade e, principalmente, denunciem a intransigência e brutalidade do nosso governador. Se você, meu leitor nesse momento, é da imprensa de qualquer espécie, faça-o. Não se omita, por favor. Não se pode impedir o direito ao protesto, só porque não se deseja exposto a público os erros de seu governo.


FORÇA A TODOS!! 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Vem aí 19 de junho de 2013 e pode ser histórico...

Com tudo de histórico que vem acontecendo e que ainda pode acontecer, não resisto e vou fazer mais um de meus longos textos, que alguns amam e outros detestam. Pode parecer apenas biografia, a princípio, mas há uma importante mensagem para jovens e SEUS PAIS, ao final:

Nasci em 1970. No auge da ditadura militar. Desde pequeno entendi que nosso país tem visões muitas vezes distorcidas da realidade. Aos 6 ou 7 anos, não tenho certeza, eu corria com livros de capa vermelha (apesar de não passarem de clássicos de Dostoievski, Tchekov, Gogol e outros, nada de literatura “política”) para enterrá-los no quintal de casa, num buraco previamente aberto. Os livros pertenciam a meu pai adotivo, húngaro de nascimento (um “comunista em potencial”, segundo a polícia da época – coitado, meu pai nunca foi de se envolver com nada disso, ao contrário, veio para o Brasil fugindo da 2ª Guerra) que cometia o grande pecado de ser esclarecido.

Apoiei, como estudante secundarista, a maior paralisação de professores da rede particular de ensino quando aluno do Colégio Cearense, o que valeu aos líderes do movimento demissão (se professores) e suspensão (se alunos). Eram 4 professores e 4 alunos que se recusaram a obedecer quando a direção fez ameaças e mandou todos saírem do pátio de protestos e voltarem à sala de aula.

Depois, universitário, participei de passeatas contra Sarney, Itamar, Collor. Foram campanhas por eleições paritárias (sim, amigos universitários, essa parece ser uma luta eterna), contra a baixa verba pra educação (essa também) e pela causa de professores grevistas (mais ainda). Éramos corajosos, fortes. Enfrentávamos polícia montada, armada, canina. Ou corríamos para dentro da UFC, onde algumas polícias não podiam entrar. E lá passávamos horas, com palavras de ordem, para em algum tempo sairmos escoltados ou fugidos pelo muro lateral, perto da praça da Gentilândia. As calouradas tinham tom de protesto, não o de festa que hoje possuem. Eu subia em mesas de restaurantes universitários, fazendo discursos, principalmente anarquistas (mas não anárquicos, vejam a diferença), contra a “ordem” estabelecida pela direita e pela falsa esquerda.  

Quando eu conto algumas dessas histórias a meus alunos em sala de aula, ou uso como exemplo para debates com colegas professores sobre a “pouca mobilização dos jovens”, eu sempre os “inocento”, dizendo que eles nasceram livres, sem repressão, sem causas por que lutar (pelo menos, na cabeça deles). Pois bem, felizmente, tudo mudou. Hoje eles reconheceram o estado calamitoso em que o Brasil vive há 50 anos, no mínimo (um grande governo a partir do golpe militar, por favor? Nenhum. Se não era repressivo, era um fracasso econômico, moral... quando não havia tortura, era desmando, hipocrisia, conchavo... é nisso que estamos hoje). Viram que precisam, sim, sair às ruas. E com uma grande vantagem. Eles não precisam de brigar, quebrar, depredar. Sim, sempre há os que fazem isso, mas a grande maioria, esmagadora, mesmo, quer uma revolução na mente e nas atitudes, não nas estruturas já alquebradas da cidade.

Portanto, você que vai amanhã às manifestações, junte-se a pessoas que tenham intenções reivindicatórias, mas sem agressão, depredação ou confronto. A polícia, por sua vez, escolte os manifestantes por onde eles quiserem ir, sem restrições de trajeto, pacificamente, detendo APENAS os poucos desequilibrados e vândalos. Esse é um momento histórico no nosso país. Não o estraguemos, dando margem a que emissoras de TV e rádio mal-intencionadas descaracterizem a luta. E não façamos disso um ato contra PT, FHC, Dilma, PSDB, Lula, DEM, Cid, Luiziane ou Roberto Cláudio. É contra TODOS. É contra o desmando que tomou conta desse país desde que os militares usurparam o poder e que os civis pós-85 administraram tudo com interesses partidários e pessoais, não pelo bem do povo. TODOS merecem nosso desprezo. Queremos algo NOVO. Governantes que façam pelo povo, não por seus partidos, coligações e causas pessoais.

Para fazermos isso, saibamos usar do bom senso e das atitudes contundentes, mas pacíficas. Não recuemos diante de policiais e imprensa, mas não os confrontemos na porrada ou agressividade. Marchemos em frente, simplesmente. E se a preocupação deles é o ônibus da seleção, deixem-no passar. A seleção não construiu estádios, não desviou verbas, não votou pela Copa aqui, muito menos quebrou saúde e educação. No máximo, a Confederação brasileira de Futebol colaborou para isso. E ela não entra em campo. Deixem os caras irem lá, jogar a bola deles. E continuemos indo, até os limites da legalidade, protestando em todos os outros espaços, inclusive na frente do estádio, mas sem quebrar, tentar invadir ou agredir.  A polícia não poderá bater em quem não faz nada de ilegal. Se esse for o espírito, teremos um dos mais belos, significativos e apoiados manifestos da história do Brasil e do Mundo. E eu repito: podemos fazer História. 

Caros pais, eu sei que vocês estão preocupados. Eu mesmo pretendo ir, não sem medo de enfrentar algum tumulto causado por um grupelho de imbecis e que haja reação proporcional (ou não) da força armada. Mas não quero ficar de fora desse momento histórico, dessa luta. Não barre seus filhos de irem, se eles o desejarem. Confie. Oriente-os para que saiam em grupos, com outras pessoas de bem que não farão nenhuma atitude agressiva (com certeza, vocês conhecem e sabem quem vai, com essas características). Não prive seu filho de ser AGENTE da história, se ele o desejar. Se você não foi antes, é a hora de compensar. Se já foi, especialmente, sabe o quanto isso significa. Medo? Temos, claro. Eu tenho 2 filhos: um de 6 que não irá, óbvio, e uma de 20 que, espero, estará lá. Se temo que ela se machuque? Claro. Se temo que eu me machuque e eventualmente ou tragicamente interrompa minha trajetória com eles? Claro que sim, sou humano. Mas temo muito mais permitir que eles se tornem covardes ou que me vejam como um. A saúde não está boa, minha perna dói pela má circulação. A caminhada é longa, mas eu tentarei ir, sim. E queria ter 16 anos de novo, pra começar tudo outra vez. Porque nossos filhos e netos merecem algo melhor do que o que nós tivemos nos últimos 50 anos.