(Para quem gosta de
Futebol, Justiça ou discutir o Brasil)
Assistindo
aos noticiários esportivos sobre o julgamento da Portuguesa, observando o
comportamento dos honoráveis advogados que lidam com a questão e analisando a “grita”
geral de todos os lados envolvidos (ou não), não pude deixar de fazer uma
reflexão nada incomum (muitos já devem tê-la feito), mas fundamental para o
entendimento de como as coisas funcionam no nosso país.
A
Portuguesa é um clube simpático e frequentemente vítima de abusos de arbitragem
e desmandos de mandatários que claramente buscam beneficiar os ditos 8 “grandes” de Rio e São Paulo (não sei como ainda alguém
ousa chamar algo visível e nítido como “teoria” da conspiração, já que ela de
fato existe). Essa Portuguesa, sempre tão injustiçada e massacrada, cometeu um
erro. Um erro que lhe custará caro. Escalou um jogador de forma irregular por
confiar na palavra de um advogado que lhe deu uma informação equivocada (ou por
entendido errado a informação, cada um escolha a justificativa que desejar ou lhe
aprouver). Com isso, livrará o poderoso Fluminense de finalmente “pagar“ uma
série B que ele não jogou em 2000, quando foi guindado da 3ª à 1ª Divisão pela
malfadada Copa João Havelange.
Pois
tal fato detonou uma comoção quase nacional, em que todos os não torcedores do
Fluminense se viram subitamente acometidos por um senso de justiça semelhante
ao que sentimos pelo ladrão de galinhas, quando comparado ao criminoso de
colarinho branco (ou branco, verde e grená, se preferirem). A pobre Portuguesa
será punida por ter cometido um erro de competência, que em nada influiu em
campo, que de nada seria útil, não fosse tal fato passível de uma pena que
redimisse o Fluminense do purgatório da 2ª divisão.
Ora,
entendam: quando vemos um ladrão de galinhas ou uma mãe que furta leite para
alimentar o filho, nós nos condoemos por essa pessoa, pois lembramos da
imensidão de crimes cometidos pelos engomados dos congressos e senados da vida
que, quando rara e milagrosamente são presos, ainda possuem muitas benesses. E
nossa tendência é simpatizar com o pequeno larápio, esquecendo até que, mesmo
em nome de causa nobre, seu ato foi, sim, criminoso. A sensação de revolta pela
punição do miserável e costumeira proteção aos abastados nos transforma em
Robin Hoods da justiça. Livremos os pobres e encarceremos os ricos, os mais
exaltados (talvez até eu), propagariam. E seria muito bom, aliás, tal inversão
de hábito. Mas, se analisarmos friamente os fatos, ambos teriam de ser presos.
Com penas, tratamentos e repercussões diferentes. Mas ambos erraram.
Não que o Fluminense (coincidentemente,
simbolizado por um mascote que é um “cartola”, figura no futebol comparável a
um dos políticos citados), mereça culpa. Será beneficiado pela colocação que
logrou alcançar e que lhe permitirá usufruir do salvo-conduto abençoado (por
João de Deus, como entoam nas arquibancadas, ou não). Mas é inevitável a
sensação de mal estar. Porque aqueles que acompanham futebol e não são ingênuos
(ou pertencentes ao grupo de torcedores dos tais 8 grandes) sabem que, sem
dúvida, se a situação fosse inversa, não seria visto de tal forma a
irregularidade e a Portuguesa nada obteria para rebaixar o Fluminense. Digo
mais, se os times envolvidos fossem Portuguesa e Ponte Preta, por exemplo, ou o
Criciúma, cumprir-se-ia a ação sem alarde e estaríamos todos conversados.
E aí
nos percebemos diante de um mato sem cachorro. Como querer que a justiça seja
feita por nossas próprias mãos, beneficiando os eternos injustiçados, só para
mostrarmos que somos favoráveis aos mais fracos e desguarnecidos ladrões de
galinha, se roubar é, no fim das contas um erro? Um erro como o que, mesmo
involuntariamente, a equipe de origem lusitana cometeu. Como não nos solidarizarmos a eles, por outro lado?
Nesse
mato, só nos resta esperar que os que elaboram e julgam as leis utilizem do bom
senso. A justiça não pode ser totalmente cega. Até porque nunca o foi. Sempre
pendeu para o lado que poderia pagar sua cirurgia de correção visual. Está na
hora de ela parar com isso. Não indo para o outro lado, o que seria simplista e
comparável aos tão criticados sistemas de cotas, bolsa-família etc. Está na
hora de ela realmente enxergar. Em todos os campos: futebolísticos, econômicos,
políticos, sociais...
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