Sim, como todo ser humano, tenho
medo da morte. Mas não da morte comum, fim controverso de uma vida para a
sobrevivência de outras, como a dos vermes, por exemplo.
Temo a morte dos aromas que
acalentam a alma, como o das flores, do café, do ventre de uma mulher ansiosa
por amor, dos bebês recém-banhados. O delicioso empoeirado de uma obra
ardorosamente procurada, o mormaço de uma chuva por meses aguardada. O pão
quentinho saindo em fornada, o mato úmido.
Angustia-me a expectativa de não
ver mais o sorriso da Monalisa, o pôr-do-sol, os olhos úmidos de quem se emociona,
a arte de um drible, a interpretação de um ator em cena. Olhar para o céu (estando
lá ou não) e não ver estrelas... Sentirei falta de não ver o sorriso cúmplice ou
o aceno com a cabeça do aluno que entendeu o poema...
A pele arrepiada por um vento
gélido, um toque estratégico, um texto empolgante, uma voz emocionada, um
momento de paixão, um sussurro de “eu te amo” verdadeiro (raro, mas
inesquecível)? Como sentirei saudades... Como me apavoro por não senti-los.
O gosto do seio trêmulo, do
cigarro pós-café, pós-sexo, post mortem. Da fruta tirada do pé, da bebida suavemente
embriagadora. Da rubra carne assada, da pimenta rubra, da boca rubra, do morango
rubro. Lamentarei por não sentir mais o gosto da bala roubada da confeitaria.
E como não sentir medo de não
ouvir mais o grito de gol do time a que se ama, a música que vira hino
cotidiano, a voz do prazer, o gemido do prazer, o silêncio do prazer? A voz dos
filhos chamando “papai”, o instante do reconhecimento, os estalados dos galhos
secos, o pássaro errante, o eco dos tempos, a própria voz embargada... Como
tremo de saber que não mais os ouvirei.
Mas há mais... Que importa que o
corpo morra? Aterrorizo-me com a morte dos sonhos, com o fenecimento da alma,
com o aborto dos sonhos, com o desaparecimento da luz que alumia a esperança.
Temo não poder mais dizer, com ironia, indignação ou dor, tudo o que aflige
alma. Pois uma alma aflita está viva. A satisfação plena é a vida entubada,
artificial, ressuscitada por aparelhos. Temo perder a coragem que faz com que
os meus me vejam como alguém questionador, corajoso, deliciosamente belicoso e
irônico. Sim, temo matar a revolta, mola
propulsora das transformações. Temo morrer sentado solitário em um sofá,
enquanto a cinza do cigarro cai com meu cadáver ao solo.
Não receio a dor, mas a
responsabilidade da lágrima alheia. Não receio o desejo improvável de ser amado
com ardorosa, eterna e carnal paixão, mas a certeza de morrer só. Não receio a
Deus, mas a mim, que não sou digno de Sua piedade.
Não é pelo desaparecimento de
meu corpo que me contorço em desespero. Mas pelo desaparecimento inevitável de
minha lembrança da memória das pessoas com quem realmente me importei ou a quem
dediquei aulas de razão e emoção. Pois se eu sumir da mente deles, não
aprenderam a se emocionar, nem a respeitar a memória de quem lhes quis bem com
a gratuidade dos moribundos desde o berçário... E aí sim: tanto minha vida quanto minha morte
terão sido em vão.