sábado, 22 de junho de 2013

Quanta coisa aconteceu...

Ainda estou um tanto atordoado com tantas informações, opiniões, notícias e posturas dos últimos 3 dias. Processar e filtrar tudo isso me deu muita dor de cabeça, boas discussões no facebook, várias interrogações e, claro, um pouco de raiva e frustração. O que vou colocar aqui é um balanço, até o momento, do que pude averiguar, pois muitos me perguntam opiniões, angustiados, preocupados, sequiosos de saber por onde ir e mesmo se deve ir ou simplesmente desistir, nessa batalha de posicionamentos, xingamentos, acusações e agressões. Mas atenção. Diante de tanta coisa, não posso dizer que este é meu posicionamento final. Este é o de momento:

A primeira coisa que redescobri foi meu espírito anarquista utópico. Sim, eu ainda acredito que é possível construir uma sociedade alicerçada em bases mais humanas e menos institucionais. E, diante disso, recebi com alegria o que tem se tornado o motivo de maior preocupação (e mesmo ódio) para grande parte das pessoas historicamente ligadas à luta de classes no Brasil: o apartidarismo. Quero deixar claro que sou eleitor de partidos como o PSOL e o PSTU. Portanto, muito bem posicionados à esquerda. E bem radicais, do jeito que gosto. Mas aprovei que um movimento espontâneo, surgido praticamente do nada, peça para que se abaixem bandeiras partidárias em seus atos públicos. Vejam bem: peçam. Sou contrário a atos de brutalidade como expulsão dos militantes e queima das bandeiras, como forma de intimidar os partidários históricos.

Ou seja (aí vem uma das utopias), eu espero que a militância perceba que esta é uma hora especial, em que se ela insistir em tomar à frente do movimento, ele esvaziará, porque boa parte dos manifestantes não quer ser atrelado a qualquer partido. E não há, ao contrário do que se diz, um desejo fascista de extinção dos partidos. De forma alguma. Deseja-se isso para AQUELE momento, aquele movimento.  E me pergunto se os partidos e militantes se dão conta de que essa é uma oportunidade única de ver jovens e adultos antes alienados agora ganhando as ruas e formando uma consciência crítica capaz de, futuramente, fazê-los ingressar num partido político!! Tenho dito que isso é recuar um passo para avançar dois. Mas meus amigos militantes só conseguem enxergar, furiosos, como um golpe contra os partidos, como uma brecha para a extinção dos mesmos e tal. Citam 64, o integralismo, o AI-5.

Gente, sinceramente. Por mais que a direita se articule para usar o movimento em proveito próprio, acho muito, muito difícil algo nesse sentido ser feito. Estamos numa época diferente, o povo, por mais alienado que seja, ganhou mais acesso às informações, com a Internet e até mesmo com a maldita globalização que o próprio sistema capitalista neoliberal criou. Não que seja impossível, pois concordo que nada seja impossível para as mentes direitistas malignas.  Mas não creio que o consigam. O povo ainda não chegou a um estágio pleno de conscientização política, mas já deu uma avançada. Sabem que esse tipo de retrocesso seria uma droga. Nada de pânico. Ficar desesperado, achando que os partidos serão extintos, é quase um ato desesperado de alguém que está, desculpem dizer, “enciumado” por não estar à frente desses manifestos, pela primeira vez, tão grandes e com tamanha amplitude nacional. Sei que não são ciúmes, claro. Mas os partidos têm de saber que o povo vai reconhecer quem sempre esteve na luta, lógico. Eles só querem, nesse momento, desvincular a imagem do movimento aos partidos para que ninguém diga que as reivindicações se tratam somente de uma questão eleitoral, exatamente do mesmo modo que vocês (e eu também) temem(os) que alguém invente de tirar a esquerda (fraquinha, rota, esfarrapada e omissa, mas esquerda) atualmente no poder para fazer retornar a direita de FHC e seus asseclas. É a mesma preocupação, não veem? Tenham paciência, não estamos em 64. Esse retrocesso não acontecerá – mas não custa nada ficarmos espertos e atentos.

Eu, como disse, tenho a infeliz certeza de que se os partidos tomarem à frente do movimento, ele acaba. E aí, amigos militantes, temos de ser inteligentes. Deixem com que esse movimento natural forme uma juventude mais atuante e crítica, limada à base de repressão policial. Passado o oba-oba eles irão correndo estudar ou reconhecer a história de vocês e é aí que se filiarão ou, no mínimo, votarão em vocês. Parem de xingar a galera. Especialmente, parem de atrelar a execução do hino e o uso da bandeira nacional ao Integralismo. Gente, será que toda vez que se usar o hino é por conta de um espelho integralista? Muitos ali nem sabem o que foi isso. Muitos querem “apenas” mudança de atitude por parte dos políticos. E lá vem mais uma acusação contra o movimento: falta foco.

E é verdade, de certa forma. Os gritos são muito genéricos, como “saúde, educação” etc. Mas como esperar que algo que veio das ruas espontaneamente venha com um plano preparado anteriormente, com propostas claras e sólidas, exceto contra aquilo que já há, como a PEC 37, a dita “Cura gay” ou o Ato médico? E mais: ser genérico é realmente ser vazio? Não está na base de tudo a essência dos pedidos? Porque se cobramos saúde, educação e outros, com certeza não é com a mesma vacuidade hipócrita e sem sentido que os políticos atuais utilizam em seus discursos de campanha.

E aqui no Ceará a indignação ganhou ainda mais sentido: muitos só agora descobriram a afetação ditatorial de nosso governador, que decidiu que ninguém no mundo deveria perceber que a população cearense não está satisfeita com o que se investe em saúde e educação. Os protestos contra ele aumentaram, depois da ação truculenta ordenada previamente por ele (e que hoje já sabemos, traiçoeiramente iniciada pela polícia, como mostrou um repórter da UOL). Portanto NÃO foi uma reação a supostos vândalos, mas estes regiram com pedradas à armadilha policial que vitimou alguns manifestantes. Covardia e hipocrisia pura, o que esse senhor faz em seu governo. Eu não estranho. Afinal, não há um político Ferreira Gomes que escape. Mas muitos não o sabiam. Agora sentiram na pele, nos olhos, na cabeça...

E falando em violência, preocupa-me muito uma cobrança em relação a como alguém deve se comportar na passeata. Desde ontem tenho visto pessoas de bem criticando os manifestantes por não confrontarem a polícia e ficarem cantando, dançando, ou mandando os que estão em prédios e casas  piscarem luzes. Esperem um pouco, não estamos em guerra civil (ainda). Também não acho que devemos ser passivos. Mas pacíficos, sim. Um bom manifestante não foge da polícia na primeira bomba de efeito moral e engrossa o grupo de pessoas que confronta os policiais pela causa. Certo. Concordo e faço isso, inclusive. Mas começar assim, não! É dar margem às críticas e acusações de vandalismo, agressividade etc. Essa garotada não tem nenhuma experiência de militância, combatividade e tal. Estavam até semana passada jogando vídeo-game, lendo mangás e sua maior preocupação era qual cosplay fariam no próximo SANA no Centro de Convenções. E vocês os querem guerrilheiros revolucionários mal saídos dos cueiros? Muitos já tiveram a coragem extrema de sair às escondidas de casa, contra a vontade dos pais. Só agora inalaram o primeiro gás ou aprenderam por qual razão levar o vinagre. Tenham paciência. Eles aprenderão. E lutarão conosco lado a lado. Mas tudo tem seu tempo. Além do mais, é incoerente pedir respeito e iniciar o confronto. Temos de ser corajosos na resposta, mas não devemos ser os que provocam o embate.

Por outro lado, os manifestantes pacifistas não podem prescindir da presença dos manifestantes experientes e combativos. Eles sabem como proceder nas situações extremas. Eu me lembro que gritava para os mais ingênuos saírem de perto das paredes, que corressem para lugares abertos, na hora do gás lacrimogêneo. Os coitados viravam presa fácil, sem saber para onde correr. Então, os manifestantes “comuns” não podem se dar ao luxo de dispensar aqueles que já vem há anos lutando por esse país. Acham que colocando uma máscara anônima (pelo amor de Deus, assistam o filme “V de Vingança” – se não tiverem acesso à ainda melhor HQ dos anos 80 – e incorporem o ESPÍRITO do personagem, esqueçam os atos terroristas dele, porque ele tinha razões para tal – era sozinho, sem apoio nenhum -, é bem semelhante em ideal, mas totalmente diferente em prática) vão virar os defensores dos fracos e oprimidos; se você usa da máscara para espalhar o terror, está fazendo tudo errado. Esse personagem é uma linda inspiração, não a estraguem.

Em suma, preocupa-me a divisão que está se propondo dentro dos movimentos. Pacifistas x ativistas, militantes x apartidários, juventude x experiência (e ainda temos que nos preocupar com a galera do vandalismo gratuito, sem qualquer ideologia). Está difícil para todos os lados enxergar que juntos, abrindo mão de uma ou outra premissa básica individual, a manifestação cresce, o todo ganha crédito, o Brasil melhora. Depois que o movimento ganhar a simpatia de todos, mesmo os da classe mais abastada – que se ficarem quietos já ajudam bastante -, as peculiaridades de cada facção podem ser postas em prática em diferentes tipos de manifestação. Apartidários um dia, militantes noutro, uns apoiando os outros se desejarem. Mas nesse momento de movimento espontâneo, todos têm de abrir mão um pouco de seus princípios pelo bem maior: a formação de uma nova geração de lutadores combativos e politizados, que se não nasceram num momento crítico do país, se nunca precisaram protestar contra coisa nenhuma, agora estão aprendendo, na marra, a fazer isso. E nós devemos nos unir, e não nos dividir e facilitar a vida de quem quer transformar o movimento numa simples baderna de desocupados ou irresponsáveis.

Para concluir, há pelo menos uma coisa em comum em ambos os lados: os dois cometem o erro de condenar quem está em casa. Aquela pessoa que, por um motivo ou outro, prefere acompanhar de longe, ansioso também, torcendo também para que tudo dê certo. Gente, ninguém é igual. Há pessoas que fazem trabalho precioso nas redes sociais, produzindo vídeos, desmascarando sites retrógrados, denunciando a mídia mentirosa. Também existe trabalho de “inteligência” em todo grupo combativo. E, além do mais, tem gente que não gosta ou tem medo de ir pra rua. E daí? Ele é menos importante que você? Menos brasileiro? Não vamos começar errado, não vamos ter preconceito, algo comum naqueles que condenamos e queremos retirar do poder. Os mesmos que criticam a homofobia, o racismo, o preconceito social não são capazes de respeitar essa diferença? Que contradição é essa? O ideal seria que estivessem conosco, nas ruas? Claro. Mas vou arrastá-los? Usá-los como bucha de canhão ou boi de piranha? Expô-los a algo que eles simplesmente não têm coragem ou não podem fazer ou não foram tocados para tal?  Em todo exército existem pessoas com funções diferentes. Arrumemos uma que eles possam fazer para nos ajudar, e não simplesmente criemos neles uma rejeição por nós e nossa causa. Esse erro cometeram quando vaiaram os torcedores que iam para o estádio no dia do jogo, 4ª feira. Eles poderiam ser grandes manifestantes dentro do estádio, fazendo aquilo que não nos permitiram: denunciar que o Ceará não era uma maravilha. Mas quantos deles perderam toda a vontade de fazê-lo porque foram maltratados enquanto passavam por nós? Já pensaram nisso?

Espero ter ajudado algumas pessoas a pensar melhor sobre esse momento histórico que vivemos. E para aqueles que de mim discordam, saibam que têm todo meu respeito. E que não sou dono da verdade. Posso até ser convencido de que estou errado, claro. Mas pelo menos levem em consideração as ideias aqui colocadas, como levarei, com certeza, as suas. Não preciso provar para ninguém meu posicionamento de esquerda. Quem me conhece, sabe. Quem foi meu aluno, viu e ouviu. Então, vamos para o campo das ideias civilizadas e em debate.


Enfim, este é meu posicionamento, por enquanto. União utópica de todos em torno de um desejo por demais sonhador, talvez. Mas toda grande revolução começou com sonhos absurdos de se concretizar.

Abraços a TODOS!