31 de agosto. Se meu saudoso pai fosse vivo, estaria fazendo 102 anos hoje. Sim, 102. Mas, infelizmente, já se vão quase 29 anos que ele se foi. E se celebro ainda essa data, é por acreditar que se uma infecção hospitalar após uma cirurgia dita simples não o tivesse vitimado, ele teria voltado pra casa em 3 dias, como foi dito à época, e ainda estaria até hoje entre nós, tamanha a sua vontade de viver e de ser feliz.
Mais que um exemplo, durante todos esses anos meu pai foi e é meu espelho, alter-ego, enfim, o Outro, tão famoso nas literaturas artísticas e médicas. O amor incondicional pela família, a cultura, a inteligência, a opinião firme, mas aberta à aceitação do alheio e ao diálogo, são algumas características que busquei herdar, por aprendizado, já que a genética não nos beneficiou. O espírito bonachão, embora sério, a simpatia para com o que lhe era caro e a sisudez com o que não lhe agradava, a tal ponto de ser o famoso “chato, mas legal”, esse modo de ser eu nem fiz esforço para seguir. Sou eu, enfim.
Mas há algo mais motivador que me leva a lembrar esta data hoje. Pensei muito, quase o dia todo - aliás, desde ontem -, sobre tudo o que vem me afligindo nesses últimos anos. E vi que ele não iria querer me ver assim. Angustiado, sofrendo, como se esperasse apenas a hora de reencontrá-lo. Ele, com o amor que teve por mim desde o ventre de minha querida mãe biológica, quando sequer sabia o que viria dali, deve estar preocupado comigo, assim como minha mãe adotiva. Porque ele tinha todas as virtudes que eu podia notar (até a raiva tão instantânea quanto momentânea, que lhe conferia autoridade e admiração pela capacidade de arrepender-se, ao mesmo tempo), e mais algumas que a pouca idade não permitia.
Uma que eu não devo ter assimilado muito bem era a imensa vontade de me ver forte, grandioso, valente, esperançoso. Tornei-me alguém sensível demais, o que é muito bom para as artes e para as relações, mas péssimo para a tolerância a este mundo. Sou aborrecido, triste, angustiado por tudo o que há e dá de errado na minha vida, na minha vivência (mas pelo menos sei que ele teria orgulho de mim como profissional – sei que não sou mau professor), no universo e sua maldita mania de premiar os malvados e condenar os bons. Parece que este mundo foi feito para quem maltrata. Mas meu pai não quereria me ver sofrendo por isso ou por qualquer outra coisa. Ele iria querer que eu enfrentasse, como ele fez, a tudo e todos que obstaculassem a simples felicidade que ele desejava tanto.
Pois eu decidi que está na hora. Tantos anos depois, chega a hora de eu tentar passar a fazer algo de que ele realmente sentiria orgulho: passar a acreditar. Nem que eu me arrebente, fracasse, seja vítima de chacotas (a começar por este texto) ou calúnias. Mas eu tenho a obrigação de tentar ser feliz. Até hoje tenho me dedicado a me lamentar e dizer: “Não posso. Não creio. Felicidade não é pra mim”. A única exceção plena é a vida de meus filhos, uma bênção maravilhosa e inabalável. Por vezes, não me envergonho em assumir, foram minha melhor razão para permanecer vivo. Mas não mais serão a única, de hoje por diante. Vou acreditar. Ou tentar, pelo menos.
Precisarei de uma força que nunca tive, e rogo a Deus para que me ajude. Mas vou acreditar que posso melhorar, crescer, evoluir. Em todos os aspectos (só não vou deixar de ser um estranho na Arte, continuarei gostando de filmes e literatura de terror, de coisas fúnebres e góticas – isso não é defeito, é estética, e por sinal de muito bom gosto). Mas vou acreditar que posso, mesmo secretamente, amar, ser amado e, ainda assim, feliz. Até que um dia os mistérios se desvendem aos meus olhos e aos de todos. E quero estar pronto para esse dia. A fim de ser melhor para mim mesmo e para quem aguentar este cidadão difícil, chato, um tanto destrambelhado e desleixado, mas honesto, amoroso, autêntico e, de hoje por diante... esperançoso.
Deus e Emmerich Szasz me abençoem.
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