19 de junho de 2013.
Fui ao manifesto. Sozinho, como sempre faço ao participar de
eventos que requeiram análise e atenção. Encontrei gente conhecida, claro. Mas
procurei não “me agrupar” propositalmente, para não ser um estorvo para ninguém
e para ter liberdade de movimentos e observação. E vou relatar o que vi de bom,
de trágico e, em minha humilde opinião, de equivocado no manifesto de hoje.
Cheguei por volta das 10h30 ao local do manifesto, e logo
troquei minha blusa do Inter por uma em que se lia nas costas “Os Ferreira
Gomes NÃO me representam”. A do Inter foi pra cintura (?). E aí comecei a ver e
ouvir tudo. A primeira coisa que vi foi um cara com a camisa do Grêmio...
risos. Eu não resisti, cheguei ao desconhecido e disse: “Só assim Grêmio e Inter
ficam lado a lado, né?”. O manifestante soltou a bandeira e tiramos uma foto.
Em uma minha, sozinho, ele ainda aparece ao fundo. Foi legal. Depois comecei a
reparar no comportamento do povo. Lindo ver todos gritando “Sem partido! Sem
partido!” quando algum ousava levantar bandeira. Só em um dado momento ficou
chato, quando alguém do povão e um dos militantes partidários quiseram se
enfrentar. Mas acabou rápido.
Vários outros gritos de ordem se ouviram. Mas teve um que me
chamou a atenção. Algo como: “Ei, vou te falar, um professor vale mais que o
Neymar!!” Obrigado, obrigado... Entre um ou outro encontro com gente conhecida,
como com a amiga Geórgia Russel, Laline e Bruno, o companheiro Nilo e vários
alunos e ex-alunos, vejo cartazes criativos e inteligentes, mas alguns com um
tom politicamente incorreto para a ocasião “O SUS não cura nem gripe, quanto
mais viadagem” ou absurdamente americanófilo “Yes, we can” (???????). Mas na
maioria, estavam ótimos, respeitosos e provocativos, ao mesmo tempo.
Contextualizados.
A passeata começou pouco mais de meio-dia, pacífica e linda.
Emocionante. E olhe que o sol não ajudava (tá, uma ou outra dondoquinha ficava
dizendo: “Ai, minhas espinhas vão ficar inflamadas...” ou “Minha maquiagem vai
derreter”, mas... faz parte). Calor de rachar. Mas todo mundo lá, no asfalto
fervente, caminhando. E aí vem minha primeira crítica à organização: posso
estar dizendo bobagem, sou leigo. Mas minha experiência de protestos diz que
escolher um caminho que não tem qualquer alternativa de rota é complexo. Se
aquele lugar não oferecia opções, outro deveria ter sido escolhido. Barrados
uns 200 metros após uma igreja próxima ao Makro, não havia como dobrar, driblar
a polícia. Era passar por ali ou voltar. E aí vem a ação ditatorial do senhor
governador Cid Gomes, que decidiu que não se pode mostrar ao mundo que o Ceará
e o Brasil não são a maravilha que seus governantes querem mostrar. Então, ele
simplesmente determinou, baseado em sabe-se lá que lei (porque se ela existe,
deve ser revogada), que a manifestação não poderia ter livre acesso a qualquer
lugar. Isso é ABSURDO. O papel da polícia é acompanhar a manifestação aonde
quer que vá, para cuidar que os vândalos e exaltados não pratiquem atos
depredatórios. Não é papel (ou não deveria ser – como disse, se essa lei
existe, deveria ser revogada) dela ou de quem quer que seja determinar se ou
por onde vai um protesto. Vamos fazer protesto no deserto? Ou onde não há
mídia? Onde não os incomode? Então não é protesto. A polícia poderia e deveria,
sim, impedir, por exemplo, alguma pretensa invasão do estádio. O evento não era
público, era particular. Seria crime entrar sem pagar e, principalmente,
totalmente inadequado e anticivilizado. E nada mais, além dos atos vândalos, se
ocorrerem.
Pois bem, a polícia impede a passagem. Nessa hora, eu estava
a uns 150 metros da barreira. Visibilidade ruim, por causa das bandeiras e
cartazes erguidos. Não sei, infelizmente, dizer, se a polícia agiu por ordem
superior ou se reagiu a um pequeno grupo de baderneiros que teria atirado
pedras à barreira policial. Não posso afirmar nada, não vi, só ouvi as duas
versões. Mas aí vem o que argumentei antes: na verdade, NÃO IMPORTA. Se a
polícia fizesse o papel de apenas escoltar e fiscalizar o movimento, e não
impedi-lo, ninguém tentaria forçar passagem. E se algum imbecil tentasse
agredir policiais, teriam eles o apoio da população para deter quem tivesse
praticado a violência, porque o povo queria um ato pacífico, sem partido, sem
baderna. Mas o senhor governador, truculento e fascista, optou por impedir o
protesto. Deu no que deu. Seja qual foi a razão, a polícia foi cruel. Bombas de
gás lacrimogêneo começam a ser disparadas. Um rapaz de nome Alan (descobriria
depois) caiu ao meu lado, quando recuávamos. Gritei por ajuda. Trouxeram
vinagre para tentar cortar o efeito do gás. Mas ele estava muito mal. Optei em
ficar com ele até que algum de seus amigos o encontrasse. Levantei-o e sentei-o
em uma rampa de uma borracharia, acho, ajudado por outras pessoas. Lavei a
cabeça dele com água tirada de uma torneira exposta. Aí seus amigos chegaram e
voltei lá pra frente, pois os manifestantes tentaram se aproximar de novo. Novo
ataque da polícia, nessa ocasião “alicerçado” por spray de pimenta e bombas de
efeito moral. Dessa vez o gás quase me pegou, mas consegui escapar sem sentir
muitos efeitos. Recuei até a igreja, e acompanhei o grito de muitos para o
carro de reportagem de uma equipe local de uma grande emissora (não se iludam,
não era a Globo) para que filmassem os acontecimentos lá na frente. Eles não se
mexeram, contentaram-se em filmar nossa revolta. Resolvi tentar ir adiante mais
uma vez. Aí veio a reação completa. Balas de borracha. Uma atingiu o rapaz ao
meu lado na cabeça, que caiu direto. Eu só tive o tempo de dar a mão para
erguê-lo, pois ele parecia apenas atordoado, pegou de raspão. Mas veio uma
outra dose forte de lacrimogêneo, que me pegou em cheio. Fiquei cego. Tossia
demais. Recuei até a igreja, onde fui auxiliado por um ex-aluno (confesso que o
cumprimentei, mas não gravei o rosto, mal abria os olhos – obrigado, se estiver
lendo esse texto). Finalmente, quando eu melhorava, antes de saber o que fazer,
veio a polícia avançando, fazendo todos recuarem. Mais gás. Um manifestante
anônimo, me vendo mal, ofereceu vinagre. E um momento de sorriso no caos:
enquanto me ensinava como usá-lo eu respondia: “Pode deixar, já sei; estou
acostumado”. Ele riu, como quem diz: “Esse aí é macaco velho em manifestos”.
Quando me recuperei, vi as cenas mais deploráveis: uma senhora de mais de 80
anos, seguramente, às cegas, sendo levada por manifestantes, amparada. E outra,
numa cadeira de rodas, desesperada, gritava: “Meu Deus, onde está a
democracia?” Ela estava “ilhada” num lugar alto, sem poder descer da calçada
alta da igreja, numa óbvia escolha equivocada e apressada por uma rota de fuga.
Eu e outros a retiramos de lá. E uma pessoa conduziu sua cadeira a lugar
seguro.
Depois disso tudo, respirei um minuto. A perna e o pé com
unha encravada doíam. Não dava mais pra mim. Precisava voltar. Retornei para o
viaduto. Respirei um pouco. Encontrei um ex-aluno, correspondente de um jornal
escrito, dei rápida entrevista e comecei a ver as torcidas brasileira e
mexicana chegando ao jogo. E aí a segunda crítica: foi terrível ver a população
vaiando e xingando os torcedores. É jogar a população que não veio ao manifesto
contra nós. Eles não são menos afetados que nós. Muitos ali são classe média,
compraram o ingresso com sacrifício. Outros ganharam em sorteios. Nem todo
mundo ali é elite. E mesmo que fosse. Precisamos envolver TODOS nesse tipo de
movimento. Jogar parte da opinião pública contra o movimento é falta de bom
senso e inteligência, desculpem dizer. Que culpa eles têm? Nem sabiam, quando
compraram os ingressos, que isso iria acontecer. Talvez, até, se soubessem,
estivessem conosco. Não é contra eles, o protesto. Nunca foi. Mas que fique a
lição para próxima vez. Avaliemos os nossos atos melhor. Sejamos inteligentes.
Eles podem aumentar o movimento. Ou, pelo menos, não criticar. Já seria muito.
Enfim, retornei a pé até Borges de Melo, onde peguei meu
ônibus. Não fiquei até o final. Não creio que houve algo muito diferente da
imbecilidade do governador e seus asseclas. Queria ter colaborado mais. Mas
cheguei ao limite físico. Voltei pra casa. Triste porque a manifestação não
atingiu o principal objetivo de denunciar, de perto do estádio, os desmandos do
governo estadual e de outros no cenário nacional. Mas feliz por ter feito parte
desse momento histórico. Espero apenas
que os órgãos da imprensa noticiem a verdade e, principalmente, denunciem a
intransigência e brutalidade do nosso governador. Se você, meu leitor nesse
momento, é da imprensa de qualquer espécie, faça-o. Não se omita, por favor.
Não se pode impedir o direito ao protesto, só porque não se deseja exposto a
público os erros de seu governo.
FORÇA A TODOS!!
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