sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Máximas 131 a 140.


Máximas roderiquianas (131) Vida limita. Arte infinita.

Máximas roderiquianas (132) A vida eterna espiritual dá medo. A morte eterna terrena aterroriza. Porque, em ambos os casos, o homem só se perpetua por seu legado.

Máximas roderiquianas (133) Fraquejar é perdoável; delatar-se, execrável.

Máximas roderiquianas (134) From a suicide’s diary: “No vein, no pain”.

Máximas roderiquianas (135) Quando a solidão afeta a alma ao ponto máximo de ausência de amor, o corpo irrompe em espasmos de galante inquisição: “Quem poderia ser?”

Máximas roderiquianas (136) Há armas para os grandes inimigos. Contra o Diabo, há a prece. Deus é maior. Contra os hipócritas e indignos, há os amigos. São maiores. Mas não há salvação quando teu maior de todos os inimigos é tu mesmo. Porque ninguém consegue ser maior em tua mente do que tu mesmo.

Máximas roderiquianas (137) Decidi trocar a violenta tormenta de meus virulentos sentimentos pelos ventos bolorentos de meus horrendos pensamentos. E aguardo, em sedento desalento, a chegada de meu lento passamento. E sem lamentos.

Máximas roderiquianas (138) Na Bolsa de Amores, cansei de investir a longo prazo e fundo perdido. Agora, quero eu ser um investimento de alguém. A curto e declarado prazo. Já me desvalorizei demais. Quem quiser que invista em minhas ações, daqui para frente.

Máximas roderiquianas (139) Coopero? Não quero, reitero. Se prospero? Se espero? Não. Desespero.

Máximas roderiquianas (140) As provas que um professor tem para corrigir são os únicos seres inanimados que se reproduzem

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

POR MIM, POR MIM!


Amarras de farpados arames envoltos no músculo avermelhado e duro... O sangue escorre lento e viscoso... negro, não, quase negro, pois o aguado das lágrimas deu um leve toque carmim ao embrutecido órgão. Se ele teimava em bater, sorrir, esperar, nada mais há. E simplesmente porque não pode haver. Se ele ousar se mexer o ideal é eu torturá-lo sem dó, sem qualquer atitude que lembre humanidade. Mas súbito percebo que isso pode não fazer efeito. Muitos antes já não o trataram com humanidade e ainda assim ele insistiu. Esse podre coração precisa ser mais maltratado, até não mais bater por nada, por ninguém, por nenhum tipo de desejo ou porvir. Mas tal tem de ser concretizado de ser por mim, por mim!Nada de sucumbir aos sorrisos falsos, às palavras fraternais de conforto, mesmo que bem intencionadas. Nada de pôr os olhinhos de fora de minha caverna, procurando luz ou ar. Sufocar, suplantar, sucatear sentimentalismos e autopiedade. Mas por mim, por mim!Se é de acabar com essa tragicômica mania maldita de crer, que seja eu o sensicida. Não quero mais ser vítima de ninguém. Algoz de mim, é o que serei. Tirarei das mãos alheias a corda que puxa a lâmina decapitadora, para eu mesmo puxar uma lâmina dessentimentalizadora, que acabará com todo o mal... Pela raiz, pela cabeça, pelo tronco, pelo membro, que seja! Que uma melancólica valsa outonal venha a tocar como funérea melodia de meus últimos suspiros do coração. Não quero mais suspirar por ninguém, por coisa alguma. Quero ensimesmar-me até o fundo da caverna. Sem luz, sem água, sem desejo. Aberração não é o que serei, é o que vivo quando ainda creio, quando aposto, quando confio e espero. Que os ventos leves levem-me a notícia dos últimos estertores do meu antes obstinado, agora findado órgão irresponsável, que me permitiu o maior de todos os erros: acreditar. E que esse vento traga o aroma pútrido de minhas velhas emoções, definhando sob o sol, engordando os corvos que andam-me há tempos a espreitar-me. Sim, corvos, conseguiram me ver morto. Mas pelo menos não lhes dei o gosto de presenciarem meu fim. Eu o fiz! Eu! Fiquem com os restos desse coração que só me fez mal. Sem ele, estarei mais forte e mais preparado para o próximo ataque de vocês. E quando vierem buscar-me no fundo da caverna, será minha vez furar-lhes os olhos e a vaidade. Porque não terei mais compaixão. E ali ficarei, eternamente, a alimentar-me apenas de minhas dores. É uma dieta conhecida. Só tinha que me acostumar com ela. Antes um mal necessário, agora o fim de toda a angústia. 

domingo, 2 de setembro de 2012

Desabafo de um profissional apaixonado pelo que faz.


Sexta-feira e sábado, tarde e noite, praticamente completos, dedicados à elaboração e correção de provas. Tudo para pensar em ter direito a um domingo de descanso ou lazer. E chego, a esta hora da madrugada, à triste constatação de que não o terei. Está no tempo de as pessoas que estipulam prazos lembrarem que somos humanos, não máquinas. 

E não adianta virem com frases como "São os ossos do ofício" ou "Quem não pode com o pote, não pegue na rodilha". Isso é detestável, é a inversão total de valores. Não trabalho em tantas escolas porque queira ser rico, mas porque quero pagar minhas contas, dar dignidade a mim e a meus filhos e ter lazer (sim, por acaso não podemos?). Se recebesse o que merece um profissional da educação por uma ou duas escolas apenas, sem ocupar todos os expedientes, e isso fosse o suficiente para dar o mínimo a mim e aos meus e poder descansar no fim de semana, não faria nenhuma questão de acumular riquezas. Esclareço logo que  não estou reclamando de salário porque, apesar de tudo, nossa classe ainda é uma das que recebe relativamente bem em comparação a outras, especialmente em escolas particulares. Falo de respeito aos homens e mulheres que se dedicam a essa profissão e não têm direito sequer a ter um encontro decente com a família ou consigo mesmo em um final de semana, porque algum burocrata acha que para que a escola mostre excelência, tudo tem de ser feito com extrema rapidez e, para isso, o professor deve ser o sacrificado. É tudo uma questão de boa vontade (ou má vontade, se pensarmos nos que nos impõem as datas-limite inadequadas) e de ideologia. 

As outras funções da escola, que dificilmente levam trabalho para casa, têm prazos compatíveis para realizar todas suas obrigações dentro do expediente. Já nós, professores, que aceitemos nosso "destino"? Não, não é por aí. Precisamos sentar e discutir isso. Se nós somos a "mola-mestra" da educação, como adoram dizer nas tão contraditórias homenagens ao dia do professor, se somos tão importantes, por os calendários não são feitos pensando também em nós? Sempre pensam em todos os setores: secretaria, gráfica, coordenação... Todos precisam de tempo hábil para fazer sua função dentro da escola. E nós, que levamos o serviço mais pesado para casa, temos um tempo igual ou inferior proporcionalmente ao que eles dispõem. Alguém vai lembrar que recebemos uma tal “5ª semana” para fazermos isso. Mas quem, senhores, quem entre os que temos responsabilidade, gastamos  esse tempo apenas nos seus afazeres educacionais? E lá vêm as exigências... Antecedência brutal na entrega de provas, de suas notas... Hoje contamos faltas, digitamos as provas, as notas... Fazemos as funções de vários setores, aliviamos o trabalho de todos eles. E nem mesmo o tempo que eles tinham na escola para fazer isso nos é acrescido para fazer a função deles, além da nossa. Nós que nos viremos com o mesmo tempo (ou menos, até!) para mais esses atributos. O absurdo é que alguns ainda nos olham com cara de espanto ao nos lamentarmos, como se não tivéssemos direito a querer ter um dia (eu disse UM DIA) do fim de semana TOTALMENTE livre. Parece, para tais pessoas (que não são mal intencionadas, creio, mas totalmente fora da realidade, porque não passam pelo que passamos), que estamos pedindo algo tão impensável quanto o fim do conflito no Oriente Médio. E qual é o problema em querer um prazo que me permita corrigir e elaborar tudo com folga suficiente para aproveitar UM DIA do fim de semana, em TODAS as semanas, como qualquer  trabalhador comum nesse país? É tudo questão de boa vontade, já disse.

 A esta hora, com certeza, muitos (talvez não todos) que estarão esperando nossas notas na segunda-feira para analisá-las, conferi-las, revisá-las ou simplesmente aguardarão nossas próximas atividades estão dormindo, amando, deliciando-se com a companhia dos filhos, de uma cervejinha ou de um filminho na TV. E amanhã não farão nada relativo a trabalho. Enquanto isso, eu e outros tentamos nos desdobrar para tentar passar ao menos meio domingo pensando em ir a uma praia, assistir ao futebol ou simplesmente brincar com os filhos. E muito provavelmente vários, como eu, chegaram à mesma triste conclusão que eu: o esforço foi em vão, porque a sobrecarga de obrigações é extrema, e o meu domingo pertencerá a estes, os únicos seres inanimados que se reproduzem: as provas. Até quando aceitaremos isso calados?