sábado, 22 de junho de 2013

Quanta coisa aconteceu...

Ainda estou um tanto atordoado com tantas informações, opiniões, notícias e posturas dos últimos 3 dias. Processar e filtrar tudo isso me deu muita dor de cabeça, boas discussões no facebook, várias interrogações e, claro, um pouco de raiva e frustração. O que vou colocar aqui é um balanço, até o momento, do que pude averiguar, pois muitos me perguntam opiniões, angustiados, preocupados, sequiosos de saber por onde ir e mesmo se deve ir ou simplesmente desistir, nessa batalha de posicionamentos, xingamentos, acusações e agressões. Mas atenção. Diante de tanta coisa, não posso dizer que este é meu posicionamento final. Este é o de momento:

A primeira coisa que redescobri foi meu espírito anarquista utópico. Sim, eu ainda acredito que é possível construir uma sociedade alicerçada em bases mais humanas e menos institucionais. E, diante disso, recebi com alegria o que tem se tornado o motivo de maior preocupação (e mesmo ódio) para grande parte das pessoas historicamente ligadas à luta de classes no Brasil: o apartidarismo. Quero deixar claro que sou eleitor de partidos como o PSOL e o PSTU. Portanto, muito bem posicionados à esquerda. E bem radicais, do jeito que gosto. Mas aprovei que um movimento espontâneo, surgido praticamente do nada, peça para que se abaixem bandeiras partidárias em seus atos públicos. Vejam bem: peçam. Sou contrário a atos de brutalidade como expulsão dos militantes e queima das bandeiras, como forma de intimidar os partidários históricos.

Ou seja (aí vem uma das utopias), eu espero que a militância perceba que esta é uma hora especial, em que se ela insistir em tomar à frente do movimento, ele esvaziará, porque boa parte dos manifestantes não quer ser atrelado a qualquer partido. E não há, ao contrário do que se diz, um desejo fascista de extinção dos partidos. De forma alguma. Deseja-se isso para AQUELE momento, aquele movimento.  E me pergunto se os partidos e militantes se dão conta de que essa é uma oportunidade única de ver jovens e adultos antes alienados agora ganhando as ruas e formando uma consciência crítica capaz de, futuramente, fazê-los ingressar num partido político!! Tenho dito que isso é recuar um passo para avançar dois. Mas meus amigos militantes só conseguem enxergar, furiosos, como um golpe contra os partidos, como uma brecha para a extinção dos mesmos e tal. Citam 64, o integralismo, o AI-5.

Gente, sinceramente. Por mais que a direita se articule para usar o movimento em proveito próprio, acho muito, muito difícil algo nesse sentido ser feito. Estamos numa época diferente, o povo, por mais alienado que seja, ganhou mais acesso às informações, com a Internet e até mesmo com a maldita globalização que o próprio sistema capitalista neoliberal criou. Não que seja impossível, pois concordo que nada seja impossível para as mentes direitistas malignas.  Mas não creio que o consigam. O povo ainda não chegou a um estágio pleno de conscientização política, mas já deu uma avançada. Sabem que esse tipo de retrocesso seria uma droga. Nada de pânico. Ficar desesperado, achando que os partidos serão extintos, é quase um ato desesperado de alguém que está, desculpem dizer, “enciumado” por não estar à frente desses manifestos, pela primeira vez, tão grandes e com tamanha amplitude nacional. Sei que não são ciúmes, claro. Mas os partidos têm de saber que o povo vai reconhecer quem sempre esteve na luta, lógico. Eles só querem, nesse momento, desvincular a imagem do movimento aos partidos para que ninguém diga que as reivindicações se tratam somente de uma questão eleitoral, exatamente do mesmo modo que vocês (e eu também) temem(os) que alguém invente de tirar a esquerda (fraquinha, rota, esfarrapada e omissa, mas esquerda) atualmente no poder para fazer retornar a direita de FHC e seus asseclas. É a mesma preocupação, não veem? Tenham paciência, não estamos em 64. Esse retrocesso não acontecerá – mas não custa nada ficarmos espertos e atentos.

Eu, como disse, tenho a infeliz certeza de que se os partidos tomarem à frente do movimento, ele acaba. E aí, amigos militantes, temos de ser inteligentes. Deixem com que esse movimento natural forme uma juventude mais atuante e crítica, limada à base de repressão policial. Passado o oba-oba eles irão correndo estudar ou reconhecer a história de vocês e é aí que se filiarão ou, no mínimo, votarão em vocês. Parem de xingar a galera. Especialmente, parem de atrelar a execução do hino e o uso da bandeira nacional ao Integralismo. Gente, será que toda vez que se usar o hino é por conta de um espelho integralista? Muitos ali nem sabem o que foi isso. Muitos querem “apenas” mudança de atitude por parte dos políticos. E lá vem mais uma acusação contra o movimento: falta foco.

E é verdade, de certa forma. Os gritos são muito genéricos, como “saúde, educação” etc. Mas como esperar que algo que veio das ruas espontaneamente venha com um plano preparado anteriormente, com propostas claras e sólidas, exceto contra aquilo que já há, como a PEC 37, a dita “Cura gay” ou o Ato médico? E mais: ser genérico é realmente ser vazio? Não está na base de tudo a essência dos pedidos? Porque se cobramos saúde, educação e outros, com certeza não é com a mesma vacuidade hipócrita e sem sentido que os políticos atuais utilizam em seus discursos de campanha.

E aqui no Ceará a indignação ganhou ainda mais sentido: muitos só agora descobriram a afetação ditatorial de nosso governador, que decidiu que ninguém no mundo deveria perceber que a população cearense não está satisfeita com o que se investe em saúde e educação. Os protestos contra ele aumentaram, depois da ação truculenta ordenada previamente por ele (e que hoje já sabemos, traiçoeiramente iniciada pela polícia, como mostrou um repórter da UOL). Portanto NÃO foi uma reação a supostos vândalos, mas estes regiram com pedradas à armadilha policial que vitimou alguns manifestantes. Covardia e hipocrisia pura, o que esse senhor faz em seu governo. Eu não estranho. Afinal, não há um político Ferreira Gomes que escape. Mas muitos não o sabiam. Agora sentiram na pele, nos olhos, na cabeça...

E falando em violência, preocupa-me muito uma cobrança em relação a como alguém deve se comportar na passeata. Desde ontem tenho visto pessoas de bem criticando os manifestantes por não confrontarem a polícia e ficarem cantando, dançando, ou mandando os que estão em prédios e casas  piscarem luzes. Esperem um pouco, não estamos em guerra civil (ainda). Também não acho que devemos ser passivos. Mas pacíficos, sim. Um bom manifestante não foge da polícia na primeira bomba de efeito moral e engrossa o grupo de pessoas que confronta os policiais pela causa. Certo. Concordo e faço isso, inclusive. Mas começar assim, não! É dar margem às críticas e acusações de vandalismo, agressividade etc. Essa garotada não tem nenhuma experiência de militância, combatividade e tal. Estavam até semana passada jogando vídeo-game, lendo mangás e sua maior preocupação era qual cosplay fariam no próximo SANA no Centro de Convenções. E vocês os querem guerrilheiros revolucionários mal saídos dos cueiros? Muitos já tiveram a coragem extrema de sair às escondidas de casa, contra a vontade dos pais. Só agora inalaram o primeiro gás ou aprenderam por qual razão levar o vinagre. Tenham paciência. Eles aprenderão. E lutarão conosco lado a lado. Mas tudo tem seu tempo. Além do mais, é incoerente pedir respeito e iniciar o confronto. Temos de ser corajosos na resposta, mas não devemos ser os que provocam o embate.

Por outro lado, os manifestantes pacifistas não podem prescindir da presença dos manifestantes experientes e combativos. Eles sabem como proceder nas situações extremas. Eu me lembro que gritava para os mais ingênuos saírem de perto das paredes, que corressem para lugares abertos, na hora do gás lacrimogêneo. Os coitados viravam presa fácil, sem saber para onde correr. Então, os manifestantes “comuns” não podem se dar ao luxo de dispensar aqueles que já vem há anos lutando por esse país. Acham que colocando uma máscara anônima (pelo amor de Deus, assistam o filme “V de Vingança” – se não tiverem acesso à ainda melhor HQ dos anos 80 – e incorporem o ESPÍRITO do personagem, esqueçam os atos terroristas dele, porque ele tinha razões para tal – era sozinho, sem apoio nenhum -, é bem semelhante em ideal, mas totalmente diferente em prática) vão virar os defensores dos fracos e oprimidos; se você usa da máscara para espalhar o terror, está fazendo tudo errado. Esse personagem é uma linda inspiração, não a estraguem.

Em suma, preocupa-me a divisão que está se propondo dentro dos movimentos. Pacifistas x ativistas, militantes x apartidários, juventude x experiência (e ainda temos que nos preocupar com a galera do vandalismo gratuito, sem qualquer ideologia). Está difícil para todos os lados enxergar que juntos, abrindo mão de uma ou outra premissa básica individual, a manifestação cresce, o todo ganha crédito, o Brasil melhora. Depois que o movimento ganhar a simpatia de todos, mesmo os da classe mais abastada – que se ficarem quietos já ajudam bastante -, as peculiaridades de cada facção podem ser postas em prática em diferentes tipos de manifestação. Apartidários um dia, militantes noutro, uns apoiando os outros se desejarem. Mas nesse momento de movimento espontâneo, todos têm de abrir mão um pouco de seus princípios pelo bem maior: a formação de uma nova geração de lutadores combativos e politizados, que se não nasceram num momento crítico do país, se nunca precisaram protestar contra coisa nenhuma, agora estão aprendendo, na marra, a fazer isso. E nós devemos nos unir, e não nos dividir e facilitar a vida de quem quer transformar o movimento numa simples baderna de desocupados ou irresponsáveis.

Para concluir, há pelo menos uma coisa em comum em ambos os lados: os dois cometem o erro de condenar quem está em casa. Aquela pessoa que, por um motivo ou outro, prefere acompanhar de longe, ansioso também, torcendo também para que tudo dê certo. Gente, ninguém é igual. Há pessoas que fazem trabalho precioso nas redes sociais, produzindo vídeos, desmascarando sites retrógrados, denunciando a mídia mentirosa. Também existe trabalho de “inteligência” em todo grupo combativo. E, além do mais, tem gente que não gosta ou tem medo de ir pra rua. E daí? Ele é menos importante que você? Menos brasileiro? Não vamos começar errado, não vamos ter preconceito, algo comum naqueles que condenamos e queremos retirar do poder. Os mesmos que criticam a homofobia, o racismo, o preconceito social não são capazes de respeitar essa diferença? Que contradição é essa? O ideal seria que estivessem conosco, nas ruas? Claro. Mas vou arrastá-los? Usá-los como bucha de canhão ou boi de piranha? Expô-los a algo que eles simplesmente não têm coragem ou não podem fazer ou não foram tocados para tal?  Em todo exército existem pessoas com funções diferentes. Arrumemos uma que eles possam fazer para nos ajudar, e não simplesmente criemos neles uma rejeição por nós e nossa causa. Esse erro cometeram quando vaiaram os torcedores que iam para o estádio no dia do jogo, 4ª feira. Eles poderiam ser grandes manifestantes dentro do estádio, fazendo aquilo que não nos permitiram: denunciar que o Ceará não era uma maravilha. Mas quantos deles perderam toda a vontade de fazê-lo porque foram maltratados enquanto passavam por nós? Já pensaram nisso?

Espero ter ajudado algumas pessoas a pensar melhor sobre esse momento histórico que vivemos. E para aqueles que de mim discordam, saibam que têm todo meu respeito. E que não sou dono da verdade. Posso até ser convencido de que estou errado, claro. Mas pelo menos levem em consideração as ideias aqui colocadas, como levarei, com certeza, as suas. Não preciso provar para ninguém meu posicionamento de esquerda. Quem me conhece, sabe. Quem foi meu aluno, viu e ouviu. Então, vamos para o campo das ideias civilizadas e em debate.


Enfim, este é meu posicionamento, por enquanto. União utópica de todos em torno de um desejo por demais sonhador, talvez. Mas toda grande revolução começou com sonhos absurdos de se concretizar.

Abraços a TODOS!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

19 de junho de 2013 - Um relato

19 de junho de 2013.

Fui ao manifesto. Sozinho, como sempre faço ao participar de eventos que requeiram análise e atenção. Encontrei gente conhecida, claro. Mas procurei não “me agrupar” propositalmente, para não ser um estorvo para ninguém e para ter liberdade de movimentos e observação. E vou relatar o que vi de bom, de trágico e, em minha humilde opinião, de equivocado no manifesto de hoje.

Cheguei por volta das 10h30 ao local do manifesto, e logo troquei minha blusa do Inter por uma em que se lia nas costas “Os Ferreira Gomes NÃO me representam”. A do Inter foi pra cintura (?). E aí comecei a ver e ouvir tudo. A primeira coisa que vi foi um cara com a camisa do Grêmio... risos. Eu não resisti, cheguei ao desconhecido e disse: “Só assim Grêmio e Inter ficam lado a lado, né?”. O manifestante soltou a bandeira e tiramos uma foto. Em uma minha, sozinho, ele ainda aparece ao fundo. Foi legal. Depois comecei a reparar no comportamento do povo. Lindo ver todos gritando “Sem partido! Sem partido!” quando algum ousava levantar bandeira. Só em um dado momento ficou chato, quando alguém do povão e um dos militantes partidários quiseram se enfrentar. Mas acabou rápido.

Vários outros gritos de ordem se ouviram. Mas teve um que me chamou a atenção. Algo como: “Ei, vou te falar, um professor vale mais que o Neymar!!” Obrigado, obrigado... Entre um ou outro encontro com gente conhecida, como com a amiga Geórgia Russel, Laline e Bruno, o companheiro Nilo e vários alunos e ex-alunos, vejo cartazes criativos e inteligentes, mas alguns com um tom politicamente incorreto para a ocasião “O SUS não cura nem gripe, quanto mais viadagem” ou absurdamente americanófilo “Yes, we can” (???????). Mas na maioria, estavam ótimos, respeitosos e provocativos, ao mesmo tempo. Contextualizados.

A passeata começou pouco mais de meio-dia, pacífica e linda. Emocionante. E olhe que o sol não ajudava (tá, uma ou outra dondoquinha ficava dizendo: “Ai, minhas espinhas vão ficar inflamadas...” ou “Minha maquiagem vai derreter”, mas... faz parte). Calor de rachar. Mas todo mundo lá, no asfalto fervente, caminhando. E aí vem minha primeira crítica à organização: posso estar dizendo bobagem, sou leigo. Mas minha experiência de protestos diz que escolher um caminho que não tem qualquer alternativa de rota é complexo. Se aquele lugar não oferecia opções, outro deveria ter sido escolhido. Barrados uns 200 metros após uma igreja próxima ao Makro, não havia como dobrar, driblar a polícia. Era passar por ali ou voltar. E aí vem a ação ditatorial do senhor governador Cid Gomes, que decidiu que não se pode mostrar ao mundo que o Ceará e o Brasil não são a maravilha que seus governantes querem mostrar. Então, ele simplesmente determinou, baseado em sabe-se lá que lei (porque se ela existe, deve ser revogada), que a manifestação não poderia ter livre acesso a qualquer lugar. Isso é ABSURDO. O papel da polícia é acompanhar a manifestação aonde quer que vá, para cuidar que os vândalos e exaltados não pratiquem atos depredatórios. Não é papel (ou não deveria ser – como disse, se essa lei existe, deveria ser revogada) dela ou de quem quer que seja determinar se ou por onde vai um protesto. Vamos fazer protesto no deserto? Ou onde não há mídia? Onde não os incomode? Então não é protesto. A polícia poderia e deveria, sim, impedir, por exemplo, alguma pretensa invasão do estádio. O evento não era público, era particular. Seria crime entrar sem pagar e, principalmente, totalmente inadequado e anticivilizado. E nada mais, além dos atos vândalos, se ocorrerem.

Pois bem, a polícia impede a passagem. Nessa hora, eu estava a uns 150 metros da barreira. Visibilidade ruim, por causa das bandeiras e cartazes erguidos. Não sei, infelizmente, dizer, se a polícia agiu por ordem superior ou se reagiu a um pequeno grupo de baderneiros que teria atirado pedras à barreira policial. Não posso afirmar nada, não vi, só ouvi as duas versões. Mas aí vem o que argumentei antes: na verdade, NÃO IMPORTA. Se a polícia fizesse o papel de apenas escoltar e fiscalizar o movimento, e não impedi-lo, ninguém tentaria forçar passagem. E se algum imbecil tentasse agredir policiais, teriam eles o apoio da população para deter quem tivesse praticado a violência, porque o povo queria um ato pacífico, sem partido, sem baderna. Mas o senhor governador, truculento e fascista, optou por impedir o protesto. Deu no que deu. Seja qual foi a razão, a polícia foi cruel. Bombas de gás lacrimogêneo começam a ser disparadas. Um rapaz de nome Alan (descobriria depois) caiu ao meu lado, quando recuávamos. Gritei por ajuda. Trouxeram vinagre para tentar cortar o efeito do gás. Mas ele estava muito mal. Optei em ficar com ele até que algum de seus amigos o encontrasse. Levantei-o e sentei-o em uma rampa de uma borracharia, acho, ajudado por outras pessoas. Lavei a cabeça dele com água tirada de uma torneira exposta. Aí seus amigos chegaram e voltei lá pra frente, pois os manifestantes tentaram se aproximar de novo. Novo ataque da polícia, nessa ocasião “alicerçado” por spray de pimenta e bombas de efeito moral. Dessa vez o gás quase me pegou, mas consegui escapar sem sentir muitos efeitos. Recuei até a igreja, e acompanhei o grito de muitos para o carro de reportagem de uma equipe local de uma grande emissora (não se iludam, não era a Globo) para que filmassem os acontecimentos lá na frente. Eles não se mexeram, contentaram-se em filmar nossa revolta. Resolvi tentar ir adiante mais uma vez. Aí veio a reação completa. Balas de borracha. Uma atingiu o rapaz ao meu lado na cabeça, que caiu direto. Eu só tive o tempo de dar a mão para erguê-lo, pois ele parecia apenas atordoado, pegou de raspão. Mas veio uma outra dose forte de lacrimogêneo, que me pegou em cheio. Fiquei cego. Tossia demais. Recuei até a igreja, onde fui auxiliado por um ex-aluno (confesso que o cumprimentei, mas não gravei o rosto, mal abria os olhos – obrigado, se estiver lendo esse texto). Finalmente, quando eu melhorava, antes de saber o que fazer, veio a polícia avançando, fazendo todos recuarem. Mais gás. Um manifestante anônimo, me vendo mal, ofereceu vinagre. E um momento de sorriso no caos: enquanto me ensinava como usá-lo eu respondia: “Pode deixar, já sei; estou acostumado”. Ele riu, como quem diz: “Esse aí é macaco velho em manifestos”. Quando me recuperei, vi as cenas mais deploráveis: uma senhora de mais de 80 anos, seguramente, às cegas, sendo levada por manifestantes, amparada. E outra, numa cadeira de rodas, desesperada, gritava: “Meu Deus, onde está a democracia?” Ela estava “ilhada” num lugar alto, sem poder descer da calçada alta da igreja, numa óbvia escolha equivocada e apressada por uma rota de fuga. Eu e outros a retiramos de lá. E uma pessoa conduziu sua cadeira a lugar seguro.

Depois disso tudo, respirei um minuto. A perna e o pé com unha encravada doíam. Não dava mais pra mim. Precisava voltar. Retornei para o viaduto. Respirei um pouco. Encontrei um ex-aluno, correspondente de um jornal escrito, dei rápida entrevista e comecei a ver as torcidas brasileira e mexicana chegando ao jogo. E aí a segunda crítica: foi terrível ver a população vaiando e xingando os torcedores. É jogar a população que não veio ao manifesto contra nós. Eles não são menos afetados que nós. Muitos ali são classe média, compraram o ingresso com sacrifício. Outros ganharam em sorteios. Nem todo mundo ali é elite. E mesmo que fosse. Precisamos envolver TODOS nesse tipo de movimento. Jogar parte da opinião pública contra o movimento é falta de bom senso e inteligência, desculpem dizer. Que culpa eles têm? Nem sabiam, quando compraram os ingressos, que isso iria acontecer. Talvez, até, se soubessem, estivessem conosco. Não é contra eles, o protesto. Nunca foi. Mas que fique a lição para próxima vez. Avaliemos os nossos atos melhor. Sejamos inteligentes. Eles podem aumentar o movimento. Ou, pelo menos, não criticar. Já seria muito.

Enfim, retornei a pé até Borges de Melo, onde peguei meu ônibus. Não fiquei até o final. Não creio que houve algo muito diferente da imbecilidade do governador e seus asseclas. Queria ter colaborado mais. Mas cheguei ao limite físico. Voltei pra casa. Triste porque a manifestação não atingiu o principal objetivo de denunciar, de perto do estádio, os desmandos do governo estadual e de outros no cenário nacional. Mas feliz por ter feito parte desse momento histórico.  Espero apenas que os órgãos da imprensa noticiem a verdade e, principalmente, denunciem a intransigência e brutalidade do nosso governador. Se você, meu leitor nesse momento, é da imprensa de qualquer espécie, faça-o. Não se omita, por favor. Não se pode impedir o direito ao protesto, só porque não se deseja exposto a público os erros de seu governo.


FORÇA A TODOS!! 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Vem aí 19 de junho de 2013 e pode ser histórico...

Com tudo de histórico que vem acontecendo e que ainda pode acontecer, não resisto e vou fazer mais um de meus longos textos, que alguns amam e outros detestam. Pode parecer apenas biografia, a princípio, mas há uma importante mensagem para jovens e SEUS PAIS, ao final:

Nasci em 1970. No auge da ditadura militar. Desde pequeno entendi que nosso país tem visões muitas vezes distorcidas da realidade. Aos 6 ou 7 anos, não tenho certeza, eu corria com livros de capa vermelha (apesar de não passarem de clássicos de Dostoievski, Tchekov, Gogol e outros, nada de literatura “política”) para enterrá-los no quintal de casa, num buraco previamente aberto. Os livros pertenciam a meu pai adotivo, húngaro de nascimento (um “comunista em potencial”, segundo a polícia da época – coitado, meu pai nunca foi de se envolver com nada disso, ao contrário, veio para o Brasil fugindo da 2ª Guerra) que cometia o grande pecado de ser esclarecido.

Apoiei, como estudante secundarista, a maior paralisação de professores da rede particular de ensino quando aluno do Colégio Cearense, o que valeu aos líderes do movimento demissão (se professores) e suspensão (se alunos). Eram 4 professores e 4 alunos que se recusaram a obedecer quando a direção fez ameaças e mandou todos saírem do pátio de protestos e voltarem à sala de aula.

Depois, universitário, participei de passeatas contra Sarney, Itamar, Collor. Foram campanhas por eleições paritárias (sim, amigos universitários, essa parece ser uma luta eterna), contra a baixa verba pra educação (essa também) e pela causa de professores grevistas (mais ainda). Éramos corajosos, fortes. Enfrentávamos polícia montada, armada, canina. Ou corríamos para dentro da UFC, onde algumas polícias não podiam entrar. E lá passávamos horas, com palavras de ordem, para em algum tempo sairmos escoltados ou fugidos pelo muro lateral, perto da praça da Gentilândia. As calouradas tinham tom de protesto, não o de festa que hoje possuem. Eu subia em mesas de restaurantes universitários, fazendo discursos, principalmente anarquistas (mas não anárquicos, vejam a diferença), contra a “ordem” estabelecida pela direita e pela falsa esquerda.  

Quando eu conto algumas dessas histórias a meus alunos em sala de aula, ou uso como exemplo para debates com colegas professores sobre a “pouca mobilização dos jovens”, eu sempre os “inocento”, dizendo que eles nasceram livres, sem repressão, sem causas por que lutar (pelo menos, na cabeça deles). Pois bem, felizmente, tudo mudou. Hoje eles reconheceram o estado calamitoso em que o Brasil vive há 50 anos, no mínimo (um grande governo a partir do golpe militar, por favor? Nenhum. Se não era repressivo, era um fracasso econômico, moral... quando não havia tortura, era desmando, hipocrisia, conchavo... é nisso que estamos hoje). Viram que precisam, sim, sair às ruas. E com uma grande vantagem. Eles não precisam de brigar, quebrar, depredar. Sim, sempre há os que fazem isso, mas a grande maioria, esmagadora, mesmo, quer uma revolução na mente e nas atitudes, não nas estruturas já alquebradas da cidade.

Portanto, você que vai amanhã às manifestações, junte-se a pessoas que tenham intenções reivindicatórias, mas sem agressão, depredação ou confronto. A polícia, por sua vez, escolte os manifestantes por onde eles quiserem ir, sem restrições de trajeto, pacificamente, detendo APENAS os poucos desequilibrados e vândalos. Esse é um momento histórico no nosso país. Não o estraguemos, dando margem a que emissoras de TV e rádio mal-intencionadas descaracterizem a luta. E não façamos disso um ato contra PT, FHC, Dilma, PSDB, Lula, DEM, Cid, Luiziane ou Roberto Cláudio. É contra TODOS. É contra o desmando que tomou conta desse país desde que os militares usurparam o poder e que os civis pós-85 administraram tudo com interesses partidários e pessoais, não pelo bem do povo. TODOS merecem nosso desprezo. Queremos algo NOVO. Governantes que façam pelo povo, não por seus partidos, coligações e causas pessoais.

Para fazermos isso, saibamos usar do bom senso e das atitudes contundentes, mas pacíficas. Não recuemos diante de policiais e imprensa, mas não os confrontemos na porrada ou agressividade. Marchemos em frente, simplesmente. E se a preocupação deles é o ônibus da seleção, deixem-no passar. A seleção não construiu estádios, não desviou verbas, não votou pela Copa aqui, muito menos quebrou saúde e educação. No máximo, a Confederação brasileira de Futebol colaborou para isso. E ela não entra em campo. Deixem os caras irem lá, jogar a bola deles. E continuemos indo, até os limites da legalidade, protestando em todos os outros espaços, inclusive na frente do estádio, mas sem quebrar, tentar invadir ou agredir.  A polícia não poderá bater em quem não faz nada de ilegal. Se esse for o espírito, teremos um dos mais belos, significativos e apoiados manifestos da história do Brasil e do Mundo. E eu repito: podemos fazer História. 

Caros pais, eu sei que vocês estão preocupados. Eu mesmo pretendo ir, não sem medo de enfrentar algum tumulto causado por um grupelho de imbecis e que haja reação proporcional (ou não) da força armada. Mas não quero ficar de fora desse momento histórico, dessa luta. Não barre seus filhos de irem, se eles o desejarem. Confie. Oriente-os para que saiam em grupos, com outras pessoas de bem que não farão nenhuma atitude agressiva (com certeza, vocês conhecem e sabem quem vai, com essas características). Não prive seu filho de ser AGENTE da história, se ele o desejar. Se você não foi antes, é a hora de compensar. Se já foi, especialmente, sabe o quanto isso significa. Medo? Temos, claro. Eu tenho 2 filhos: um de 6 que não irá, óbvio, e uma de 20 que, espero, estará lá. Se temo que ela se machuque? Claro. Se temo que eu me machuque e eventualmente ou tragicamente interrompa minha trajetória com eles? Claro que sim, sou humano. Mas temo muito mais permitir que eles se tornem covardes ou que me vejam como um. A saúde não está boa, minha perna dói pela má circulação. A caminhada é longa, mas eu tentarei ir, sim. E queria ter 16 anos de novo, pra começar tudo outra vez. Porque nossos filhos e netos merecem algo melhor do que o que nós tivemos nos últimos 50 anos.