domingo, 18 de agosto de 2013

Máximas roderiquianas (421 a 440)

Máximas roderiquianas (421) Qualquer sugestão impossível, se dada com boa vontade, tende a tornar-se uma doce e temível dúvida a martelar sua mente.

Máximas roderiquianas (422) Eu me ajoelharia diante do Senhor se Ele não me tivesse estourado os meniscos; eu me curvaria diante Dele, se alguns de Seus seguidores não quisessem se aproveitar de minhas fraquezas quando o fiz; mas ao contrário do que parece, não sou um ateu, sou um sobrevivente.

Máximas roderiquianas (423) Na verdade, não sou o proprietário deste corpo: pago um caro e injusto aluguel, pois as instalações se deterioram diariamente.

Máximas roderiquianas (424) Matar um amor que te foi traiçoeiro e ingrato é muito difícil. Sentir o ódio depois, simples; é apenas o esquartejamento do cadáver.

Máximas roderiquianas (425) Se falo o que penso, corro o risco de morrer pelo rancor que desperto. Se guardo comigo, quem morre com aquilo atravessado sou eu. Como não sou suicida...

Máximas roderiquianas (426) Um ombro amigo é um psicólogo sem antidepressivos.

Máximas roderiquianas (427) Ser autêntico é uma fórmula bem eficaz de terminar seus dias sozinho. 

Máximas roderiquianas (428) Meias verdades não fazem uma inteira.

Máximas roderiquianas (429) O pessimismo é a soma de todas as injustiças padecidas.

Máximas roderiquianas (430) O julgamento alheio de uma ideia é um algoz; o próprio, o caixão.

Máximas roderiquianas (431) A Língua de um povo é como uma mulher: deve ser amada e preservada, não estuprada.

Máximas roderiquianas (432) Querer bem é desejar mais e exigir menos.

Máximas roderiquianas (433) Educação não é mordaça; respeito não é concordância; tolerância não é silêncio. 

Máximas roderiquianas (434) Uma migalha de esperança é capaz de fazer um pássaro com asas quebradas recomeçar a sonhar com céus mais límpidos e tranquilos. 

Máximas roderiquianas (435) A maior derrota para a Educação é supô-la espontânea e fácil.

Máximas roderiquianas (436) Um amor breve é tão doloroso quanto uma paixão duradoura. 

Máximas roderiquianas (437) Retalhos de passado não trazem novas sensações; remendados servem, no máximo, para liquidação em um brechó.

Máximas roderiquianas (438) Assim como boas sementes não germinam em terra inóspita, cultura não floresce em um jovem sem um lar que estimule o intelecto.

Máximas roderiquianas (439) Uma mente vingativa é mais eficaz que um porte de arma.

Máximas roderiquianas (440) A paternidade é a forma que Deus encontrou para nos fazer conhecer o Mistério da Existência: criar um filho, entregá-lo à sociedade e ver essa criança usar o livre arbítrio para honrar nosso nome é o mais próximo da eternidade que o mundo terreno pode nos dar.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Emoção também é coisa de pai.

Está vindo aí o dia dos pais. Curioso observar como ele para mim é meio desconexo com o que normalmente se espera de um pai. Normalmente, percebemos que às mães são destinadas homenagens diferenciadas, com festa, rosas, declarações de amor explícitas, sensibilidade, lágrimas. Para nós, aquela imagem de suporte, determinação, força e – como não notar? – severidade educativa. Não cabe aqui uma discussão infrutífera sobre o papel maior ou o sofrimento físico ou emocional de um ou de outro, mas a verdade é que não nos imaginam capazes de privilegiadas emoções.

Não se espera de um pai a lágrima, o sorriso emocionado, o arrepio, a sensação de angústia e preocupação constante, dor. Talvez porque para a mulher a sociedade machista (mesmo entre mulheres) delegue, justamente pela dor do parto, toda a parte emocional do conceber e criar filhos. Parece que ao homem não cabem arroubos sentimentais, trêmulos depoimentos de amor ou admiração pelo sacrifício. Somos solenemente colocados num plano de valorosa coadjuvância, uma espécie de parceria que prima pela excelência, pelo resultado, mas não pelo processo. Pior: é como se não tivéssemos o “direito” de demonstrar uma suposta fragilidade emotiva diante do “machinho” ou da menina cujo complexo de Elektra parece ser regado sob a voz áspera, serena e taxativa da figura paterna.  

Nós, pais, somos tidos como frios, metódicos, provedores de um lar preparado para a emotividade da mãe e nossa dogmática “missão atávica” de baluartes da pureza das filhas e da masculinidade dos “pirocos”. Pois eu não sou adepto disso. Ao contrário, não me envergonho em dizer que por meus filhos estremeço, congelo, derramo-me em carinhos, dengos e calafrios. Sinto-me tão emotivamente abençoado e por vezes abalado quanto as mães. Eu rio com os primeiros tropeços e corro às primeiras quedas. Tal qual uma mãe instintiva, chego a magoar em nome da defesa de meus filhotes, talvez até melhor, com o equilíbrio um tanto sádico de ensinar-lhes as artimanhas para um troco bem dado, seja na palavra, no desprezo ou no porte. Não me envergonho de declarar que minhas crias são minha razão de viver. De chorar quando eles se vão antes da hora, deste mundo ou para ele. De ensimesmar-me numa dolorosa reclusão quando percebo que de mim eles nada mais esperam que um alicerçado e terrivelmente sofrido silêncio de apoio irrestrito, ainda que intimamente negado.

É até bíblica a diferença de trato entre o pai e a mãe. À Maria uma devoção católica festiva, perfeita e perfeccionista. A José, um discreto, silencioso e respeitoso carinho distante e contemplativo. É como se José não pudesse também chorar aos pés da cruz, nem amparar o Cristo nas quedas e dores. Estranho... Sinto-me muito mais homem quando me emociono ao ver o drama de crianças que veem no pai não apenas o herói, mas o fragilizado responsável por ser eternamente forte. Sem entrar em disputas tolas, mas a mãe tem a força da resistência à dor do parto, e nós, que por vezes transmitimos uma aparente fortaleza intransponível,  na verdade somos tão melancolicamente atingíveis em nossa muralha. Uma lágrima de um filho, mesmo alheio, é-nos um começo de um rompimento de um dique de solidez que nos foi inexplicavelmente imposto pelo mundo. Desfalecemos por dentro, transformamos o pranto em catarse: mantemos a postura de respaldo, transformamo-nos no porto seguro, quando parece não haver mais lágrimas a rolar de uma mãe desesperada e, ao mesmo tempo, também tão forte.

Ao ver um filho pedir-me para brincar, sentar no chão e com ele rolar, sinto-me o artista perfeito: o mímico da mão-de-monstro, o pintor do lápis de cera quase findo, o Pelé sem nenhuma habilidade, o palhaço triste que desperta o riso de uma alma carente de afagos protetores e desejos por voos longos e tão dificilmente aceitos. Geralmente percebemos mais cedo que a mãe que eles cresceram; mas demoramos séculos para admitir que a hora de dormir deles não nos pertence mais.


Sim, eu me emociono, com orgulho. E não me importa que meus filhos tenham vindo de meus testículos ou do meu coração. São eles que um dia verão em mim um homem de verdade. Aquele capaz de chorar de amor. Porque um filho que vê o pai se derramar em prantos pelo bem querer aos seus rebentos um dia, com certeza, será capaz de fazer de seu mundo algo menos temerário que os inimigos invisíveis que eles insistem e convencem de que temos de combater. Quando eles crescerem, esses inimigos serão enormes e bem visíveis. E serão minhas emoções e vibrações as armas  e escudo de meu herói eternamente criança, que combaterá todo o mal do qual não o consegui proteger.  

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Máximas roderiquianas (411 a 420)

Máximas roderiquianas (411) Para alguém que não ama, o que mais preocupa depois da satisfação da carne é o amanhã; para quem ama é a falta dele.

Máximas roderiquianas (412) Assim como a delicadeza é feminina e a brutalidade, masculina, o sorriso aberto deve ficar para as mulheres e a gargalhada espalhafatosa para os homens.

Máximas roderiquianas (413) A amizade tanto pode ser argumento para iniciar uma relação amorosa como para evitá-la.

Máximas roderiquianas (414) É desconsoladamente perdido este mundo, em que aparência sem inteligência equivale à sedução e inteligência sem aparência gera solidão.

Máximas roderiquianas (415) Ocupação é necessidade; profissão, identidade; vocação, felicidade.

Máximas roderiquianas (416) Entre permanecer calado, escolher palavras que amenizem mas descaracterizem o que se quer dizer e correr o risco de ferir suscetibilidades ao declarar francamente o que  se pensa, fico com esta última. Nem uma mísera opinião deve ficar escondida sob a capa da neutralidade ou o medo da incompreensão.

Máximas roderiquianas (417) A Vida inveja a Arte; portanto, jamais lhe será superior.

Máximas roderiquianas (418) Se Deus escreve certo por linhas tortas, não será o Diabo que Lhe presenteará com um caderno de caligrafia.

Máximas roderiquianas (419) A autenticidade traz paz espiritual, mas inspira a rejeição alheia.

Máximas roderiquianas (420) Há pessoas por quem nada fazemos nem no grito; e há outras cujo simples sussurro é o suficiente para gerar uma inominável onda de generosidade.