Máximas roderiquianas (41): A noite de Ano Novo nada mais é que uma adaptação de um conto de fadas à megapotência. Passamos um ano inteiro como Gatos Borralheiros, e acreditamos que aquele que se avizinha será melhor por conta de uma noite de Cinderela. Passados os preparativos, os fogos, a festa e o efeito dos alucinógenos químicos ou psicológicos dos quais escolhemos usufruir, todos os outros dias voltam a ser gigantescas abóboras.
Máximas roderiquianas (42): O problema dos relacionamentos é que eles são um circo: você fica andando na corda bamba, fazendo malabarismos pra pessoa ser direta e decidida como você é, tentando domar o leão dos ciúmes e o elefante do medo. Então ela se torna contorcionista, que foge da corresponsabilidade da afetividade, e cuja reação a sua queixa é te atirar facas. Ou seja, ela quer que você seja vidente, para adivinhar o que deve fazer pra conquistá-la. Você se sente um anão, de tão impotente, ou uma mulher barbada, de tão solitária que é a tarefa. Mas se você enfrentar o globo da morte dessa missão suicida, e ainda fizer a mágica de sobreviver emocionalmente a tudo isso, o máximo que conseguirá é recolher a lona e ser um palhaço, porque ela nunca admitirá que você deu um grande espetáculo.
Máximas roderiquianas (43): Pior que ser julgado como uma má opção, é não ter explicações para ser tido como uma boa opção e, ainda assim, não servir.
Máximas roderiquianas (44): De tanto perseguirmos a felicidade que teima em se esconder, chegamos ao ponto equivocado de achar que nós é que fugimos dela.
Máximas roderiquianas (45): Ir em busca das raízes não é simplesmente revitalizar o tronco esquálido, as folhas amareladas ou os frutos mortos em flor. É ter a vontade de descer ao mais profundo âmago, procurando forças pra estar vivo. Para se chegar ao sol, há que se fincar os pés no chão.
Máximas roderiquianas (46): Estabelecer limites de desejo é mais complicado que mantê-los.
Máximas roderiquianas (47): É detestável quando uma pessoa, omissivamente, faz de sua covardia uma justificativa para não tentar ser feliz. Porque ela não está mais privando apenas a si, apenas, dessa possibilidade. Mas ao outro, também. Quebre a cara, mas assuma o risco de ser digno o bastante para se permitir e ao próximo a rara chance da realização. É preferível sofrer a impedir os outros de tentarem ser felizes. Só depois do eventual fracasso você deve procurar o abrigo infame de seus temores. E até a tentativa seguinte, somente.
Máximas roderiquianas (48): Tenho a nítida sensação de que acordar com um despertador corresponde a uma vida ser arrancada a parto fórceps do seu limbo, para o nascimento.
Máximas roderiquianas (49): Aviso aos que gostam de inofensivos joguinhos de sedução: entrar na vida dos outros é mais fácil do que sair sem deixar rastros.
Máximas roderiquianas (50): Almas radiantes não reluzem em corações de pedra.
Máximas roderiquianas (51): Aprende a ler nas entrelinhas. Quando alguém te disser “Não fiques assim, tudo vai passar”, na verdade o que está sendo dito é: “Prepara-te adequadamente, pois a tendência é piorar sempre; fica forte, pois ainda não sofrestes tudo o que há por chorar”.
Máximas roderiquianas (52): Que me perdoem os detentores do saber saudável, os psicólogos de araque, os esperançosos analistas da dor alheia, os temporários gurus da espiritualidade de autoajuda: mas certas dores só o álcool e o fumo podem amenizar.
Máximas roderiquianas (53): Depois de certo tempo, não contamos mais a passagem das primaveras, mas ansiamos para que os outonos sejam complacentes e não nos tirem folhas demais. Já somos secos o suficiente por dentro...
Máximas roderiquianas (54): Deveríamos ser capazes de escolher se os alicerces sólidos de uma relação bem construída formariam uma bela casa de amizade ou um esplendoroso templo de amor.
Máximas roderiquianas (55): O xadrez realmente é o jogo da sociedade. As mulheres são poderosas, velozes e dominadoras. Os homens são importantes, procurados, mas lentos e encurralados, ao final. Os irracionais passam por cima dos outros, sem escrúpulos, não importa para qual direção pulem. Pessoas firmes e sólidas são retilíneas, embora possam recuar. A Igreja sai pela tangente, E os mais fracos são lentos, e só conseguem ascensão social se saírem de sua rota ou se transformarem radicalmente numa criatura poderosa. E é de praxe que, para vencer, infelizmente, você tem de devorar quem está em seu espaço.
Máximas roderiquianas (56): Entre a hipocrisia da mentira e a omissão do silêncio há um insignificante vácuo da infernal boa intenção. Não cales. Fala. Antes a pedrada certeira das palavras verdadeiras à carícia nefasta do elogio vazio ou à inércia cômoda da neutralidade. A verdade é boa, a mentira é vil e o silêncio é egoísta.
Máximas roderiquianas (57): Um dos maiores dramas de se morar só é não ter alguém para lhe coçar as costas.
Máximas roderiquianas (58): Se Deus me desse um pouco mais do que o que eu tenho, e um pouco menos do que eu julgo merecer, isso não seria uma interseção, mas uma redenção.
Máximas roderiquianas (59): O inferno é gradativo; o purgatório, partitivo; o paraíso, proibitivo.
Máximas roderiquianas (60): Para desejos e sonhos Neonatos ou Renatos, que deveriam ser Nonatos, só há uma solução: Assassinato.
(Só os malucos, como eu, entenderão – ou os que se agradam de uma brincadeira morfológica)
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